domingo, 31 de dezembro de 2017

2017 e o monstro debaixo da minha cama.









"Once there was a way...  To get back homeward... Once there was a way... To get back home... Sleep, pretty darling... Dot not cry... And I will sing a lullaby... Golden slumbers... Fill your eyes... Smiles await you when you rise... Sleep pretty darling... Do not cry... And I will sing a lullaby... (Golden Slumbers - The Beatles)


O monstro chegou aos poucos, quase sem alarde. Não percebi.  Naquelas noites,  as estrelas ainda brilhavam  e ofuscavam a noite. Ou então os  meus olhos é que conseguiam ver mais além da escuridão. Mas a verdade é que não vi o monstro chegar.

Ele se acomodou debaixo da minha cama. E se espalhou confortavelmente. Acho que gostou daquele espaço amplo e arejado, porque, no início, nem se fez notar. Deve ter sentido que nenhum outro monstro jamais esteve ali e aproveitou sua glória pioneira. Deve ser mesmo difícil disputar a sobrevivência com outros monstros. Esse reinou absoluto.

Por meses, manteve-se quieto e inofensivo. Quer dizer, inofensivo é modo de dizer. Preparou-se com estratégias de fazer inveja aos maiores generais da história.  Calculou cada movimento. Estudou-me, entendeu-me. E cresceu e engordou a sua monstruosidade.

Começou engolindo as minhas estrelas. Uma a uma, pouco a pouco. Minhas noites tornaram-se longas, escuras. Em seguida, comeu as beiradas das madrugadas. Meia-hora aqui, meia-hora ali, até noite e dia se confundirem. Depois, ainda não sei se por maldade ou apenas para agradar sua companheira desabrigada, trouxe a insônia. Quando dei por mim, ela já dormia na minha cama enquanto meus olhos, cansados e inchados convertiam-se em olheiras profundas e irreversíveis. O medo, percebendo a fragilidade, convidou-se sem convite. E tomou conta dos vazios da segurança e confiança. Abusado, vasculhou segredos, invadiu pensamentos, subverteu a ordem, encolheu-me. Acuou-me.

Foi então que  o ouvi, inconfundível:  o monstro debaixo da minha cama. Ruidoso, audível, ensurdecedor. Vencedor. E resolvi encará-lo. Com uma coragem escondida que ele não tinha conseguido levar - e eu nem sabia que ainda estava lá -  olhei-o fundo e profundo. E ele era horrível. Tinha uma cabeça enorme e um corpinho minguado. Seus olhos, esbugalhados, eram frios, gélidos, imóveis. Sua língua era comprida e mal cabia na sua boca enorme. Ele salivava. Uma gosma nojenta e muscosa que escorria pelo chão e deixava um cheiro fétido e purulento. Tive ânsia de vômito. Tremia dos pés a cabeça. Tive medo, muito medo daquele monstro horrível que fez da minha cama e da minha noite a sua morada.

Fechei os olhos bem forte e voltei pra minha cama. Não respirava. Meu coração batia forte e descompassado. Queria ardentemente uma luzinha, um brilhinho luminoso que me acalmasse. Mas o monstro tinha mesmo acabado com as minhas estrelas. E não me deixava sair dos seus domínios das trevas.

Desde então, convivemos - eu e o monstro. Tentamos conviver. Em acordo tácito não verbalizado, respeitamos os limites geográficos da minha cama. Ele debaixo, eu em cima.E também os limites dos tempos.  Ele à noite, eu de dia. Algumas vezes, nos cruzamos nesses limites temporais e espaciais. Ele me ameaça, ruge. Mas eu aprendi/tenho aprendido a enfrentá-lo. Maneira de dizer. Não enfrento, ignoro. Maneira de dizer. Não ignoro, tento dobrá-lo. É como se duas de mim se alternassem.  Uma, essa eu que conheço tão bem e que nasceu comigo. E essa outra, intrusa e desconhecida e de quem não gosto. Rejeito. Mas por quem tenho também uma enorme compaixão.

Até que fiz  progresso. Algumas noites, quando ele está mais desarmado e eu mais atenta, conseguimos até conversar. Tenho aprendido essa língua estranha e tão pouco acolhedora. E até que tenho me saído relativamente bem. Ele, por sua vez, tem recuado. Muito pouco, é verdade. Mas a cada passada pra trás, um mundo se abre diante de mim. Não o deixo  perceber. Faço que não vejo. Ele ainda acha que me domina. Melhor assim.

O maior dos aprendizados tem sido  conseguir ver o escuro. No escuro. Quando a gente consegue ver os contornos, tudo fica mais fácil. Quando a gente consegue enxergar o invisível, os olhos entendem. E o medo encolhe. E o entendimento encorpa, gigante. E a gente se fortalece. Gênio Drummond já sabia: Claro Enigma.

Claro Enigma é conseguir enxergar todas as luzinhas pirilampos que, ainda que imperceptíveis, nunca deixaram de me iluminar. Anjos. Tantos anjos. Anjos-filhos, anjos-irmãos, anjos-família, anjos-amigos.  Até anjos novos, recém chegados e cheios de energia! Anjos-luz  que brilharam  nas minhas noites compartilhadas com esse monstro terrível.  Anjos-guindastes que me obrigaram a levantar e seguir. Anjos-acolhedores que me ouviram, consolaram, ajudaram. De tantas formas. Anjos-guerreiros que travavam minhas batalhas enquanto eu, cansada, sucumbia. Anjos delicados. Anjos sensíveis, Anjos abençoados.

 O monstro bem que ainda tenta me imobilizar e prender em  2017. Deixar o tempo seguir o curso é abrir o umbral de seus domínio. É me perder. E me perderá! Virar, sobrevivente, 2017, é abraçar o meu Claro Enigma!

Que 2018  mingue monstros e  crie debaixos-de-camas leves, livres e criativos!

Desejo a todos estrelas abundantes!! Luzes de reconstrução. De enfrentamentos. De entendimentos. De enigmas claros e reluzentes.

Feliz 2018!!









sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Feminismo.






mulher. homem.luta. respeito. cólica. eu te amo. machismo.igualdade. orgasmo. ou não. discriminação. lingerie. me larga! fogão. misoginia. amamentação. eu posso. não pode. posso? seios. desejo. animal. animais. denúncia. surra. amor. desejo. mãe, quero! mãe, preciso! mãe, mãe, mãe! pênis. gostosa. reunião. reuniões. febre. vagina. vergonha. salário. perfume. supermercado. vestido de noiva. ou não. salto. prazer. competência. preconceito. estou tão cansada. tira a mão! batom. sexismo. cicatrizes. não me bata! vadia. puta. liberdade. você não entende dessas coisas. solidão. dieta. moda. direito.direitos. ou não. acorda, arruma o café, prepara as merendas, deixa o almoço pronto, leva pra escola, pega na tinturaria, lava a roupa, limpa a casa, ajuda na lição, prepara o jantar, limpa a cozinha, desmaia. sobreviver. estupro. um, dois, três, dezesseis. lua e estrelas. movimento. amor. tanto amor. a sra assina aqui, por favor? me ajudem! assédio. na rua, no trabalho, em casa, nas artes. menstruação. depilação. isonomia. ah, como eu queria... não quero! não quero! decote. bunda. mão na bunda. promoção. ou não. só podia ser mulher! espelho, espelho meu! aborto. meu corpo. shhhh... não tenha medo... movimento. em vão. silêncio. oportunidades. isso é roupa que se use? fêmea. suavidade. conhecimento. política. políticas. políticos. nojo. asco. náusea. me acompanhe, por favor. varizes. maternidade. vertigem. olheiras. preocupação. meritocracia. ou não. teste do sofá. filogenia. sucesso. humilhação. patriarcado. gênero. estupidez. submissão. cor de rosa. eu te levo. eu te ajudo. eu te acompanho. eu te entendo. eu te ouço. eu te apoio. celulite. superioridade. empatia. união. sororidade.  macheza. macho. virilidade. orgulho. tanto orgulho. com. muito. sem. sem tréguas. sem negociação. sem concessões.sem discussão. sem volta.  sem menos. só mais. e adiante. e tudo isso. tenho dito. o dito pelo não dito. mais pelo não dito. e pelo não feito. defeito. feminismo.

domingo, 19 de novembro de 2017

Benditas terceiras margens!





"e, eu, rio abaixo, rio a fora, rio a dentro - o rio."


Comecei Guimarães Rosa ainda no colégio, com Sagarana como leitura obrigatória. Não gostei. Ou não entendi. Ou ambos. Não é fácil ler Sagarana. Não é nada fácil começar Guimarães Rosa. 

A Terceira Margem do Rio foi o conto que rompeu as minhas comportas hídricas  com a linguagem rosiana e jorra, desde então, caudaloso e irreversível, como uma das minhas mais sagradas referências literárias! 

A imagem de uma terceira margem de um rio é de uma genialidade insuperável! Quantas e quantas vezes apenas essa invisível e intangível terceira margem revela soluções? Ou explicações? Ou conforto? Desconhecer a terceira margem é limitar o mundo de forma quase sufocante. Insuportável. A terceira margem é libertadora. A terceira margem une o impossível, o indizível. E é única, pessoal e intransferível. E inconfessável!

Acredito que só se consiga entrar, efetivamente, em Guimarães Rosa, através dessa terceira margem. Apenas cruzando essa linha imaginária e despidos de qualquer hermetismo linguístico anterior, mergulhamos na iluminação dos mistérios quase de fé que ele criou. Que gênio!!!

