segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Ventres livres.

A Lei do Ventre Livre foi assinada em 28 de setembro de 1871, determinando que, a partir daquela data, todos os filhos de mulheres escravas nasceriam livres. Foi um dos primeiros passos para a transição lenta e gradual - ainda hoje não plenamente consolidada - do sistema de escravidão para a mão-de-obra livre no Brasil.



Coincidentemente, o 5º Encontro Feminista Latino-Americano e Caribenho, realizado na Argentina em 1990, escolheu  o dia 28 de setembro com o Dia da Luta da Descriminalização do Aborto na América Latina e Caribe.

Após 25 anos, estima-se que 4,4 milhões de mulheres por ano ainda realizam abortos na América Latina, sendo que 95% são considerados inseguros.

E ainda assim, a legalização do aborto continua em discussão constrangida e contrafeita em tom de clandestinidade e ainda predominantemente sob a ótica de convicções religiosas e morais.

Apenas Guiana, Cuba, Porto Rico e Uruguai permitem a prática do aborto plena e sem necessidade de justificativa. Nos demais países, a criminalização ainda é majoritária, embora alguns já façam exceção aos  casos de estupro ou de risco à vida da mãe.

No Brasil, além das duas situações acima, a interrupção da gravidez também é autorizada quando comprovada a  anencefalia fetal. Legislação cínica diante da preocupante realidade que contabiliza 1 milhão de abortos por ano. Pesquisas apontam que 1 em cada 5 mulheres - urbanas e alfabetizadas - já interrompeu uma gravidez. Dados da ONU indicam que cerca de 200 mil mulheres morrem anualmente em decorrência de abortos de risco. A curetagem pós aborto é uma das cirurgias mais realizadas pelo SUS. As classes menos favorecidas, evidentemente, representam a maioria absoluta desse alarmante grupo.

A descriminalização do aborto precisa ultrapassar os limites do puritanismo hipócrita e inserir-se no âmbito muito maior da educação e da saúde pública. Priorizar educação sexual consistente de prevenção e planejamento familiar e garantir atendimento médico igualitário para a OPÇÃO - de cunho estritamente pessoal - de interrupção de uma gravidez indesejada são funções do Estado. Não é função do Estado sobrepor a sua convicção religiosa ou opinião particular ao que é direito de escolha e de segurança.


Dia de refletir sobre essa data tão emblemática e  lutar para garantir liberdade ampla, geral e irrestrita tanto aos gerados quanto  aos ventres geradores.



domingo, 27 de setembro de 2015

Pulsões. "Aliás, quando foi a última vez que você morreu"?

"Procurando bem... Todo mundo tem pereba... Marca de bexiga ou vacina... E tem piriri, tem lombriga, tem ameba... Só a bailarina que não tem..." (Ciranda da Bailarina - Chico Buarque)






A bailarina constitui um dos universos simbólicos mais potentes. Força, persistência,  equilíbrio e precisão em simbiose  indissolúvel com  delicadeza, leveza, fragilidade e graciosidade. A perfeição em suspensão  etérea, capaz produzir movimentos  só possíveis nos mistérios não revelados das fitas, tules e gazes.

A potência da música, por outro lado, com cordas, sopros e teclados em urgências de unidades de expressividade,complementa esse universo como nenhum outro!   O maestro, único capaz de decifrar e  harmonizar acordes nem sempre toantes e previsíveis, surge, portanto,  como a sustentação e segurança para  as experiências sensoriais provocadas pelo casamento música/dança.

Pulsões,  texto de puro lirismo de Dib Carneiro e direção cuidadosa de Kika Freire,  desorienta o público ao trazer para o palco  um espaço indefinido e lúdico para expor as fragilidades secretas e intocadas desses dois símbolos de perfeição - até então - inquestionável.

Pulsões desconexas de dança e música revelam  a obscuridade do inconsciente e seus caprichos incontroláveis e  mantêm a sua comunicabilidade apenas sob a condução do afeto e amor curador e salvador.

