domingo, 29 de maio de 2016

Geo = Terra + grafia = descrição

"Terra! Terra! ... Por mais distante... O errante navegante... Quem jamais te esqueceria?..." 
(Terra - Caetano Veloso)




A minha relação com a Geografia  - e de todos meus colegas do Colégio de Aplicação -  foi a mais positiva e consistente possível!  Diferentemente das outras matérias - Matemática, por exemplo, que dependia de maior ou menor grau de dificuldade, ou Português, outro exemplo, que dependia de maior ou menor interesse, a Geografia requeria , teoricamente, apenas estudo.

No entanto, os anos de Geografia no CAp foram muito, mas muito mais do que simples estudo! A Geografia foi a primeira matéria que conseguia, verdadeiramente, interligar disciplinas! Mais do que isso, conseguia estabelecer relações e correlações de causa e efeito com uma lógica tão obvia que o mundo parecia transparente! E, ainda assim, deixava espaços para o imprevisível e o imponderável! E isso era absolutamente moderno para a época! E fez toda a diferença!

Mérito integral para os três professores responsáveis pelo Departamento de Geografia: João Rua, Luiz Antonio e Maria do Socorro.  Equipe coesa, parceira, cúmplice e, ainda hoje, o meu maior exemplo de como verdadeiramente planejar e executar um projeto curricular! Uma linguagem única, coerente, amarrada, interessante e dinâmica! E, independente das diferenças pessoais entre os três, ter aula com um era ter aula com o outro, e não havia diferença de conteúdo e de resultado! Nunca experimentei, ao longo de toda a minha vida acadêmica, inclusive na faculdade, tamanha sintonia entre professores de um mesmo departamento!

João Rua era alto, magro e usava óculos desses de fundo de garrafa mesmo! Era o mais engraçado e muito  debochado. Luiz Antonio era mais baixo e usava bigode. Era mais sério e mais doce. Maria do Socorro, nossa querida Mary Help, era uma festa! Nordestina porreta, falava com sotaque, tinha risada solta e uma alegria escrachada que contagiava!

A Geografia desses três mestres envolvia. Não havia problema de disciplina ou qualquer desrespeito. Havia participação. Ativa. Espontânea. Com a Geografia, fizemos excursões memoráveis. Discutimos criação de centro acadêmico atrás da igreja, recriamos festivais. Eram os professores acessíveis, próximos, orientadores! Mestres na real concepção da palavra!

Acredito que todos nós, ainda hoje, temos a  Geografia como uma de nossas melhores memórias e conhecimento talvez mais consolidado. Ainda hoje sou capaz de discorrer sobre o fenômeno das monções como se tivesse aprendido ontem!

Anos mais tarde, já morando em São Paulo e estudando na USP, vi entrar na lanchonete da Letras João Rua e Luiz Antonio! Não acreditei! Tinham vindo a um congresso e estavam no intervalo! Sentamos e conversamos por algum tempo e foi a última vez que vi Luiz Antonio, que veio a falecer não muito tempo depois.

João Rua continua ativo na PUC - RJ. Deu-nos o prazer de sua presença em um dos nossos últimos encontros anuais. Foi a sensação! Quarenta anos depois, lembrava nomes, episódios e foi uma inundação de carinho... Nosso com ele... Dele conosco...



Geografia, por definição, é a ciência que estuda a Terra e sua ocupação pelo homem. Seu campo de interesse abrange aspectos físicos (relevo, clima, vegetação, etc) e também as relações e atuações das populações sobre o ambiente.

A minha Geografia  é um profundo agradecimento aos que me ensinaram a pensar e praticar as pontes sólidas do aprendizado!






domingo, 22 de maio de 2016

Abraço.

A pele alva vestida de gaze e tule  reluzia sob o jogo de luzes. Os movimentos delicados ressaltavam sua leveza e fragilidade. Inclinou levemente a cabeça, revelando o coque cuidadosamente envolto pela tiara prateada. Braços e pernas projetaram-se em perfeito alinhamento longilíneo. Flutuava. Reverence ao centro. Reverence à direita. Reverence à esquerda. Reverence novamente ao centro. O rosto resplandecia em sorriso contido e brilho intenso no olhar. Cruzou os braços em direção ao peito. E, curvando-se graciosamente, abraçou todos os palcos do mundo!




(Publicado no grupo Minicontos em 21.12.2011. Palavra-tema: ABRAÇO)

quinta-feira, 19 de maio de 2016

E=mc2

"A imaginação é mais importante do que a ciência, porque a ciência é limitada, ao passo que a imaginação abrange o mundo inteiro." (Albert Einstein)




 O Dia do Físico foi instituído em 2005 para comemorar o centenário da publicação dos trabalhos de Einstein. Dizem que a data escolhida, 19/05, seria uma alusão ao ano de 1905, seu Ano Miraculoso.