Guimarães Rosa é gênio!!! Gênio pela retórica inovadora e incomparável! Gênio pela oralidade traduzida em prosa! Gênio pela simplicidade da maior complexidade! Gênio pela globalização visionária e vanguardista: o sertão é o mundo e o mundo é o sertão!

Grande Sertão: Veredas, sua maior obra, universaliza o "viver é perigoso". A aridez do sertão ecoa na aridez de todos os heroísmos pela sobrevivência. E eleva a saga de Riobaldo aos  patamares da Ilíada de Homero, de Fausto de Goethe, de Dom Quixote de Cervantes e da Divina Comédia de Dante. Não por acaso, é o único livro brasileiro incluído na lista dos 100 melhores livros de todos os tempos! E em 27º lugar!

Reler Sagarana, anos depois, foi fazer as pazes com o começo "avessado" do colégio.  Hoje, Sagarana é um dos meus livros favoritos e, a cada releitura, surpreendo-me com as infinitas revelações e inspirações! E encanto-me com essa coletânea de fábulas que explicam, com tanta poesia e sensibilidade, todos os sentimentos do mundo!

Viva João Guimarães Rosa!! E muitos vivas ao seu maior legado:  nossas terceiras margens. E quartas, e quintas, e... 










sábado, 18 de novembro de 2017

A Tartaruga de Darwin. A História por debaixo.








                                                                        "Viver é adaptar-se."


Charles Darwin publicou  A Origem das Espécies em 1859. A obra-prima que apresentou a Teoria da Evolução foi resultado de estudos e observações registrados  durante a viagem de 5 anos do então jovem biólogo, de apenas 26 anos,  a bordo do HMS Beagle. As Ilhas Galápagos, em especial, foram o grande laboratório natural de inspiração e determinantes para a fundamentação de sua Teoria.

Darwin impressionou-se particularmente pelas gigantes tartarugas  e levou 3 delas de volta à Inglaterra. Por serem muito jovens, as tartarugas não forneceram evidências tão consistentes quanto os pássaros de Galápagos e, em função disso, e para viverem em um habitat mais parecido com o original, foram transportadas para a Austrália.

Harriet foi a mais longeva e famosa dessas tartarugas. Na verdade, foi tratada como Harry até 1960, quando só  então foi identificada como fêmea! Harriet morreu em 23 de junho de 2006, aos 175 anos, no Jardim Zoológico de Beerwah em Queensland, na Austrália.

O dramaturgo espanhol Juan Mayorga inspirou-se na história de Harriet para escrever, em 2008, A Tartaruga de Darwin. Para ele, a vida da tartaruga coincide com as maiores transformações da humanidade. Harriet foi testemunha da Revolução Russa, das 2 Guerras Mundiais e da Queda do Muro de Berlim. Harriet sobreviveu a onze papas e a trinta e cinco presidentes norte-americanos. E há visão mais  inovadora do que a imaginar a História por debaixo, apenas ao  alcance dos olhos de  uma tartaruga?

Mayorca constrói Harriet, evoluída exponencialmente como previa a Teoria de Darwin, como uma senhora de 200 anos, que pensa, fala e se comporta como um ser humano. Cansada, deseja voltar às Ilhas  Galápagos para morrer em casa. Para isso, procura um renomado historiador e, em troca de suas memórias históricas, pede a sua ajuda para a viagem de volta.

E são nessas memórias tão particulares que revivemos a história e os bastidores de alguns dos grandes acontecimentos. Sempre na altura que permite a sua visão. E é assim que ela conseguiu ler, em primeiríssima mão, o esboço do Manifesto Comunista que Marx deixou cair, acidentalmente, na rua por onde ela passava. E participou dos primeiros discursos de Hitler quando vivia como bicho de estimação de uma senhora alemã. E deu a cabeçada inicial que derrubou o Muro de Berlim. Ao mesmo tempo, Harriet se emocionou com pequenos gestos que presenciou, como o olhar apaixonado de um soldado.

Ao mesmo tempo, a "evolução" de Harriet  é proporcional à decadência dos valores humanos. Ficou de pé pela primeira vez para não ser pisoteada. Aprendeu a ler com a revista Times, de cujas "cruzadinhas" Darwin era fã. "Não" foi a sua primeira palavra, tentando salvar uma menina. E viu o pior do ser humano, resistindo graças à sua natureza cascuda. "De todos os animais, o homem é o mais terrível", afirma Harriet. O "debaixo" de Harriet, nesse sentido, é o simbólico "debaixo" da nossa civilização.

A diretora Mika Lins apresenta uma montagem muito original! Henriqueta é a versão brasileira de Hariet e desafia o protótipo de uma respeitável senhora de quase 200 anos! Mika é imbatível na concepção minimalista de cenários e figurinos. Esse é o 3º trabalho do meu filho  com a Mika  e sempre me surpreendo com a sua precisão e concisão  espacial,  com sua  contemporaneidade cênica e com sua habilidade em misturar linguagens.

O cenário é muito bem concebido e apoiado na iluminação muito eficiente! Chão e móveis reluzentes e painéis de "radiografias" históricas pontuam os espaços e os tempos. Menos é realmente mais!

Mas é no figurino de Henriqueta que Mika se supera! O mosaico de estilos, texturas e cores sintetizam 200 anos de moda! E evidenciam a modernidade e atitude transgressora de quem, ao longo de 200 anos, incorporou hábitos e estilos. Henriqueta adotou itens de vestuário conforme viveu suas experiências. Do penteado conservador do início do século ao par de tênis cor-de-rosa do séc XXI, acessórios desconexos compõem o figurino que traduzem o tempo que passa. O resultado é impressionante!!

Ana Cecília Costa é Henriqueta, Marcos Suchara é o historiador, Tuna Dwek  é a sua esposa e Diego Machado é o médico que tenta desvendar as transformações do ponto de vista biológico. Elenco afinado, harmônico e que trazem de seus personagens o tom necessário para a dramaticidade e também para a comicidade.

Pois é nas oportunidades para a  comicidade que Mika Lins consegue quebrar a "seriedade" histórica e brincar com o teatro e com o palco. Divertir. O público e o palco. No palco. Fazer do exercício dramático  um espaço para auto crítica e experimentação. E impor leveza irônica e descompromissada.

 Um belo trabalho de crítica à nossa involução!

Se Darwin  pudesse imaginar...











terça-feira, 31 de outubro de 2017

A bruxa está solta.







A bruxa está solta!! Acionou-se o alarme. A bruxa está solta!! Gritou-se em ruidoso alarde. A bruxa está solta!! O pânico colocou-se em alerta. A bruxa está solta!! E foi o Deus nos acuda!Era chapéu voando pra um lado, gato preto se escondendo pro outro, caldeirões revirados, verrugas arrancadas! A bruxa está solta!!E já não se ouvia um pio de coruja e nem o farfalhar de asas de urubu. O tempo, suspenso, nem ousava respirar. Aguardava e espreitava. Atento. Nada se movia. Nada sugeria. Nada denunciava. O mistério silencioso esgueirava-se em fugacidade intangível. Mas o tempo, experiente e obstinado, não desistia! Sabia que bruxa estava solta! Sentia a sua ausência sob o peso do indecifrável... E foi então que avistou a velha vassoura encostada, com displicência disfarçada, no muro que dividia o aqui do lá. Não se enganara. A bruxa continuava solta...


(Publicado no Grupo Minicontos em 29.10.2017. Palavra-chave: BRUXA)


sábado, 21 de outubro de 2017

Aquela noite em 67.






Ponteio, Domingo no Parque, Roda Viva, Alegria Alegria , A Estrada e o Violeiro. 

Edu Lobo,  Gilberto Gil,  Chico Buarque,  Caetano Veloso,  Sidney Miller. E Sérgio Ricardo.

Marilia Medalha, Os Mutantes, MPB4, Beat Boys e Nara Leão.

Violão, Guitarras elétricas, berimbau. E um violão quebrado. 

MPB, Jovem Guarda, Tropicália. 

Se ter reunido diamantes musicais desse quilate naquela noite em 67 já parece quase impossível, repetir, em algum momento no futuro, algo minimamente semelhante é inimaginável!

Uma noite mágica! Uma noite inesquecível! A noite que mudou a música brasileira e estabeleceu um patamar de excelência correspondido  e jamais superado.

Estava tudo lá. Os segredos não reveláveis das genialidades que combinavam letras e músicas para cantar as profundezas das nossas brasilidades caladas e/ou em construção. As formalidades e as transgressões em consonância e equilíbrio improvável. As emoções à flor da pele. As juventudes protagonistas. 

Que noite! Ah... Que noite! Ainda que as torcidas fossem ruidosas e parciais, ainda que a disputa fosse tão acirrada, jamais outra  noite provocou tanta comoção e mobilização. E tantas memórias grandiosas de uma  parte da nossa história que deu certo. 

Que noite grande! Ah...Que grande noite! Noite que ainda ecoa nos ouvidos em acordes perpétuos! E que é marco. E que é divisor. E que é referência e ponto de partida. Pela noite em 67, sempre teremos para onde voltar  para reconhecimento e espelhamento.

Aquela noite em 67 foi uma só noite em várias. Noite de música, noite de política, noite de participação, noite de engajamento, noite de posicionamento, noite de inconsequências, noite de experimentações, noite de acasos, noite de bandidos e mocinhos, noite de aplausos, noite de vaias. 

Uma noite tão especial que comportaria qualquer resultado! E qualquer que tivesse sido a ordem das premiações, teria provocado o mesmo ganho! 

Ao comemorar os cinquenta anos da noite em 67, impossível não reverenciar os protagonistas que ainda fazem história e continuam sendo referência da produção cultural do nosso país. Ao mesmo tempo, impossível não lamentar a esterilidade que não produziu prole fecunda e renovadora. 