"A loucura está profundamente ligada ao desamor. Só o amor salva alguém da loucura". (Nise da Silveira - psiquiatra cujo trabalhou inspirou o texto)

O cenário, lindamente construído, mas ardiloso quanto às suas intenções, revela aos poucos o terreno desconhecido  e que brinca com os fragmentos do belo e não belo, da aceitação e rejeição, do delicado e do sórdido, da memória e do esquecimento - voluntário ou não.  Móbiles róseos de extrema delicadeza , caixinhas de música e pequenas bailarinas em posições e deformidades diversas nos suspendem do chão que nos escapa em lindíssimas mandalas.

Ao fundo, um piano e um violoncelo, pontuando com beleza  indescritível a alternância entre realidade e delírio, conflito e calmaria. De Trenzinho Caipira a Bachianas nº 5 de Villa-Lobos, e percorrendo  diversas cantigas de roda do acervo de nossa memória infantil, a música entra como o personagem capaz de resgatar Maestro e Bailarina do risco de se perderem irremediavelmente nos abismos de  suas patologias.

O figurino, lindíssimo, traz concretude possível ao abstrato que nos desorienta. Ao mesmo tempo em que nos oferece a caracterização que encontra a  nossa expectativa coletiva, distrai com as palavras inesperadas tatuadas nas roupas e corpos. 

Bailarina e Maestro, num jogo cênico que emociona pela plasticidade perfeita tanto quanto angustia pela busca contínua pelo equilíbrio que faça a existência tolerável, são fragmentados pela ausência de lógica  de linearidade dos seus inconscientes  individuais e/ou compartilhados. A atemporalidade daquele espaço  "onde não há mais essa contagem" confunde, mas ainda assim permite as conexões, ainda que efêmeras,  com o tempo  e o espaço "lá fora". 

E é  justamente  no esforço permanente por equilíbrio das pulsões individuais de um e outro - dança e música - que dá-se o encontro amoroso  que sugere a possibilidade de cura.

 A cada encontro, o conforto do reconhecimento e acolhimento. A cada cura, redenção das inúmeras mortes anteriores.  "Aliás, quando foi a última vez que você morreu"?





sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Tudo pela família. Que família?

Murphy Brown foi um dos primeiros seriados da TV americana que acompanhei. Ainda é, na minha opinião, uma das melhores séries de todos os tempos! Estrelada pela maravilhosa Candice Bergen, contava a história de uma jornalista de investigação recuperando-se do alcoolismo. Em um dado momento, Murphy Brown decide levar a cabo a sua gravidez como mãe solteira. O nascimento do bebê no seriado coincidiu com a campanha presidencial americana de 1992. O então vice-presidente Dan Quayle repudiou publicamente o seriado e culpou a personagem pelo péssimo exemplo de incentivar gestações fora do casamento e contribuir para a dissolução dos valores familiares. O assunto gerou enorme polêmica na época e a resposta da produção da série foi gravar emergencialmente um episódio - um dos melhores da tv que tenho memória - onde Murphy Brown pergunta ao vice-presidente, ao lado de várias composições familiares "não tradicionais", o que seria a verdadeira definição de família americana e se ele, oficialmente, não reconhecia aquelas composições como família e, portanto, não governaria para elas. Isso, no início dos anos 90!

A discussão chegou tardiamente ao Brasil e, infelizmente, não beneficiada pelos avanços já consolidados em outros países. Não encurtamos caminhos. Pelo contrário, pegamos a via mais longa e recortada por desvios moralistas, doutrinários e retrógrados, tão dissonantes dos movimentos igualitários e discriminatórios que gritam pelos quatro cantos do mundo.

Ontem, com 17 votos favoráveis e 5 votos contrários, a comissão na Câmara dos Deputados que discute o famigerado Estatuto da Família, aprovou o texto básico que define família como: a  união entre homem e mulher por meio do casamento ou união estável, ou a comunidade formada por qualquer um dos pais junto com os filhos. Pela regra, o projeto segue diretamente para o Senado sem precisar da votação em plenário da Câmara.  O Estatuto definirá, portanto, nessa definição familiar, os direitos e diretrizes das políticas públicas para garantir atendimento às ditas entidades familiares em áreas como saúde, segurança e educação.