Física vem do grego "physis" e significa "realidade" ou "natureza". Seria portanto, a ciência que estuda as propriedades da matéria e seu movimento através do espaço e do tempo e suas correlações com conceitos de energia, força, etc. Em suma: a ciência que tenta compreender e explicar o funcionamento do universo.

Minha relação com a Física é traumática! Aliás, pós traumática! Se é uma ciência palpável e explicável, pois elabora o nosso universo tangível e experimental, para mim, não passa de uma ciência abstrata, incompreensível e quase obscura! O verdadeiro grego das ciências!!

Zé Luiz foi o meu professor de Física durante todo o 2º grau no CAp. Um figura inexpressiva e que demonstrava um certo enfado com a nobre missão do magistério. Vestia jeans e camiseta polo. Falava baixo, senso de humor inexistente e cumpria o conteúdo curricular sem despertar curiosidade ou paixão. Não me lembro de tiradas engraçadas ou associações que ajudassem a "iluminação".

Nunca me iluminei. Só consegui ir bem, ou melhor, relativamente bem, até os princípios do MRU (Movimento Retilineo Uniforme).  Entrou aceleração e MRUV (Movimento Retilineo Uniformemente Variado), danou-se. Aqueles trens que vinham em direções opostas deixaram marcas profundas. A Física me perdeu. Para sempre.

Lembro-me das aulas de Dinâmica e das benditas Leis de Newton. Lembro-me de ter que demonstrar as forças que atuavam sobre cada corpo. Lembro-me de Termodinâmica, de Ótica, de Empuxo e sei lá mais o que. E  lembro-me de precisar montar as equações matemáticas para explicar um fenômeno que eu não tinha a menor ideia! Quanto sofrimento! Quanta frustração! Quanta sensação de incompetência!

Creio já ter comentado por aqui  que,  por alguma abdução inexplicável - ou das maiores ironias do destino - meu primeiro vestibular foi para Engenharia Química. Sim! Eu, essa pessoa que sofria com a Matemática e padecia com a Física. Entrei na UFRJ, mesmo tendo tirado 4/20 - repito: 4/20 - na Prova de Física da Cesgranrio. Lá fui eu, cheia de mim, para a aula de Física I. Na primeira prova, coloquei o estojo e a calculadora em cima da carteira. Calculadora moderna - calculava até tangente -  e que finalmente seria usada, sem a chatice do colegial de precisar fazer as contas na ponta do lápis. Um grande passo para uma relação mais madura e audaciosa com a ciência das ciências! Eram apenas três questões. Todas com letras. Nem um número sequer para eu poder, ao menos, ensaiar alguns tentativas frustradas na calculadora. Fingir que estava resolvendo alguma coisa. Entreguei a prova com alguns rabiscos. Tirei 0,5. Não passei, obviamente. No segundo semestre, refiz Física I. Não passei outra vez, obviamente. Por sorte, meu pai foi transferido para São Paulo. Abandonei a Física para sempre. Com arrepios e  calafrios.

Consegui fazer as pazes com a Física mais recentemente, assistindo ao maravilhoso seriado The Big Bang Theory! Que prazer ouvir frases e frases e frases sem entender uma só palavra! E conseguir rir - muito - com a serenidade e cumplicidade de quem está do outro lado: o lado que sabe que Física é para poucos. Muito poucos. Os escolhidos.

Minha admiração pelos que conseguem algum entendimento dentro da incompreensão absoluta!

Mas sigo Einstein.  Entre a ciência e a imaginação, fico com a última!


sexta-feira, 13 de maio de 2016

Rainhas do Orinoco. E o tamanho da nossa solidão latino-americana.

"... e, eu, rio abaixo, rio  a fora, rio a dentro - o rio". 
 (A Terceira Margem do Rio - Guimarães Rosa)








O Orinoco é o principal rio da Venezuela, correndo por 4/5 do seu território, e interligando um de seus braços, ainda no seu alto curso, às águas do Rio Negro.

Se todo rio tem ou não três margens pode até ser discutível! Mas que esse  rio Orinoco tem, não há dúvidas! E a sua 3ª margem passa bem aqui pertinho, em Carmo do Rio Claro - Minas Gerais, à beira do Lago de Furnas!

E é essa terceira margem,  tão imaginária quanto real,  que une, pelo talento do diretor Gabriel Villela, a nossa latinidade solitária e solidária.