Salve aquela noite em 67! Que privilégio tê-la em destaque no calendário da minha vida!




 

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Minhas crianças.








São dezenove as minhas crianças.
Duas são só minhas. E eu sou delas. Elas me são. E eu só sou nelas.
Outras nove divido com minhas irmãs e irmão. São nossas e nos unem e completam. Mas não deixam de ser um pouquinho só minhas, por ser a Ticinha delas.
As últimas oito - por enquanto! - já são frutos dos nossos frutos. São minhas e nossas e das nossas. E, para nossa alegria, não param de chegar!
E são essas dezenove crianças lindas, especiais e tão amadas que me lembram, todos os dias, a enormidade do ser CRIANÇA!!!


quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Mercedes - Ay sí sí sí







 Mercedes Sosa ainda é - e sempre será -  a voz da América Latina! Dela, a trilha sonora da luta por liberdade, pela democracia e pela justiça social.Uma mulher forte, de presença marcante e nada convencional. Sem dúvida, uma das vozes mais poderosas e inconfundíveis da minha geração. Ao mesmo tempo em que cantava palavras duras que denunciavam os  contrastes tão injustos, surpreendia pela doçura de sua voz. Sua bela voz, que cantava por nós a nossa não tão bela condição. 

A música como instrumento de parceria e troca. A aproximação, pela semelhança, das diferenças que caracterizam  o nosso continente. Reconhecer a qualidade, a diversidade, o talento de tantos sons diferentes e dispersos e em idiomas diversos, ritmos exclusivos, recursos desiguais e mensagens desconexas.

Lembro-me da primeira vez que ouvi Volver a los 17. Tinha exatamente 17 anos e estava  estudando para o vestibular. Ouvia essa música dia e noite, noite e dia e a voz do Milton Nascimento e da Mercedes, e o refrão "se va enredando enredando, como en el muro la hiedra, y va brotando brotando, como el musguito en la piedra, como el musguito n la piedra, ay sí sí sí" se misturavam com as fórmulas de física, datas históricas e movimentos literários.

E assim entrou Mercedes na minha vida. E embalou meus sonhos de estudante  e minhas discussões inflamadas sobre os rumos do nosso país. E alimentou a minha confiança em conseguir mudar o mundo. E quanto mais a ouvia, mais me descobria e descobria a minha latinidade. E passei a me interessar pela música latina e descobri talentos incríveis e sons maravilhosos. E passei a me interessar por autores latinos e a ler suas ideias e poesias. E fui, aos poucos, perdendo a ingênua alienação adolescente para a crueza da nossa realidade política e social.

Duas de suas músicas, em particular, são parte das memórias da infância dos meus filhos. Eles tinham quatro e cinco aninhos e morávamos em Buenos Aires e depois em Porto Rico e, portanto, o espanhol era  idioma familiar e referencial.  Mercedes nos acompanhava  a caminho da escola.  A primeira música era Los Hermanos. Daniel e Marina esperavam ansiosamente pela última estrofe para cantar bem alto "Y una hermana muy hermosa que se llama libertad!" Eles achavam o máximo ter vários irmãos e apenas uma irmã! Santa inocência! A segunda música, ainda hoje uma das minhas favoritas, era Duerme Negrito. Eles amavam a estrofe"Y si negro non se duerme, viene el diablo blanco y zaz, le come la patita chacapumba, chacapumba, apumba, chacapumba".

Nos oito anos sem Mercedes, nossa América Latina segue à deriva em busca de sua consciência e identidade. Parece que, ao perdermos sua voz, perdemos o fio condutor dos ideais comuns de democracia e justiça social. Desagregados, damos cabeçadas cegas enquanto retrocedemos, retrocedemos, retrocedemos. Que falta faz Mercedes!

 Mas La Negra segue  como inspiração necessária em meio ao caos profundo. Caos moral, ético, político, social. Caos humano, que põe em dúvida a própria vida.  Eternizando a  obra prima de Violeta Parra,   nos ensina a louvar a vida em um idioma que não é o nosso, mas que só nele traz a intensidade e o sentido com o qual precisamos nos identificar.  "El canto de ustedes que és el mismo canto, y el canto de todos que és mi próprio canto".

Y Gracias a la Vida!


sábado, 30 de setembro de 2017

Traduttore, Traditore.



Johannes Bramhs compôs Concerto para  Violino -  seu único, e considerado entre os 4 melhores da música alemã - em 1878. 125 anos depois, o pianista croata Dejan Lazic dedicou-se a traduzir este concerto para  piano. O projeto levou 5 anos e tive o privilégio de ver/ouvir o resultado na Sala São Paulo há alguns anos.

Fico maravilhada com essa habilidade tão especial que torna possível traduzir linguagens. Toda e qualquer linguagem. Conhecer tão profundamente técnicas, significados, esquemas simbólicos e modalidades de sentido capazes de preservar o conteúdo, emoção e intenção da criação original, mesmo incluindo conteúdos, emoções e intenções absorvíveis pela linguagem traduzida.

Traduzir é permitir conhecer, entender e vivenciar outras linguagens, outros códigos, outras culturas, outras influências, outras sensações.

Traduzir é construir pontes que transpõem barreiras de comunicação,   aproximam, encurtam distâncias.

Traduzir é fazer o mundo caber nas mãos!


quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Rosh Hashaná.






Rosh Hashaná, o ano novo judaico, celebra a criação do homem. É  tempo de reflexão e observância. Despertar, ao toque do shofar, a consciência sobre o direito de existir à imagem e semelhança a Deus, conferindo ao homem o poder divino de mudar o mundo, seja para construí-lo cada vez melhor e mais bonito, seja para destruí-lo. Livre arbítrio: que nos diferencia de todas as criações.

Atribuir ao livre arbítrio a expressão máxima do Rosh Hashaná significa  assumir responsabilidade sobre as próprias decisões. Para que mais decisões corretas sejam tomadas, é fundamental que cada um se conheça íntima e intensamente  como ser individual com ideias, pensamentos e desejos próprios e escute as aspirações da alma. Nossa alma é o nosso verdadeiro eu e seremos mais ou menos felizes quanto mais atentos e leais formos aos seus anseios.

O livre arbítrio também permite reavaliar decisões que não sejam mais válidas, ainda que já tenham sido um dia. Perdoar e perdoar-se. Começar novo, limpo, inteiro, entregue. Tantas vezes quanto necessárias para a paz interior e para o engrandecimento da existência.

Em Rosh Hashaná, Deus abre o Livro da Vida. Ser inscrito/reinscrito é a verdadeira comunhão da essência judaica!

Não há  imagem mais inspiradora e libertadora! Livros são guardiões. Confinam palavras e ideias no espaçamento de suas páginas. Guardam e registram fatos e pensamentos. Mas, ao mesmo tempo, rompem todas as barreiras! Criam mundos, inventam palavras, multiplicam-se em sentidos e significados inusitados e transgressores. E é nessa dualidade entre o limite e o ilimitado que o ato de escrever/inscrever contém e resiste à ordem e ao aleatório.

Entender as histórias - individuais e coletivas - ensina erros e aponta novos caminhos de acertos. Construir histórias - individuais e coletivas - explora potenciais, ensina limites  e oferece oportunidades. Poder escolher boas histórias para viver e escrever é o maior presente e também o  maior desafio.

E ainda que Rosh Hashaná seja uma celebração intrinsecamente judaica, seus símbolos podem inspirar momentos coletivos de reflexão e inspiração. Reflexões e renovações mais do que necessárias diante das turbulências sombrias que temos atravessado como humanidade.

Que novas e nobres  histórias sejam inscritas no Livro da Vida - de vidas! Doces, como sempre devem ser.


Shaná Tová Umetuká!






quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Alice que me dizendo há 2 anos!








Alice Que Me Disse nasceu em 13 de setembro de 2015. Era um projeto antigo, embora sem pressa,  só tornado possível, diante do meu total analfabetismo digital,   pela minha amiga Maysa Torres.  Dois anos e 150 textos publicados depois, manter o blog tem sido muito prazeroso. E fonte de  muitos aprendizados.

Aprendi, por exemplo, que blog é  propriedade egoísta e egocêntrica. O prazer de escrever e pelo que se escreve não é objeto do leitor, mas exclusivo de quem escreve. Aprendi também que não é fácil imprimir identidade  quando os interesses são muitos ou quando o objetivo é apenas expressar-se. Sem foco, sem tema, sem alvo. Aprendi que blog tem pouco alcance e pouca sintonia com a instantaneidade em que vivemos. Blog é lento, pausado. E aprendi, sobretudo, os monólogos que pautam a nossa comunicação atual.

Nesses dois anos, registrei algumas das profundas transformações políticas que atravessamos. Assisti a alguns filmes, shows e peças de teatro.  Acompanhei a Rio 2016. Filosofei em cima do nada. Ou de alguns tudos. Dividi lutos e alegrias. Compartilhei memórias. Corujei meus filhos. Homenageei família e amigos. Ensaiei minicontos. Sem qualquer pretensão literária, escrevi o que vinha de dentro, da emoção.

Penso nesses 2 anos como em 2 vidas. Tanto aconteceu, que parece outro mundo. Relações suspeitas, valores questionáveis. Difícil absorver, apreender, depurar, elaborar. Mais difícil ainda é reconhecer o quanto regredimos como pessoas, como humanidade. Tantas barbaridades, tantas desumanidades.