As discussões acaloradas deixam aflorar as aberrações dos parlamentares que legislam (??) a nosso (?? favor. Alegações de "homem com homem e mulher com mulher não geram" ou "o afeto não pode ser considerado construtivo de uma relação para a constituição de família" conflitam com qualquer mínimo senso do que efetivamente constitui uma relação familiar funcional e saudável.  O cinismo em reconhecer os direitos e garantir  proteção às relações homoafetivas, mas exclui-las da "base da sociedade" desanima e explicita, sem qualquer pudor, o pensamento predominante e preconceituoso que define a nossa sociedade.

O último Censo Demográfico do IBGE já aponta 50,1% dos domicílios com constituição familiar "não tradicional". Pais divorciados, guarda da mãe, guarda do pai, guarda compartilhada, novos casamentos com famílias agregadas, produções independentes, mães solteiras por opção ou  por falta de opção, mulheres abandonadas, casais sem filhos,  adoções, relações homoafetivas e sei lá que outras estruturas existem por ai. Todas válidas. Todas funcionais. Todas compondo  oque chamamos de país. Estruturadas na verdade, na realidade, da forma que der, da forma que for. Mas, basicamente, estruturadas no  cuidado, no amor.

E é esse, e apenas esse conceito que deve prevalecer como  definição de família: qualquer núcleo que crie - mais do que gere -  crianças amadas, queridas, respeitadas, cuidadas e que possam conhecer e reconhecer  ambientes amorosos e seguros e que lhe ampliem a visão de mundo, do outro, dos outros.

O dever do Estado é o de promover políticas públicas que garantam proteção e direitos a esses núcleos, e NÃO o de definir quais são esses  núcleos  baseados na sua visão curta, equivocada, preconceituosa e excludente.

É, Murphy Brown... Vinte e três anos depois e continuamos empacados.






quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Os três poderes e o forasteiro.

Era uma vez um pais que fingia ter três poderes, quando na verdade só tinha um.Como só esse um tinha voz ativa, os outros dois tiveram que buscar vozes alternativas.

Um deles, já que não tinha mesmo a palavra de fato, correu na frente e apossou-se das nuances e possibilidades das palavras potenciais. Virou e revirou até virar erudição absoluta. Passou a palavrear bonito, pomposo, pleno em significados e significantes. Fez do léxico e da oratória seu trunfo  e identidade. Tanto assim que mal se entendia mais o que mais falavam.

O outro, coitadinho, acuado e sem mando ou desmando, viu-se desconexo e à deriva. Dizem que foi um verdadeiro Deus nos acuda e dava pena ver aquele bando, cada um pra um lado que nem barata tonta, procurando qualquer vozinha perdida ou esquecida. Qualquer restinho valia. De norte a sul, batiam cabeça, suplicavam e se submetiam. Tudo pra roubar um pouquinho da voz dos outros. Prometiam que iam falar por eles, unir coro, e os crédulos, que muitas vezes nem voz pra si mesmo tinham, acreditaram e emprestaram. Nem se sabe o que fizeram com essas vozes roubadas, pois nunca mais foram vistas e muito menos ouvidas. Mas verdade seja dita, fizeram um vozeirão daquelas vozinhas.

De repente, um dia, o tal poder mandão sentiu a sua força falhar. Estranhou, porque nunca pensou que sua mandança tinha data de validade. Até se arrependeu, pois se soubesse, não teria desperdiçado mandos inúteis. Mas a verdade é que o poder já não era tão poderoso assim.  Ficou apavorado e tentou cura. Tomou fortificante, chá de ervas,  suplemento estrangeiro e chamou até pajé pra dança mandante. Não adiantou. O  poder estava mesmo despoderando.

O outro poder, o metido a besta das palavras difíceis, logo percebeu que alguma coisa estava errada. Macaco velho com tanta leitura, colocou-se à disposição, ofereceu apoio e garantiu proteção. Em troca, queria reconhecimento, um pouco mais de pompa e roupas bonitas, de preferência, com faixas e babados. Além disso, queria festas com TVs e holofotes ligados,  dias e dias, tempo real, boca do povo e redes sociais. O poder maior, ciente de que era apenas questão de vaidade, prontamente concordou. Até simularam alguns eventos, comoção nacional, entrou até polícia na história. De uma hora pra outra, tinham nome e rosto. A fama, ainda que tardia!