O texto do dramaturgo mexicano Emilio Carballido é uma dessas obras  que  atrai para a leitura sôfrega, ao mesmo tempo em que obriga a  leituras saboreadas pausadamente. Um texto leve e intenso, cômico e dramático, real e onírico, cru e poético, social e individual, político e alienado.

Essas dualidades e paradoxos tão característicos da essência latino-americana têm eco imediato. Reconhecemo-nos imediatamente no humor sarcástico, na esperança teimosa e no fatalismo melancólico.

Mina e Fifi, duas artistas mambembes  a bordo do barco Stella Maris, embrenham-se, à deriva - literal e metaforicamente -  no coração do fim do mundo - literal e metafórico.



Walderez de Barros, em mais uma brilhante interpretação, surpreende pela comicidade de quem a associa aos grandes clássicos! Que maravilha! Na pele de Mina, emociona pela sabedoria da maturidade, pela obstinação pela sobrevivência e pela cumplicidade. Emociona também pela melancolia desesperançada e desgastada pelos anos tão duramente vividos.



Luciana Carnelli, como a jovem Fifi, é o contraponto leve, otimista e refrescante! É  quem dá alento.  É quem vê futuro na incerteza. E quem encanta-se com o feio, áspero e cruel. A alienação  quase infantil  é o sopro de brisa que navega o barco para o seu destino duvidoso.




Entre uma e outra, o elo do músico Dagoberto Feliz,cuja presença e intervenção costura os pontos dissonantes  em harmonia melódica e de pertencimento. Que lindo repertório latino! Que variedade de gêneros e nacionalidades! Que alternância mágica entre o acordeom  e o piano!

Impossível não associar de imediato à Vem Buscar-me Que Ainda Sou Teu (Carlos Alberto Soffredini), também sobre uma companhia mambembe de circo-teatro, montada por Gabriel Villela em 1990. Foi a primeira peça que vi do diretor e determinante para a minha enorme admiração pelo seu estilo único de unir o clássico ao popular e de imprimir cores fortemente locais a temas universais.




Cenário, como sempre, fortemente alegórico e com detalhes cuidadosos. Da cortina ao painel maravilhoso,  deslumbramentos caudalosos!

Figurinos, também como sempre, impecáveis e de composições inesperadas e  potentes! Cores fortes, tecidos e texturas variadas compõem um verdadeiro  mostruário das definições latinas! Todas lá, reconhecíveis e representadas! Que combinações felizes!

No melhor estilo Gabriel García Márquez, Rainhas do Orinoco é o espelho das nossas mazelas, marginalidades, realidades assombrosas, utopias e nó da nossa solidão. A América Latina corre a bordo do barco desgovernado. Sem alegorias. Sem metáforas.

No mais, é aprender e acreditar, também parte do nosso repertório latino, que sempre "ainda falta o mais interessante'!!











domingo, 8 de maio de 2016

O dia das pavoas.

Lá atrás, no início dos mundos, os deuses criaram as mães e as corujas. Eram tão parecidas que se confundiam até não se saber mais quem era a qual ou qual era a quem. Os deuses, reconhecendo nelas contenção e amor suficientes, delegaram-lhes  a responsabilidade de  proteger e zelar por todas as proles para que os mundos prosperassem.

Mas havia nas mães um orgulho incontrolável que, por vezes, teimava em  se exibir. Os deuses, cientes dessa particularidade, decidiram então conceder-lhes um dia por ano para que esse orgulho aflorasse livremente.

Desde então, todo segundo domingo do mês do maio, todas as mães de todos os mundos transformam-se em pavoas imperiais. Altivas, extravagantes,emocionadas e exageradas. Sem qualquer pudor, desfilam seu orgulho mais desmedidamente orgulhoso.

No entanto, temerosos de que a vaidade maternal as cegasse naquele dia, colocando  mesmo em risco a proteção das  proles, os deuses incrustaram, disfarçados de adornos, os olhos das corujas.

E é por isso que cada pavoa  porta, na exuberância de suas caudas, mais de cem olhos alertas e vigilantes.

E assim tem sido ao longo dos tempos dos mundos.





sexta-feira, 6 de maio de 2016

Matemática.

"Por ter alto valor no desenvolvimento da inteligência e do raciocínio, é a Matemática um dos caminhos mais seguros por onde podemos levar o homem a sentir o poder do pensamento, a mágica do espírito."