Hoje estamos divididos em multiplicações frenéticas. Inventamos inverdades, adaptamos fatos, julgamos sem perdão. Tornamo-nos especialistas absolutos sem qualquer respaldo teórico. Não permitimos discordâncias. Ressentimos dissonâncias. Rejeitamos confrontos. Polarizamos inconciliáveis. E embrutecemos, endurecemos. Atos de gentileza ou de elegância são fragilidades, não qualidades. Protegemo-nos no pseudo anonimato, crescemos na virtualidade. O coletivo engoliu a individualidade, a particularidade. Perdemos identidades para tornarmo-nos selfies. A palavra selfie esvaziou-se, tornou-se a negação de si mesma.

E é  justamente na palavra que o Alice Que Me Disse me mantém conectada, atenta, curiosa, esperançosa. Quanto menos dialogamos, mais a palavra ganha importância. Quanto mais monologamos, surdos e alheios, mais a palavra redime. Quanto mais nos angustiamos e desiludimos, mais a palavra salva. Não  há outro caminho que não seja pela palavra.

Mas não a palavra vã, deformada ou subtraída de seus significados e significantes. Resgatar a palavra na  sua essência mais primitiva e na sua natureza mais cristalina é o repouso para as nossas almas cansadas. A palavra é, na sua origem, pura poesia.  Há ato mais poético do que nomear coisas, pessoas, emoções? A palavra tudo pode, tudo permite, tudo desafia. A palavra cria, inventa, constrói, transforma e desafia. E depois faz todo o caminho inverso. Infinitas vezes.

E por que, então, perdemos o valor da palavra? Por que deixamo-la contaminar, desgastar, infectar, adoecer, sucumbir? Por que nos fechamos, surdos, cegos e mudos em grunhidos inaudíveis e insensíveis?  Em que momento a palavra  tornou-se  um fardo? Distanciou-se intangível e inacessível? Tornou-se literal? Descartável? Reciclável?

Sonho com a revolução incontrolável das palavras! A recuperação avassaladora da poesia que emocione, abrande, acalme. O levante incontido do que argumente, ouça, pondere, ecoe, engrandeça e transponha. Além, muito além. E mais além ainda. O além que tangencie o princípio. E que eles se confundam, até não sabermos mais qual é qual.

Nesses 2 anos do Alice Que Me Disse, celebro o poder absoluto, inquestionável e soberano da palavra. Celebro os diálogos. As composições improváveis. As metamorfoses linguísticas. O imponderável. As transgressões O mergulho alucinado  nos universos simbólicos. E, por fim, o descanso merecido em aliterações e assonâncias suaves e reparadoras.

E tenho dito!







quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Imaginai. O imperativo essencial.



Vivenciar a experiência teatral na sua plenitude é, acima de tudo, entregar-se à imaginação. Entregar-se verdadeiramente. Sem resistência. Sem escrúpulos.

Se, na  fração do tempo imensurável entre  a cortina se abrir e o palco ganhar vida, a imaginação não assumir o protagonismo absoluto  sobre os nossos filtros de realidade e distanciamento, a mágica do teatro não se dá.  A cumplicidade  entre público e palco é determinante para que, naquele espaço, tudo caiba, tudo possa, tudo permita.

Fechar os olhos, suspender a respiração, aguçar os sentidos e  e mentalizar o mantra "Imaginai! Imaginai!" é a porta de entrada  para o ritual teatral na sua mais primitiva essência.

Como, portanto,  imaginar nome mais perfeito para a obra recém lançada sobre o Teatro de Gabriel Villela? O teatro do Biel é o mais indecoroso convite à lascívia da imaginação. Imaginai o inimaginável! E  o palco o revelará!

O livro organiza, de forma impecável, a trajetória criativa do Gabriel. De "Você vai ver o que você vai ver" (1989)  a Boca de Ouro (atualmente em cartaz), são 28 anos de carreira! São 43 peças, das mais clássicas a textos atuais e mais populares, além de shows e óperas. E, a cada produção, o limite da imaginação é desafiado e, com muita competência, atravessado.

Dib Carneiro Neto e Rodrigo Audi reuniram depoimentos e fotos, além  de memórias  e percepções do próprio Gabriel para produzir esse compêndio barroco. Que trabalho incrível! Que travessia convidativa! Que resultado fantástico!

O livro chama atenção pela potência visual. Como o próprio Rodrigo Audi colocou, os fotógrafos de palco são os responsáveis pelos registros perpetuados das produções teatrais. Sem o seu olhar preciso, atento, além, detalhista, sensível e emotivo, a mágica do palco não conseguiria ser capturada, capsulada, e, reverencialmente, eternizada. Cada uma das belíssimas fotos tem alma de palco, de texto, de atores, de figurinos, de cenários, de iluminação, de maquiagem, de música, de ensaios, de estudo, de leituras, de adereços, de medo, de frio na barriga, de euforia. E de direção. Os olhos ardem de tanta beleza.  Os olhos ajustam suas miopias febris para experimentar as  texturas, temperaturas e sensações.

Imaginai!! Os bastidores de cada uma das 42 peças organizadas! Imaginai! As fotos escolhidas para cada uma delas! Imaginai! Relatos e depoimentos deliciosos  de colegas, atores, críticos e parceiros profissionais! Imaginai! Está quase tudo ali.Aqui. Nas minhas mãos.

Conheci o Biel - e o seu teatro - em 1990 com "Vem buscar-me que ainda sou teu". Uma montagem que me provocou inquietude por ser tão fora dos padrões a que estava acostumada. Mas não a inquietude incômoda ou desconfortável, mas sim, a inquietude curiosa. E cautelosa, por não saber exatamente a que me abria.

Acho que só entendi realmente a magnitude do talento criativo do Biel depois que conheci a sua casa em Carmo do Rio Claro. E o seu atelier. Não me esqueço da minha primeira estadia lá! O cenário é tão arrebatador, as referências são tão abundantes, o contágio barroco é tão inevitável, que tudo passa a fazer sentido. Ou justamente o contrário! Mas que é, no fim, a mesma coisa. Pelas mãos do Biel, conheci a igrejinha do Itaci e a restauração dos anjinhos barrocos. Conheci as tecelagens carmelitanas.  Conheci as docerias artesanais. Entendi que terceiras margens não são para todos. E ouvi histórias locais e universais.

Há uma história que não está em Imaginai!, mas que vive na minha memória. Em algum momento que não sei precisar, lançaram uma coletânea de músicas do Chico Buarque e alguns artistas foram convidados a produzir alguma coisa sobre elas para a exposição de seu lançamento. Ao Gabriel, coube Com Açucar com Afeto. Ele, então, escreveu toda a letra da música nos doces caseiros locais, colocou tudo num tacho mineiro e lá foi pra exposição. O engraçado da história é que os visitantes entenderam que os doces eram pra ser comidos e acabou tudo. Não me lembro se deu tempo para reporem para os próximos dias ou se a exposição ficou mesmo desfalcada! Amo essa história! E amo imaginar a  doçura dos doces carmelitanos associados ao açúcar do meu compositor favorito!

Desde então, sou fã assumida e rendida. Surpreendo-me a cada nova produção! Emociono-me a cada nova montagem. Aprendo. Muito. Desequilibro-me. Acho chãos.

Passou e repasso essas páginas com a cumplicidade pelas peças que tive a sorte de ver! E com o arrependimento pelas que não vi. Assim é o teatro. O que foi, foi. Ficou ali, no palco silencioso e à espera.

Imaginai! é  apropriação egoísta. Mas justificada pela imaginação realizada em mão dupla. E endossada pela alegria e orgulho das últimas páginas também já contarem um pouco a trajetória do meu filho!

Imaginai! Imperativo. Essencial.









domingo, 3 de setembro de 2017

A alquimia de Bingo - O Rei das Manhãs.

"Tem gente que nasceu para ser formiga, tem gente que nasceu para ser cigarra. Nós nascemos para ser mariposas. Adoramos a luz." (Bingo - O rei das Manhãs)



Bingo - o Rei das Manhãs - é um filme alquímico.  O editor Daniel Rezende (Cidade de Deus, Tropa de Elite, Árvore da  Vida) fez-se diretor.  Bonzo virou  Bingo, SBT virou TVP,  Rede Globo virou Mundial, Xuxa virou  Lulu,  Marcia de Windsor virou Marta Mendes e Arlindo Barreto , o Augusto Mendes, tornou-se um dos melhores personagens já produzidos pelo cinema brasileiro!

Os bastidores da tv brasileira nos tresloucados anos 80 são o pano de fundo  para a trajetória de Augusto Mendes, o palhaço que revolucionou as manhãs infantis! Uma trajetória permeada de comicidade, ternura, afetos, desafetos, decepções, vícios e perdas. Sem pretensões de potencializar o cômico ou o trágico, as alternâncias são reais e críveis. Partes inseparáveis de quem viveu dentro da arte e que apenas conhece os holofotes como validação de identidade. Na medida certa.

Dizem que o Brasil não é para principiantes. Bingo confirma a tese. Só mesmo no Brasil, um ator de pornochanchadas viraria o ídolo de milhões de  crianças. Só mesmo aqui, o formato hermético do sucesso americano cederia à  transgressão de Gretchen, em roupas mínimas, rebolar Conga Conga Conga em pleno horário matutino! E só aqui um ator reabilitado do abuso das drogas, após o auge da fama, encontraria o  seu verdadeiro palco na religião evangélica.

Bingo é um filme de camadas. Camadas que, ainda que intencionalmente leves, são  tão densas e intensas quanto às máscaras que o anonimato obrigatório esconde. Por trás dos quilos de cores, as fragilidades humanas. Por trás das roupas e cabelos extravagantes, as inseguranças e limitações. Por trás da briga pela audiência, as vaidades e sordidez dos números que determinam sucessos e derrotas. Um filme que orgulha o cinema nacional!