A dobradinha até que funcionou bem, mas o terceiro poder ficou mordido. Ah, é? Pensavam que por ter voz ativa e voz erudita podiam deixá-lo de fora? E afinal todas aquelas vozes emprestadas não tinham valia? Encheu-se de brio e contestou. Ninguém sabe de onde veio tanta audácia, mas foi confronto pra não botar defeito! Balaio de gatos! Desafetos à solta, irmão contra irmão, inimigo beijando inimigo, esquerda pra direita, direita volver, todos os deuses e credos louvados, décadas de ressentimentos à tona. As vozes emprestadas, assustadas, quiseram fugir. Queriam falar outras palavras, mas estavam atadas. E o poder, coitado, tão equivocado, queria recuperar seus anos de obscuridade e coadjuvância desarticulado e às cegas. Enfiou os pés pelas mãos e, no desespero, por mero acaso, pisou no calcanhar de Aquiles do tal poderzão. E bingo! Refém tornou-se.

A coisa ficou feia pra todo lado.

Até que apareceu um forasteiro desconhecido e de intenções não claras que resolveu botar ordem no coreto. Ou, pelo menos, começar.  Prometeu lavar a sujeira e pôs a boca no trombone. Nome aos bois de muitas boiadas.  

O poder da voz ativa não gostou, mas engoliu em seco. Com a força enfraquecida, o melhor era rezar,  acender vela pra todos os santos e  demônios e fazer promessa para o forasteiro nunca chegar no seu gado. Benzia-se ao nascer e ao pôr do sol.

O poder das vozes roubadas também não gostou. Tinha boiada espalhada por todo lado e seria uma perda irreparável. Organizou um arrastão pra tentar safar-se ou, pelo menos, intimidar.Nem sabia a quem, mas sabia que alguém. As vozes desencontradas falavam aos mesmo tempo e em línguas distintas.Às vezes, nem língua era.

O poder da voz erudita também não gostou. Aquele forasteiro estava roubando a cena e trazendo pra si os aplausos. Não tinha tantos bois assim, mas sabia que pra continuar no palco, tinha que salvar alguns bois alheios.

E assim se deu. Não se sabe se na calada da noite, se nas alcovas palacianas ou nos bueiros dos esgotos. Não se sabe quem ou quantos.  Mas a verdade é que desidrataram o forasteiro. Vai minguar até não tirar mais sustento dessas paragens.

E assim, os três poderes  poderão viver felizes para sempre. Cada qual no seu quadrado.  Que assim seja. E para todo o sempre. Amém.


quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Primaverindo.

A alma hibernada despertou preguiçosa. O silêncio do inverno, exausto, descansou reflexivo e solitário. Aqui e acolá, alegrias acinzentadas começavam a mostrar leves sinais de inquietação. Abriu a janela e deixou os frios cortantes escaparem por entre as rajadas das brisas que apenas se insinuavam. 

Além do horizonte visível, novos horizontes ampliados prometiam luz radiosa e cegavam exuberâncias pungentes e vigorosas.

Respirou o novo profundamente.

Estendeu as mãos para as delicadezas de orvalho e deixou-se salpicar das pequenas gotas de encantamentos que brotavam verdes e esperanças.

Entregou-se suavemente à metamorfose anunciada. Deixou-se vestir de todas as cores e cobrir de todas as flores. Exalava perfumes inesperados e entoava surpresas de pássaros.

Esperava e desesperava renovação.

Primaverava, enfim!

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Yom Kipur. Sobre transgressão e perdão.

Todas as religiões lidam com o conceito de pecado, arrependimento e perdão. E nem poderia ser diferente, pois todas as religiões buscam aproximar o homem imperfeito da perfeição do divino.

Dentro dessa visão, o pecado - que prefiro chamar de transgressão - enfraquece a conexão mais íntima e profunda entre o transgressor e Deus. Ao mesmo tempo, o sentimento de afastamento remete imediatamente ao retorno, possibilitando um arrependimento sincero que re-estabeleça a integridade e intensidade do vínculo.