O elenco, ainda que majoritariamente coadjuvante, está afinado e alinhado! Leandra Leal dá show! Que grande atriz! Ana Lucia Torre está ótima como a mãe amarga e decadente... O menino Cauã Martins emociona como Gabriel. Tainá Muller é a ex-mulher e Emmanuelle Araújo encarna uma Gretchen perfeita!  A emoção maior fica por conta de Domingos Montagner como mentor circense de Bingo. Sua morte trágica ainda é recente e vê-lo como palhaço, como início mesmo de sua carreira, é tocante.

Vladimir Brichta está perfeito no papel! Desaparece atrás do nariz de palhaço para aparecer, sem a maquiagem, com todas as suas humanidades. Sopros de leveza e  apertos de tristeza.

A trilha sonora impecável é uma viagem no tempo! Assim como a perfeita ambientação e figurinos!

Engraçada essa coisa de palhaço... No dicionário dos símbolos, o palhaço representa o reverso da medalha da realeza, opondo-se à soberania com irreverência; ao temor com o riso; ao sagrado com o profano. Palhaços provocam reações extremas, que oscilam da admiração ao medo. Mas jamais indiferença! Alguns transpiram alegria genuína; outros, melancolia. Seja como for, são determinantes na formação do nosso imaginário e na nossa percepção das mazelas humanas como objeto de riso.

Bingo vai além dos exageros e superlativos que encenam o trivial. E revela a vida oculta atrás dos trajes e trejeitos inusitados. Vidas mariposas, sempre à busca de luz.




terça-feira, 29 de agosto de 2017

Smoke free.







Começar a fumar na adolescência, na minha época, era um rito de passagem. Fazia parte. Era "adulto", moderno, charmoso, glamoroso, inteligente.  Em plena ditadura e com a ebulição cultural de Chico, caetano, gil, teatro arena, censura, etc, descobrir e discutir a  vida   entre as baforadas do cigarro era altamente filosófico!

Fumar na minha casa era proibido. E, claro, não escapei do lugar comum dos que fumavam escondido: trancar-me no banheiro e depois borrifar desodorante, mascar chiclete, fumar na escada entre os andares e o típico "não é meu, só estou guardando pra uma amiga!". Uma vez fomos a uma festa e meus pais foram nos buscar. Entramos no carro e minha mãe perguntou: Quem fumou? Nós, estáticas. "Maria Alice, fala perto de mim". E eu com o maior bafo de cigarro. E assim foi com cada uma de nós. Quem escapou? Minha irmã Cristina. No trajeto até o carro, mastigou folhas do jardim que tiraram o cheiro do cigarro. Livrou-se do castigo. A emancipação se dava aos 18 anos, quando éramos oficialmente permitidas a fumar em casa.

No Colégio de Aplicação, o fumódromo era atrás da igreja. Matávamos aula e fumávamos enquanto discorríamos sobre os amores e chorávamos os desamores. O cigarro era cúmplice. Consolava. Entendia. Era solidário. E altamente revelador.

No 3º colegial,  o colégio passou a permitir o cigarro durante as aulas. Era muita fumaça! E o cigarro, companheiro, foi fundamental para amenizar o estresse do vestibular.

Lembro-me de um episódio engraçado já na USP. Tínhamos uma professora no 1º ano chamada Margarida. Uma personagem tirada de um livro do Charles Dickens!  Era uma figura! Conservadora, antiquada, não pertencia a esse século. Ou melhor, àquele século. Uma professora tradicional de Língua Inglesa. Não poupava os discursos moralistas ao melhor estilo real inglês. Mas gostava de mim. E da Patricia, minha colega que também fumava. Ela não se conformava. Num daqueles dias inspirados, nos chamou à parte para  dizer o quanto era errado moças fumarem! E pior ainda se, além de fumar, ainda tomassem pílula! Eu e a Patrícia nos olhamos sem saber o que dizer. Estávamos na faculdade! Na USP! E levando sermão! Grande Margarida! Uma das melhores lembranças que tenho dos meus tempos uspianos...

Fumei. Muito. Mas nunca passei de um maço por dia. Aliás, raramente chegava a um maço por dia. Comecei com Minister e terminei com Marlboro. Fumei Charm pouquíssimas vezes, porque achava fraco demais. Quando fui para o intercâmbio, aos 16 anos, experimentei os mentolados Kool que a minha irmã americana fumava, mas não gostei.

Fumei. Não parei nem mesmo na gravidez. Na sala de consulta do meu obstetra tinha uma foto de um bebezinho com flores na mão dentro da barriga da mãe fumante com os dizeres 'Eu te amo". Vi aquela foto todos os meses, mas continuei a fumar. Diminui a quantidade, é verdade, mas não parei. Daniel foi prematuro e de baixo peso. Quando engravidei da Marina, o Fernando parou de fumar. Não tive a mesma força de vontade e continuei, ainda que com o mesmo risco da gravidez anterior. Marina também foi prematura. Apesar de nenhum dos dois ter qualquer sequela, se fosse possível,  teria feito diferente.

Fumei. De fazer reserva no avião na ala dos fumantes mesmo com Daniel e Marina pequenos. Minhas roupas cheiravam. Meu cabelo cheirava. Mas sempre detestei cheiro de cigarro no carro. E não suportava cinzeiros cheios.

Fumei. Momentos íntimos de introspecção.  De solidão. De reflexão. De lutos. Momentos que o cigarro registrou de viagens, experiências, descobertas. E momentos vãos, automáticos, do fumar por fumar, sem prazer, sem conexão.

 No feriado de 1º de maio de 1995, tive uma gripe horrível. Dessas de acabar com a garganta e nem deixar engolir. De doer tudo. E causar muito mau estar. Uma gripe horrível, mas não pior do que outras tantas anteriores. E porque o meu momento tinha chegado e eu estava pronta, essa  gripe determinou o fim dos meus tempos de fumante. Nunca tinha tentado parar de fumar antes. Parei de uma só vez. Assim. Aquele foi o último dia em que coloquei um cigarro na boca.

Não tive recaídas. Nunca mais dei uma tragadinha que fosse. Ainda mantive um maço aberto de Marlboro por perto, mas nunca recorri a ele. Não foi fácil. Mas não foi difícil. Na maior parte do tempo, o esforço foi suportável. Em alguns momentos, no entanto, as lembranças do cigarro assombravam, cruéis. Sentia o vazio do cigarro entre os dedos, do gestual, da muleta emocional. Sentia falta do conforto após as refeições e nas conversas entre amigos. Lembrava-me do prazer, do gosto, do cheiro. Associava momentos aos cigarros fumados. Os finais de tarde eram piores. Com o dia já resolvido, as crianças cuidadas e com a proximidade da noite, o cigarro trazia paz. Acertava contas. Planejava. Passei a tomar um pequeno cálice de Baileys nesse horário. Como me fazia bem! Ria comigo mesma diante da possibilidade de trocar um vício pelo outro. Mas o Baileys durou apenas o tempo da recomposição.

Vinte e dois anos depois, não  fumar mais é uma das maiores conquistas da minha vida. Não penso mais. Não sinto a menor falta. Não me causa dor nem esforço. Não é mais contabilizado.

Mantenho a lembrança de ter fumado apenas para não perder a perspectiva.Ter  sido fumante fez parte. Fez-me. Não faz mais.

Comemoro. Contidamente. E sem culpa.

 




sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Bendito é o fruto entre as mulheres.



Minha mãe sempre quis filhos. Homens, bem dito! Por ela, seríamos todos meninos!   Foi punida com 4 mulheres! Mas... Em reconhecimento à sua devoção a Santo Antônio,  foi presenteada com o tão desejado varão! E depois do susto da primeira filha, lá veio ele  para já resolver o assunto! Na sequência,  mais três meninas.

José Alberto. José em homenagem ao meu avô materno e Alberto em homenagem ao meu avô paterno. Mas é conhecido mesmo como Zeca.

Foi um menino loirinho e , como a minha mãe mantinha o corte reco, as orelhas sobressaiam. Mesmo!






Quando moramos em Belo Horizonte, ele estudou  no Colégio Militar. E todo 7 de setembro assistíamos à parada obrigatória na Avenida Afonso Pena. Parada é como se chamava desfile em mineirês. Quando ele passava, a gente gritava: Zeca!!! Zeca!!!! Torcida organizada!

Ainda em Belo Horizonte, se reunia com os amigos na rua. Em uma das casas na rua de cima (ou do lado, não me lembro mais), tinha um senhor a quem eles deram o apelido de Zé Galinha. O cara passava de carro e eles gritavam "Zé Galinha! Roda dura!". Um dia, quando ele chegou em casa, o tal senhor estava lá conversando com os meus pais. Meu irmão cumprimentou-o pelo nome e o sr respondeu: "Mas não é assim que você me chama!"Em resumo, Zé Galinha foi de casa em casa fazer queixa dos meninos!! hahaha Zé Galinha foi grande personagem da nossa infância!

Meu irmão é "levemente" neurótico com segurança. Sempre foi. Quando os meus pais saiam, ele, como homem, tinha a missão de nos proteger. Ele pegava um facão na cozinha e, ao menor ruido... Sério! Ele sempre estava pronto para esfaquear qualquer intruso! 