A minha formação católica estabelece como transgressão tudo o que vai contra os mandamentos de Deus, os ensinamentos de Jesus e os dogmas da Igreja. A comunhão com Deus se manifesta na sua plenitude através da comunhão, onde a hóstia (corpo de Cristo) nos é oferecida  se formos absolvidos de nossas transgressões. Essa absolvição se dá através da confissão e arrependimento diante do representante da Igreja que nos dá a penitência compatível com a gravidade da transgressão. Esse processo de arrependimento/perdão é individual e praticado a qualquer tempo e a qualquer hora. Não há na religião católica um período dedicado a uma reflexão coletiva daquela comunidade sobre os fundamentos e práticas da nossa fé no que diz respeito a pecado, arrependimento e perdão. Questiono a minha religião nesta prática, pois impõe um intermediário entre o homem e Deus. Um intermediário que, ao colocar-se como juiz que sentencia, condena ou absolve, cria distanciamento entre a natureza humana e o divino.

O judaísmo propõe uma noção mais ampla de pecado e de perdão, atribuindo-lhe polaridades diferentes: a do homem em relação ao homem e a do homem em relação a Deus.O primeiro polo deriva da vida cotidiana e das interações sociais. É do universo dos homens e ai mesmo precisa ser resolvida, sem a intervenção de Deus. Já o segundo polo deriva do centro da alma e da consciência. Essas transgressões serão perdoadas dentro do universo da religião e da relação homem/Deus.

O vínculo entre o homem e Deus complementa-se em três níveis. O primeiro nível, semelhante ao católico ou a qualquer outra religião, refere-se ao lado "mecânico" da prática religiosa: seguir os mandamentos, respeitar os rituais e honrar os escritos sagrados. Peca quem não observar essas práticas. O arrependimento, também semelhante ao catolicismo, manifesta-se a qualquer momento e o perdão é concedido. O segundo nível, que também se aproxima da minha religião, refere-se à fé mais íntima e profunda e, portanto, também pessoal. É acreditar e viver plenamente aquela religião e estabelecer com Deus um relacionamento que norteia as ações. Ao pecar, esse relacionamento enfraquece e homem e Deus se afastam. O arrependimento e consequente perdão restabelecem prontamente esse vínculo e também podem se manifestar e ser  concedidos a qualquer tempo, dependendo apenas do empenho e consciência de cada um. O terceiro nível - e ai não encontro analogia na minha religião - une a essência judaica a essência de Deus. Essa união é intrínseca à alma judaica e, portanto, não pode ser afetada pela ação do homem, pois ele e Deus se complementam. A noção de que as transgressões cometidas não afetam essa união e que esse vínculo é intocável e sem obstáculos não encontra correspondência na minha formação.

E só assim encontro sentido na celebração do Yom Kipur, que sempre me pareceu prático demais: dedicar um dia para zerar todos os pecados, obter o perdão e virar a página. Hoje percebo esse período como um tempo real de reflexão da comunidade como um todo, embora, paradoxalmente, cada judeu seja único e absoluto na comunhão plena com Deus.

sábado, 19 de setembro de 2015

Rock in Rio - memórias musicadas

"Love of my life... Can't you see?... Bring it back... Bring it back... Don't take it away from me... Cause you don't know... What it means to me... (Love of My Life - Queen)


Como explicar cantar Love of My Life com Fred Mercury e mais 250 mil pessoas coberta de lama até a alma?

Como explicar acompanhar meus filhos adolescentes na apresentação da Britney Spears?

Como explicar acompanhar Cold Play num encerramento tão surpreendentemente apoteótico que fez chorar?

Trinta anos de Rock in Rio e assisti a três edições.

A primeira, inesquecível, que trago como uma das maiores - se não a maior - das minhas memórias musicas. Só quem foi sabe. Só quem foi jamais saberá. Não haverá, acredito, na história desde então e até que, outro evento igual.

A segunda, em 2001, na companhia dos meus filhos adolescentes, tentando gostar de bandas que não faziam parte do meu repertório e encontrando maior - muito maior -  identificação com as bandas brasileiras que se apresentaram divinamente. Além da abertura com a Orquestra Sinfônica que, foi, sem dúvida, um lindíssimo momento de aproximação e convivência com diferentes tipos de gêneros musicais. Rock in Rio  como palcos de músicas além do rock.

Na terceira em 2011, e provavelmente  minha última participação,  sem muitas expectativas e apenas para aproveitar mais essa oportunidade dessa energia absolutamente contagiante, fui tomada por sensações e surpresas totalmente inesperadas! De Elton John ao grupo mexicano Maná, encerrando com Cold Play absolutamente mágico! Naquela madrugada, escrevi o texto abaixo numa tentativa de traduzir aquela experiência:

Rock in Rio 2011.

Tenho um passarinho dentro de mim. Um passarinho que desde ontem não se cala. Canta e me encanta com cada recanto onde encontre o canto que traduza a minha emoção em letra e música. Tantas letras e músicas quantas sejam as emoções que precisem - e mereçam - ser cantadas.

Meu passarinho voa alto, muito alto! E ontem me levou com ele ao topo do mundo! E ainda mais alto... No alto do céu mais alto... Mas quando olhei para baixo, me vi também lá embaixo, pequenininha e perdida no meio de uma multidão.... E olhando mais além ainda, vi mais e mais pessoas que também estavam lá, mesmo sem lá estar. A música, e acho que só a música, a boa música, tem essa capacidade. Isola na multidão, abraça no isolamento, faz ser único ao mesmo em que faz ser todos, é solo e é coro!

Meu passarinho também canta em várias línguas.Em todas as línguas! Infinitas, inusitadas e inesperadas. Possíveis e necessárias para expressar as também emoções infinitas, inusitadas e inesperadas. Palavras, idiomas, instrumentos, acordes, luzes, roupas, tatuagens, cabelos, efeitos, fogos, palmas, gritos, flashes, sons conexos ou desconexos, mãos levantadas, olhos marejados, mãos dadas, abraços, risadas, emoção - sempre a emoção - comunicam, aproximam, identificam, conectam, derrubam barreiras, se doam. Ontem eram todas minhas! Multilínguas numa só! E hoje o meu passarinho as recria e recanta na memória...

Foram muitos os shows,bons shows, ótimos shows que assisti ao longo da minha vida. Todos com seu acervo incomparável de memórias de momentos especiais. Mas ontem foi uma noite ainda mais especial. Talvez pelo feliz agrupamento dos grupos que se apresentaram. Talvez pela feliz sintonia das pessoas presentes. Talvez pelo que aquelas músicas em particular tivessem para me cantar e provocar naquele momento. Talvez por razões que nem saiba! E que realmente não importam. Hoje estou irremediavelmente musicada!

E meu passarinho está em festa! Pois ele sabe. Sempre soube. Que a música cura qualquer mal e qualquer tristeza. Conforta e consola. E alegra e contagia! Adoça. E colore. Como colore! E acolhe. E sempre acha o seu lugarzinho. E te mostra o seu lugar. Sempre. 

Numa noite mágica, vestiu-se de amarelo e virou canarinho! E não para de cantar! E voou-me ao meu lugar, curou desacertos e angústias e me inundou de emoção indescritível! Tenho certeza que levou no bico grande parte da minha alma... Que ainda está sobrevoando por ai, leve, sonora, feliz, em paz...

E Viva la Vida! 

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Vila Cacimba e o Brasil

"Eu quero um remédio pra ele ficar pior (...) pioríssimo. (Venenos de Deus, Remédios do Diabo - Mia Couto).


A  Vila Cacimba do romance do moçambicano Mia Couto é governada pelo autarca Suacelência, opressor e corrupto que usurpa e usufrui de todas as riquezas da pacata e mística vila. Envolvida nas escuridões e névoas que o próprio nome sugere, seus habitantes, fortemente ligados ao sobrenatural, vivem vidas que alternam verdades e mentiras, ilusões e realidade. Nada é o que parece ser e sempre há mais mistério do que verdade.