Quando voltamos para o Rio, ele  foi pro Colégio São Vicente de Paula, que, na época, era apenas de meninos. Um ou dos anos depois virou misto. Nessa época, TODO mundo achava que ele era a  cara do Ronnie Von. Sério! Pior que parecia mesmo! Pronto! Pra minha mãe, já era motivo mais do que justificado para se embevecer ainda mais!

Engenheiro Químico formado pela UFRJ. Sempre foi bom aluno. E a ele coube a missão quase impossível de ajudar as suas irmãs menos favorecidas pela genética da matemática. Somos traumatizadas.  Principalmente eu e a Cristina! O que para ele era óbvio, pra nós, era grego. E ele tinha ZERO paciência e ZERO didática. Quando meus pais falavam "Vá estudar com o seu irmão", a guilhotina parecia um sonho inalcançável...

Nossas amigas o achavam O MÁXIMO! E ele era mesmo! Bonito, atlético. Jogava vôlei  nas areias do Leme. E bem! Vascaíno, coitado. E engraçado. Muito engraçado! Mas o engraçado sutil, ácido. E tinha muitas expressões próprias: tripa, entubar uma brachola, pixote, e os versos primorosos "meu filho, meu tesouro... Não escaves nessa encosta... Em vez de encontrares ouro... Encontrarás o homem bosta!"

Não gostava de festas e nem de carnaval.A gente adorava!E ele nos levava e buscava. Temos um carnaval inesquecível em Rio das Ostras! Alugamos uma casa lá uma vez e fomos ao baile de carnaval no único clube da cidade. Não sei por que cargas d´água ele resolveu nos acompanhar. Eram dois salões separados por algumas colunas. ACREDITEM! Ele passou a noite encostado numa dessas colunas. LENDO UM LIVRO!!! Ao som ensurdecedor de marchinhas de carnaval! De vez em quando dava uma geral, nos achava e voltava pra coluna e pro livro. Sério! 

Quando ele começou a namorar a Kyria, me levava algumas vezes à casa dela. Eles se davam discos de presente quando completavam mesário de namoro. Peguei dois deles: Without you (Nilsson) com a dedicatória "I just can't live without you" e Everything I own (Bread) com a dedicatória "you". Com a mãe da Kyria aprendi a falar bem-vindo em grego (algo parecido com calostos) e a comer kurabie, um biscoito dos deuses coberto de açucar!

Fui madrinha do  casamento. Foi uma cerimônia ecumênica linda ( a Kyria era ortodoxa), cheia das tradições gregas. A parte católica foi celebrada por um dos  colegas do Zeca do São Vicente. 

Quando a Adriana, sua filha mais velha nasceu, a neurose se acentuou. Ele sumiu com todos os objetos cortantes, tudo que era levemente pontiagudo era um perigo eminente e não confiava em ninguém. Eu estava mal acostumada com a Beth, que nos deixava sair com as meninas pra cima e pra baixo desde bebês. Um dia, quis levar a Adriana sozinha ao teatrinho. Ela era bem pequena. Eles moravam na Rua Toneleros e o teatro era na Siqueira Campos. Pensam que fui sozinha??? Claro que não!!! OBVIO que ele foi junto! Uma outra vez, a Kyria ia viajar com a Adriana. Não me lembro pra onde. Mas lembro que ele ensaiou no meio da sala a Kyria subir e descer com a menina no colo do avião. Mesmo! Com o Alexandre e com a Stéphanie foi um pouco, um pouquinho melhor, mas ainda assim... Até hoje ele é preocupado. Fica horrorizado porque eu deixo a porta da minha casa aberta, treina todo o percurso quando a minha mãe sai para passear, é atento aos mínimos detalhes. No grupo de Whatsapp entre os irmãos, os assuntos desdobram-se em perguntas minuciosas que contemplam todas as possibilidades e até mesmo as imposibilidades! 

Ele morou em Salvador por muitos anos e em Houston por alguns anos. Fui algumas vezes a Salvador e sempre nos divertíamos muito! Fui a Houston uma vez com a Marina e temos ótimas lembranças do nosso breakfast com hash brown e o famoso jantar no Papasito's!

Meu irmão hoje mora em Mogi das Cruzes. Adriana também mora lá com o marido e seus dois filhos: Guilherme e Jessica. Alexandre mora em São Francisco e tem um filhinho: Daniel. Stéphanie estuda Direito em Belo Horizonte. E, como se não bastasse, ainda tem o Syd, o cachorro estressado companheiro de caminhadas.





Não deve ter sido fácil crescer no meio de tantas mulheres. Aliás, deve ter sido muito difícil. Mas ele se saiu bem. Muito bem! Relacionamentos entre irmãos é uma coisa esquisita. São laços fortes entre personalidades tão diferentes! E que convivem por obrigação mais do que por opção. E aprendem essa convivência nem sempre fluida pelo amor que não se explica! Mas que facilita, abre os caminhos, encontra o seu espaço.  

Cada uma de nós, irmãs, terá memórias distintas com o Zeca. As minhas são muitas. E todas muito especiais. Ele me ensinou a gostar da Petula Clark, por exemplo. E me ajudou vezes sem conta! E me faz rir com  o deboche que desconhece limites! 

Mas dois momentos são únicos. E os guardo com o maior carinho e muita emoção. O primeiro é a série de cartas que trocamos enquanto eu estava no intercâmbio nos EUA. Eu tinha 16 anos. Reproduzo abaixo alguns trechos dessas cartas.







O segundo, e o mais especial de todos, foi no dia do meu casamento. Meu pai já tinha virado estrela e ele entrou comigo. Fomos quase mudos de casa até a igreja. Ele tinha cortado o dedo não sei com o que e tentava estancar o sangue. Ali, na porta da igreja, me deu o braço e caminhamos pela nave. Fomos devagar, ele me segurando forte e nos olhávamos de vez em quando. Choramos muito quando nos abraçamos. E acho que nunca agradeci tanto ter um irmão e ser ele o meu  irmão!



Hoje o meu irmão completa 65 anos! Custo a crer no tempo que passou... E sinceramente, m pergunto quando foi que ele ficou assim tãaaao mais velho do que eu!! Ainda é bonitão! Muito mais do que o Ronnie Von! Quem conheceu o meu pai acha que o Zeca está cada dia mais parecido com ele. Ainda é muito engraçado! Humor típico da família do meu pai! É super companheiro!E, acima de tudo,  tem a sorte de ter as melhores e mais belas  irmãs do mundo!!
















terça-feira, 22 de agosto de 2017

Maú. Porque a primeira amiga a gente nunca esquece.



Maú é Maria Lúcia. Mas Maria Lúcia, pra mim,  é uma estranha. Ela sempre foi e sempre será Maú.

Não sei ao certo quando nos conhecemos. Acho que desde sempre, pois não tenho qualquer memória da infância em que ela já não estivesse presente. Éramos muito pequenas. Muito pequenas mesmo! Eu morava em Belo Horizonte e os nossos pais trabalhavam juntos. Dr. Armando. Uma figura bonachona, careca, e com um dos sorrisos mais límpidos de que tenho memória. Dr.Armando, muitas vezes, nos buscava na escola. Estudávamos no pré escolar Izabela Hendrix, pertinho do Palácio Tiradentes. Não houve um único dia em que ele nos buscasse que não perguntasse quantas palmeiras imperiais havia na linda alameda! E contávamos, uma a uma, e, claro, nunca era o mesmo número! Essas palmeiras, por isso, têm um enorme significado pra mim! São as mais belas palmeiras do mundo!

Morávamos no bairro da Serra. Nós, na Rua Ramalhete, imortalizada na canção do Tavito. Eles, na Rua dos Dominicanos, numa casa bem em frente ao Convento. Naquela época, a Rua dos Dominicanos era a última rua do bairro. Havia apenas uma rua entre a nossa e a deles, e íamos de uma a outra ladeando o córrego que passava por ali. Não sei quantas infinitas vezes fizemos esse trajeto.

Éramos cinco filhos na minha casa e também eram cinco filhos na casa da Maú. Ela, como eu, era a quarta. A irmã mais velha da Maú tinha o mesmo nome da mãe: Luiza. Luiza Maria.Luiza Maria tem o melhor gosto pra nomes! Sua filha se chama Marina e um dos seus filhos se chama Daniel! Bom gosto não se discute!!!!  O irmão mais velho, Armando José, comia  batata frita e tomate todos os dias no almoço. A gente morria de vontade, mas o prato dele era separado, só pra ele. Ninguém ousava tocar. O apelido dele era Pajé. Qualquer referência não terá sido mera coincidência. O outro irmão, José Marcos, conhecido como Bila, era o melhor amigo do meu irmão. Aprontaram muito nas esquinas da Serra! Depois da Maú, vinha a Maria Cristina, Tininha, que, por ser tão próxima em idade, também tornou-se muito minha amiga.

D.Luiza, a mãe da Maú, era uma senhora muito religiosa e nossas bonecas foram as mais puras do bairro! Perdi a conta de todos os batizados que fizemos para as nossas bonecas na casa da Maú, todas devidamente validadas pelo coroinha que fazia o favor de comparecer. Depois da cerimônia, sempre tinha uma festa com bolos e doces. Batizados e aniversários! Nossas bonecas foram muito celebradas! E quantas doces lembranças tenho desses dias...