 Bartolomeu, o personagem em torno de quem a trama gira, é um idoso doente, diabético e hipocondríaco, vive enclausurado em seu quarto em loucura mansa, alternando sabedorias do senso comum e absurdos desconcertantes. Ele sonha com um remédio que lhe alivie corpo e mente, enquanto sua esposa sonha com um remédio que lhe abrevie a vida para que a dela possa finalmente respirar.

É na interação entre os personagens e nas suas  fragilidades físicas e psíquicas que remédios e venenos alternam-se como bençãos ou maldições. A verdade, nesse caso, aparece com um veneno de Deus, incapaz de reverter ciclos viciosos e que lança luz à realidade imputando-lhe cores tristes e sem resolver ou apresentar soluções para os que vivem na miséria - miséria no sentido amplo de pobreza de espírito.

Vivemos momentos Vila Cacimba  no Brasil e envoltos na mesma névoa que a encobre.  Realidades nada belas. Armadilhas, infrações, atos ilícitos, camuflagens, pedaladas, artimanhas e desesperança em todos os níveis sócio-econômicos. Estado de torpor.  Um pais terminal que não sabe mais distinguir veneno ou remédio. E  que não sabe se a cura vem de Deus ou do Diabo.

As novas medidas anunciadas como único modo de reverter o estado desesperador da nossa economia são paliativas e pontuais. Taparão o buraco que rapidamente se refará. Sem um plano coerente, pensado e com metas firmes e conscientes de mudanças estruturais profundas - que o governo insiste em ignorar e desconsiderar - nosso gravíssimo estado se agravará ainda mais.

Dizem que a única diferença entre remédio e veneno é a dosagem.  Qual será a dosagem mais eficiente: a do veneno de Deus ou a do remédio do Diabo?



terça-feira, 15 de setembro de 2015

Charlie Hebdo e os limites do humor

Mais uma polêmica envolvendo o Charlie Hebdo e mais uma polêmica envolvendo os limites do humor.

Em janeiro desse ano a sede do jornal em Paris foi invadida e 12 jornalistas brutalmente mortos como represália de piadas contra a fé islâmica. O massacre gerou enorme comoção mundial e "Je suis Charlie" sob todas as formas e cores tornou-se o símbolo da defesa da liberdade de expressão.

Agora outro símbolo é ameaçado. Desta vez, o pequeno Aylan, o menino encontrado morto na areia da praia de Bodrum e síntese do drama dos refugiados, vira material de piada . E Charlie Hebdo coloca-se na posição de réu.

As duas charges abaixo provocaram indignação. A primeira mostra o menino martirizado com a legenda: "a prova de que a Europa é cristã: os cristãos andam na água e as crianças muçulmanas afundam". A segunda repete a imagem que emocionou o mundo diante de um outdoor do Mc Donald's oferecendo dois menus de criança pelo preço de um,  com a legenda: "tão perto da meta".




Que é de extremo mau gosto, não se discute. Mas abre-se a discussão, mais uma vez, sobre os limites do humor.  Deveria haver? Tudo pode ser objeto do humor? Tudo serve ao humor?

Pessoalmente, acredito que não. Há uma linha, ainda que flexível, que delimita a matéria prima do humor. O humor não deve servir apenas ao humorista e deve ir além dessa vaidade ou equivocada onipotência. O humor, para ser bem sucedido, tem que ser coletivo. Para isso, tem que retratar, criticar, denunciar, identificar, imitar e exagerar o que é comum, compartilhado. O humor que não ecoa e não repica não faz rir. O engraçado é nos reconhecermos, ainda que constrangidos, nas nossas mazelas, inadequações, equívocos, caricaturas. Até desgraça pode ter graça, desde que construa e reconstrua.  

Sofrimento e humilhações não se prestam a esse função. A piada a qualquer custo tem um custo. E, de uma certa forma, desnuda a prepotência, ignorância, incapacidade de observação e erro de avaliação do humorista.

A liberdade de expressão, que deve ser preservada a qualquer custo, esbarra na fronteira do politicamente correto x politicamente incorreto. Se há  exagero do que hoje se pode ou não lançar como humor sem ser necessariamente ofensivo,  há também o contraponto das rebeldias sem causa,   polêmicas pela polêmica em si,  sem qualquer função humorística.

Fazer rir é um dom!  E talvez seja esse o limite: se fez rir, é humor! Caso contrário, como nas recentes publicações do Charlie Hebdo, e apenas auto promoção.


segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Que horas ela volta? e o Brasil no Oscar

"Uma tela enorme e vazia...Eu tive medo... Do que enxergaria ali mais tarde... Ou mais cedo..." (A Primeira Vez, Mamãe, Que Eu Fui Ao Cinema - José Miguel Wisnik).

Que horas ela volta?, de Anna Muylaert será o candidato do Brasil a Melhor Filme Estrangeiro na premiação maior do cinema em 2016. Já com prêmios internacionais e ótima avaliação da crítica especializada, o filme vai concorrer com outras indicações de peso, como o mexicano "Gueros", o húngaro "Son of Saul", o francês "Deephan" e o turco "Mustang". O anúncio dos cinco finalistas será em 14 de janeiro.

A relação da nordestina Val e seus patrões chega às telas trazendo frescor e ocupando o espaço ainda pouco prestigiado do nosso cinema, colocando-se entre a comédia popular e a densidade de propostas mais artísticas, e retratando com leveza de crônica as profundas transformações sociais recentes do nosso pais.Com humor e delicadeza, Que horas ela volta? disseca as camadas complexas e conflitantes do preconceito, desigualdade, dependência, lealdade e afetividade que definem e confundem o vínculo duradouro e estabelecido entre as hierarquias brasileiras. As fronteiras sociais, legais e emocionais apenas começam a ser questionadas e lentamente transpostas.

O Brasil concorreu na categoria de Melhor Filme Estrangeiro  em quatro oportunidades: O Pagador de Promessas (Dias Gomes - 1963); O Quatrilho (Fabio Barreto - 1996); O Que É Isso, Companheiro? (Bruno Barreto - 1998) e Central do Brasil (Walter Salles - 1999). Participação modesta, mas, ainda assim, motivo de orgulho para a nossa indústria cinematográfica sem, potência e solidez e que ainda luta com tantas dificuldades para viabilizar qualquer projeto.

A indicação de Que horas ela volta? será a quinta tentativa consecutiva de incluir produções brasileiras na competição com outros cinemas mundiais: Tropa de Elite 2: O Inimigo Agora é Outro (José Padilha - 2012); O Palhaço (Selton Mello - 2013); O Som ao Redor (Kleber Mendonça - 2014) e Hoje Eu Quero Voltar Sozinho (Daniel Ribeiro - 2015).

Mais além, o filme de Anna Muylaert foi o escolhido entre outros sete para representar o Brasil. Ter como opções oito produções aponta o crescimento e amadurecimento  do nosso cinema

em qualidade e diversidade temática. E já lhe imprime identidade, robustez e referências de reconhecimento.

Ainda é pouco para o nosso potencial!Contamos com profissionais competentes e criativos em todas as categorias para atender a todas as demandas e funções do cinema!

Mas uma hora a nossa hora da estrela chegará! Quem sabe não será pelas mãos da nossa Val-Macabéa?




domingo, 13 de setembro de 2015

ENSAIOS

Ensaio é o trabalho preliminar a um determinado fim.

Assim, as representações teatrais e musicais, em todas as suas variações, requerem inúmeras experimentações e exaustivas repetições até que sejam, por fim, apresentadas ao público.

Da mesma forma, os ensaios científicos nas diversas áreas de competência e abrangências são sucessivas tentativas e experiências para análise e avaliações de aplicação e eficácia.

 Na literatura, a partir de publicação "Essais "do francês Michel de Montaigne em 1580, o ensaio ganhou status de gênero literário, tangenciando o didático e o poético, mas permitindo formas livres e informais para defender ideias e esboçar críticas pessoais e subjetivas sobre qualquer tema que provoque reflexão e reação.

E é justamente nesses conceitos complementares, e sem a pretensão de ensaísta qualificada, que encontro nesse blog recém criado espaço para ensaiar meus olhares e linguagens.   

Bem-vindos ao amanhecer dos meus  diferentes universos e interesses!