Eu e Maú aprendemos a ler na mesma sala, já no Instituto de Educação. D. Elisa era a nossa professora e minha mãe, que fazia a lotação das crianças do bairro na nossa Kombi, também dava carona pra D. Elisa. Aprendemos a ler numa cartilha experimental dos Três Porquinhos. "Era uma vez, era uma vez, três porquinhos. Palhaço, Palito e Pedrito". Tínhamos uma amiga, Maria Elisa, de voz esganiçada e que beliscava quando contrariada. Aqueles beliscões fininhos, da ponta dos dedos, e que doíam mais do que tudo! Um dia, Maria Elisa foi brincar  com a gente lá em casa. Não me lembro o que aconteceu, mas ela, chateada, saiu correndo de volta pra sua casa sozinha. Era no mesmo bairro, mas era longe e éramos muito pequenas. Minha mãe ficou desesperada e, quando chegamos lá, ela já estava em casa. Um susto!

Fizemos Primeira Comunhão juntas, com 7 anos,  no Convento dos Dominicanos. A nossa professora de Catecismo era D. Eva, filha do Sr. Fuchs, que morava na esquina da Maú. Todo mundo achava que o Sr. Fuchs era louco e a gente morria de medo dele! Mas a gente provocava! E quando ele saia gritando, corríamos com o coração na boca!

Quando voltamos a morar no Rio, Maú sempre vinha passar as férias na minha casa! Íamos à praia, ao cinema, brincávamos carnaval. Algumas vezes, os pais dela alugavam casa de veraneio no Espírito Santo e eu, então, ia com eles. Mas não havia possibilidade de férias sem estarmos juntas!

Uma vez fomos para Iriri. Uma das melhores férias da minha adolescência! Iriri era uma praia minúscula, linda, gostosa. As ruas eram de terra, a rua beira mar tinha um barzinho e uma sorveteria. E um monte de jovens! Naquele verão, a moda era fazer o soutien dos biquinis amarrados de lenços. Fizemos uma coleção e trocávamos entre nós!Ficamos MEGA bronzeadas! Até a Tininha, que era mais branca do que a mais branca das criaturas! Conhecemos uma turma de rapazes de Volta Redonda. Aquelas paqueras típicas de férias. Íamos à praia, e, à noite, pro barzinho. E ai era aquela pegação! Uma dessas noites, enquanto eu e a Tininha estávamos "atracadas" com os nossos paqueras, D. Luiza passou pela rua beira mar pra tomar um sorvete depois do jantar. Claro que nos viu. Não falou nada. Mas a gente sabia que ia sobrar! Careta como ela era, não ia nos deixar incólumes. Voltamos pra casa quietinhas, com ares de santa, e fomos dormir. D. Luiza estava sentada na cozinha escrevendo numa folha.  No da seguinte, quando acordamos prontas para ir à praia, ela nos chamou na cozinha e leu o serão. LEU. Sim. LEU! Segundo ela, passou a noite escrevendo para não se alterar. Se desse a bronca no ímpeto, poderia esquecer  alguma coisa. Então escreveu a bronca e leu pausadamente, a voz inalterada. E tivemos que redobrar o cuidado depois disso! Dessas  férias em Iriri, além da bronca da D. Luiza, uma outra memória inesquecível: a voz da Maú! Um desses meninos de Volta Redonda deu a melhor definição da voz dela: voz de menopausa. Até hoje não sei o que seria a voz de menopausa, mas, seja o que for, a descrição pareceu perfeita! A Maú tinha mesmo voz de menopausa! Se a conhecessem, saberiam exatamente o que é!

Maú casou, em fui madrinha. Eu casei, ela foi madrinha. Maú teve Isadora e Laura. Eu tive Daniel e Marina.

Meu pai virou estrela, ela estava comigo. Dr. Armando virou estrela, eu estava com ela. Só não conseguimos estar juntas quando D. Luiza virou estrela.

Maú engatou rodinhas no pé depois do casamento. O marido dela, Pits, jornalista e fotógrafo, é uma das pessoas mais incríveis que existe! E o avesso do ideal da D. Luiza! Descolado, cabeludo, quase um hippie! Arrastou a Maú pra Bolivia logo depois do casamento e passaram uma boa temporada lá. Moraram em São Paulo por um tempo. Eu almoçava na casa dela todas as quartas-feiras e ela me ensinou a fazer casacos de matelassê. Ela fazia muito bem!! Depois foram pra Brasilia. Depois Nova York. Depois Barcelona. Depois Belize. E eu ia atrás! Só não conheci Belize e me arrependo até hoje de não ter ido!

Agora estão de volta a Brasilia. Isadora ficou em Nova York, mãe de 3 crianças lindas!! Laurinha está na Alemanha. E o mundo,espalhado, fica pequeno. Ou grande pra acolher tantas distâncias e tanto amor.

Hoje a minha amiga está completando 60 anos!!! E está comemorando em grande estilo com o Pits, as filhas e os netos!

E penso nela com o amor da amizade mais longa e especial da minha vida! E com o agradecimento por ela jamais ter deixado de estar presente! Ela é melhor nisso do que eu. Muito melhor! Ela liga sempre, ela lembra do aniversário de todo mundo, ela liga pra minha mãe no aniversário e no dia das mães. Atenta, leal, incansável!

O que eu desejo pra ela não cabe aqui. Porque a nossa história não cabe aqui. Porque são tantas e tantas as memórias compartilhadas... Porque é tão grande a torcida! Porque é tanto e tanto e tanto!

Maú, minha amiga querida! Que a nova década te seja ainda mais generosa e leve!

E que a gente ainda comemore juntas décadas sem fim! Ela, a sempre Maú! A única que consegue perpetuar a Licinha que ainda existe em mim!






domingo, 20 de agosto de 2017

Hummingbird. Ou sobre quando a Marina voou para o Canadá.






Eu deveria ter nascido pássaro. Uma fêmea como outra qualquer, desempenhando, mecanicamente, a minha função na natureza. Preparar o ninho para os meus filhotes com amor e cuidado, com o melhor material disponível, na árvore mais segura, e suficiente para recebê-los e deles cuidar até que o ninho não mais os comportasse e eles fossem obrigados a deixá-lo. Uma fêmea como outra qualquer, incansável na minha responsabilidade com a minha prole. Chocar  os meus ovos até que os meus filhotes estivessem prontos para nascer.  Aquecê-los debaixo das minhas asas até que estivessem fortes o suficiente para sobreviverem sozinhos. Alimentá-los até que fossem capazes de buscar o seu próprio alimento. Protegê-los de todos os perigos até que tivessem condições de se bastarem. Uma fêmea como outra qualquer, instintivamente cumprindo a minha missão. Aguardar pacientemente até que cada um estivesse pronto para voar e, após a partida do último, não olhar pra trás, não derramar uma só lágrima, abandonar o ninho já sem serventia e, graciosamente, bater as asas e seguiria em frente. Sem tristeza, sem vazio, sem melancolia. Sensação de dever cumprido.

E, se pudesse escolher, seria um beija-flor. E teria gerado a mais linda, graciosa, delicada e encantadora de todos os beija-flores! Minha Marina colibri, corajosa, inquieta e independente. Com suas asas tão rápidas que até parecem invisíveis. Asas de fada. Com sua plumagem de cores exuberantes. Cores de pedras preciosas, mas infinitamente menos valiosas do que o ela me ensina todos os dias! Cores de raio-de-sol, mas infinitamente menos radiosas do que a luz com que ela ilumina a minha vida! Em perfeita harmonia com as flores das quais retira o néctar que alimenta a sua doçura!

E, se eu fosse mesmo uma mamãe beija-flor, ainda lhe ensinaria o canto mais lindo, mais cristalino e mais terno que existisse! Um canto único! Um canto mágico! E que, ao ouvir esse canto, todos os caminhos se abrissem sem obstáculos! E que, ao ouvir esse canto, somente as flores mais bonitas, mais perfumadas, mais coloridas e com o néctar mais doce lhe oferecessem refúgio e alimento! E que, ao entoar esse canto, eu e ela sentíssemos um calor inundando o  coração, mesmo sem sabermos exatamente de onde ou por quê.

Mas não sou pássaro. E meu coração apertado experimenta ondas de orgulho e felicidade, e outras de tristeza e preocupação. Minha little hummingbird aprendeu a voar e deixa o meu ninho cheia de otimismo e esperança, enquanto deixa para trás um enorme vazio e uma imensa saudade...

E surpreendo-me com um desprendimento que não reconheço, e, contrariando a minha índole, abro as minhas asas protetoras para deixá-la voar livremente!

Enquanto torço para que ela rapidamente se adapte à nova rotina e vivencie infinitas e prazerosas emoções,  acarinho o ninho com  meu apoio incondicional e reconhecimento orgulhoso  pelas suas conquistas! E canto, ainda que desafinada, as nossas lembranças e memórias únicas, especiais e eternas!


(texto escrito em 28 de agosto de 2007).
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sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Boca de Ouro . Entre batatas e pérolas.







Dizem que Nelson Rodrigues se inspirou no motorista do ônibus que costumava pegar para ir almoçar na sua mãe para criar o personagem Boca de Ouro. Esse motorista exibia, orgulhosamente, 27 dentes de , segundo ele mesmo , "ouro maciço, 24 quilates". A dentadura de ouro foi  levada pro subúrbio carioca, e, parida em ritmo de gafieira, virou dramaturgia de quilate incomparável!

Dizem também, mas esse dizer tem nome e sobrenome, participa da montagem como assistente de direção e, não por acaso, é meu filho, que: "Todo artista brasileiro de teatro em algum momento se depara com Nelson Rodrigues. Seja na escola ou profissionalmente. Seja por estudo, por curiosidade, por deleite ou por trabalho." (Daniel Mazzarolo).

Vou além. E ouso dizer que também o público brasileiro de teatro em algum momento se depara com Nelson Rodrigues. Tem que se deparar. Tem que enfrentar, descobrir, desvendar, com cautela, resistência e desconfianças rendidas até entregar-se  ao deleite  desarmado e apaixonado. 

E vou além. Talvez não haja porta de entrada mais reveladora e encantadora  para Nelson Rodrigues do que a arena construída por Gabriel Villela em Boca de Ouro! Arena é palco caprichoso e ambíguo. Se, por um lado, permite a visão cênica completa e desnuda, por outro, mantém clara a linha divisória entre o real e o irreal, uma vez que toda a preparação de entrada/saída cênica se passa aos olhos do público. Arena separa o ator do personagem. Permite a transformação de um no outro como em um ritual. Torna o palco/picadeiro em lugar sagrado onde essa "incorporação" faz o teatro acontecer. E ninguém orquestra esses ritos de passagem com tanta maestria como o Biel!

Em Boca de Ouro, a arena vira uma típica gafieira dos subúrbios cariocas dos anos 50. Gafieira multifuncional que abriga outros micro-universos derivados como a redação de um jornal, as casas dos outros núcleos, o reduto do bicheiro e até mesmo um necrotério. A iluminação difusa e objetos de referência pontuam cada cenário contido. Impecável! 

Falar sobre o efeito dos figurinos em qualquer produção do Biel é chover no molhado. Mas é também impossível não falar! Porque ele consegue SEMPRE surpreender e se superar! Os figurinos, em especial os femininos, são de uma beleza quase indecente! Sensuais, elaborados, coloridos, traumáticos em tantas tramas. O de Dona Guigui, por exemplo, ostenta uma rosa nas costas parcialmente desnudas que brinca entre transparência e tatuagem. Belíssima! As cabeças estão também particularmente maravilhosas! E, como não poderia faltar, as sempre golas , perucas e máscaras. Símbolos teatrais clássicos sempre travestidos para manter suas funções. Sempre me impressiono com essa capacidade! Mas o toque de genialidade, desta vez, fica por conta dos dedais que vestem os dedos dos personagens com uma sonoplastia absurda! ABSURDA!

O elenco reluz como o ouro. Midas multiplicados que, a cada toque - seja voz, seja postura, seja presença e até ausência - multiplicam ouros de interpretações inesquecíveis!  Malvino Salvador É Boca de Ouro! Mel Lisboa está absolutamente perfeita como Celeste! Lavinia Pannuzio encarna uma Dona Guigui inesperada! Chico Carvalho, mais uma vez, brilha! Que talento para converter-se em 2 personagens tão completos! Cacá Toledo, Leonardo Ventura, Guilherme Bueno também impecáveis!  Claudio Fontana me emocionou como Leleco...  Tantas nuances tão bem capturadas pelo Claudio... E, claro, os dedos mágicos de Jonatan Harold e a voz dadivosa de Mariana Elisabetsky! Elenco afinado que impressiona pelo equilíbrio entre o trágico e o cômico! E que retrata fielmente a ambivalência tragicômica tão característica de Nelson Rodrigues. 

Talvez seja esse o maior mérito do Boca de Ouro de Gabriel Villela! Manter-se fiel ao texto de Nelson Rodrigues, apenas destacando, no encontro equilibrista entre o cômico e o trágico, o que ele tem de mais potente: comportamentos obsessivos movidos por paixões avassaladoras; a morbidez e a ironia feroz; as portas do inconsciente que revelam os conflitos psicológicos; as relações pessoais mantidas pelos antagonismos, abusos e traições; o particular e o genérico que brincam com a universalidade tão específica; e, por fim,  os diálogos precisos que fazem pontes entre o imaginário e o real. O caráter mais expressivo de Boca de Ouro, as versões únicas oferecidas por Dona Guigui, são presentes cênicos! 

Não há como não destacar outra assinatura inconfundível do diretor: o esmero com a música! A musicalidade nas produções do Biel é sempre tão cuidada que é sempre convertida na personagem principal! E com uma função específica! Em Boca de Ouro, a música costura e une o que parece desconexo e descolocado. É pela música que a unidade se (re)compõe. Da abertura com Cidade Maravilhosa ao fechamento com De Frente pro Crime, passeamos pela voz de Mariana por clássicos da época. Arrisco dizer que foi a trilha sonora mais coerente e coesa das peças do Biel! Um colírio para os ouvidos! 

Uma noite de gala! E que continua ecoando pelos meus sentidos. E não deixo de pensar que realmente não há expressão mais batata que batata!

E me pego sonhando um novo sonho...Se algum dia eu for enforcada, POR FAVOR, que seja por um colar de pérolas!! 





quarta-feira, 26 de julho de 2017

Origens.




Vovô Alberto 

Meu avô paterno se chamava Alberto e era carioca legítimo, desses que combinava ares de aristocracia com  boemia. Não completou o curso de medicina, mas aplicava os conhecimentos adquiridos nos filhos. Tocava violão e trabalhou como fiscal no Cassino da Urca, onde conheceu muitos artistas famosos  da época. 



Vovó Mocinha

Minha avó paterna se chamava Ottília, mas era conhecida como Mocinha. Vinha de família  tradicional, estudou em colégio alemão e tocava violino lindamente.

Não sabemos como os dois se conheceram. A história familiar é nebulosa nesse sentido, mas consta nos autos não confessos que, contrariando a vontade das famílias, tiveram que fugir para  casar. E tiveram 10 filhos. E somos 26 netos.

Não os conheci. Meu avô morreu em 1950 e minha avó no ano em que nasci. Mas certamente deixaram um legado raro de união familiar. Entre tantos filhos, agregados, netos e bisnetos, parece inacreditável que a família se mantenha íntegra. Os Andrade Leite verdadeiramente se cuidam. Tio cuida de sobrinho, sobrinho de tio, primo de primo e é um tal de um por todos e todos por um que não vejo em nenhuma outra família! É um enorme conforto fazer parte dessa família tão acolhedora e alegre. Rimos até das desgraças. E ainda cultivamos o prazer espontâneo de estarmos juntos.



Vovô José

Meu avô materno se chamava José e era de Canta Galo, no estado do Rio de Janeiro. Era um homem alto e magro, parecia sério,  sisudo.



Vovó Nila

Minha avó materna se chamava Nila, natural de Barras da Maratoan, Piauí. Piauiense legítima, cabeça chata e tudo! Mas com uns olhos azuis que não negavam a passagem dos holandeses por aquelas bandas. Nossa glória familiar é a lenda (não confirmada) de que teria se recusado a casar com o irmão do general Castelo Branco.

Meu avô , casado e com uma filhinha pequena, foi transferido para o Piauí para trabalhar nas obras contra a seca. Lá ficou viúvo, com  a filha de apenas 2 aninhos, e conheceu a minha avó. Diz também a lenda familiar -  não confirmada, mas conhecendo a minha avó plenamente plausível -  que ela anunciava em alto e bom tom que " não se casaria com o resto de ninguém".

Engoliu as palavras. Com um pequeno dote, marido e enteada, veio de navio pro Rio de Janeiro. Da viagem, a sua lembrança era vomitar todo o feijão que comia nas refeições. Tiveram 10 filhos, além da tia Iza, a primeira filha do meu avô. E somos 34 netos.

Meu avó morreu antes da minha mãe e meu pai se casarem. Portanto, a única referência de avós que tenho é a vovó Nila.

E que avó arretada! Uma mulher forte como poucas. Acho que só o sangue piauiense explica. Passou por poucas e boas, muitos adversidades, e ela sempre estoica! A maior das tristezas foi o sumiço inexplicável do meu tio José Luiz, o tio Bamba, durante a ditadura. Meu tio tinha ligações comunistas veladas, que fomos desvendando aos poucos graças às memórias um pouco difusas dos meus primos mais velhos. Mas o fato é que, num belo dia em 1970, meu tio foi à praia e nunca mais voltou. Minha avó quase enlouqueceu. Tentou por todos os meios encontrá-lo, ou, pelo menos, ter alguma pista.  Subiu morros, desceu morros, subiu morros, desceu morros. Vasculhou por onde podia. Nada. Nenhum sinal. Nenhuma notícia.  Nunca mais foi a mesma, mas encontrou no espiritismo o conforto pra seguir adiante. Vovó Nila virou estrela em 1980.

Minha avó era alegre. Gostava de futebol e de samba. Vinha pra nossa casa, religiosamente, toda  quarta-feira. E aproveitava pra consertar as nossas roupas. Na copa de 70,  nos fez uma bandeira  verde e amarela gigante que carregamos de Laranjeiras a Ipanema para comemorar o título! Garantiu que o 3º filho da minha irmã mais velha seria menino. E ai está o Eduardo que não nos deixa mentir.

Mas a maior lembrança que tenho da minha avó são os seus bolinhos fritos. Nunca na história da humanidade em todos os tempos passados, presentes e futuros houve/há/haverá bolinho igual. Polvilho azedo, fubá e banha. Eu tenho lembranças de gosto e de cheiro desses bolinhos. Vinhamos de Belo Horizonte pro Rio e sempre parávamos na casa dela no Méier assim que chegávamos. Vínhamos aguando pelos bolinhos. E ela sempre nos esperava com eles sendo fritos na hora. Saídos da frigideira pelando pra nos queimar a boca. Bom demais! Recentemente, recuperamos a receita e meus primos tentaram fazer. Ainda não saiu igual, mas chegaremos lá!

Ainda não sou avó. Tomara que um dia eu seja! E queria construir com os meus netos memórias coloridas, cheirosas e saborosas.  Com pitadas de tudo isso que tem aí acima. As dores e as alegrias. As perdas e ganhos. Essa misturada toda que me faz sentir falta até dos avós que não conheci. Mas que estão aqui. E são eu. E serão eles também.