(Beremiz - em O Homem que Calculava de Malba Tahan)







O dia 6 de maio foi instituído como o Dia Nacional da Matemática em homenagem  ao professor carioca  Júlio César de Mello e Souza -  mais conhecido como Malba Tahan - e autor de mais de cem livros, metade dos quais voltada para a Matemática. O mais conhecido é O Homem que Calculava, publicado pela primeira vez em 1939 e certamente um dos clássicos que atravessa gerações.

Tínhamos a coleção do Malba Tahan na minha casa. Encadernada, em tons de dourado e vermelho. Não lembro de ter lido todos, mas o Homem que Calculava ficou marcado. Os  mistérios da  Bagdá medieval e os problemas matemáticos  apresentados e resolvidos faziam uma combinação muito interessante!

Infelizmente, a literatura matemática não facilitou muito a minha relação com os números. Estudei no Colégio de Aplicação da UFRJ, notadamente voltado para a Matemática. Como sofremos todos! Quer dizer, não todos,  pois alguns poucos privilegiados tinham o dom. Mas para a maior parte de nós, meros mortais, era um sofrimento! Dos malditos reservatórios que enchiam em razões que nunca entendi aos infindáveis teoremas que esperavam o bendito c.q.d, esforços hercúleos! De  Pitágoras a cossenos, um mundo indecifrável! Uma nota 5 era razão de júbilo! Mais do que 5?? Devia ser alucinação!

Cinco professores marcaram o meu aprendizado de Matemática. E um irmão. Um irmão que sabia Matemática. E que não tinha a menor paciência com quem não sabia. E era o pior professor do mundo! Talvez saber Matemática seja incompatível com ser professor. Em geral. Se for verdade, meu irmão não foi exceção. "Olha aqui, pixote, entendeu?" enquanto rabiscava números e sinais que não faziam qualquer sentido. Quando vinha o "pixote", era melhor encerrar. Melhor dizer que entendeu e tentar entender de outra forma. Tentar entender com ele era  acionar o bloqueio do não entendimento!  Minhas irmãs sabem bem do que estou falando!

Dos professores oficiais,  d.Janete foi a pior! Baixinha e mal humorada. De qualidade, tinha apenas o sobrenome Bezerra, que, não por acaso, era  o mesmo do livo que era a sua  - a nossa - bíblia. A seguinte foi d.Silvia. Ótima professora, mas uma carrasca na elaboração de provas e nas notas. Não tinha conversa nem apelação.  E nenhuma simpatia. Walter veio nos redimir! Com ele, fomos elevados a categoria de humanos e podíamos, inclusive,  chamá-lo pelo primeiro nome!  Foi uma grande evolução!  Ele tinha um bigode que parecia o do Rivelino e era  simpático, leve, brincalhão. E arrancava vários suspiros das alunas admiradoras!!Não me esqueço das tardes em que passei na ante sala do Bahiense da Gávea, onde ele era diretor , pela simples segurança dele estar ali ao lado, enquanto estudava para o vestibular!

Mas passar pela Matemática do CAp sem ajuda era apenas para os fortes. Muito fortes. A maioria precisava da ajuda de aulas particulares para tentar chegar no almejado 5! E essa ajuda tinha nome e endereço: Vilma  na Rua Toneleros, em Copacabana. . Num dos quartos da sua casa colocou uma mesa gigante e era lá que tínhamos as nossas aulas, sempre em grupos de 5 ou 6 da mesma turma. Só tinha alunos do Aplicação! Ela era alta, magra, feia, desengonçada, e uma das personalidades mais incríveis que conheci! Gritava, cantava, se jogava no chão e balançava as pernas, usava uns turbantes, fumava que nem chaminé. E sabia tudo de Matemática! E sabia tudo do Aplicação! E sabia tudo de adolescentes! A gente contava segredos, contava paqueras, e ficava esperando a turma antes ou depois - dependendo dos interesses amorosos e aquela casa era uma loucura de entra e sai de jovens. E graças a ela, a Matemática tornou-se minimamente suportável. E altamente social!

Sonia foi a outra professora particular que tive. Era amiga da minha irmã mais velha e morava numa ladeirona perto da Rua Farani. Nunca tinha visto alguém tão magra e tão branca! Eu ia de mal a pior e precisava recuperar as notas para conseguir fazer o meu intercambio pros EUA. Sonia me salvou! Com ela aprendi  círculos e passei com folga e com segurança! Tenho ótimas lembranças das tardes na sala daquela casa de janelas azuis.

Tirando um breve deslize em Engenharia Química - que até hoje tento entender que entidade me possuiu - a Matemática não fez mais parte determinante da minha vida, a não ser, claro, nas aplicações básicas do dia a dia.

Mas acho que Beremiz tinha,sim, razão no que disse sobre a Matemática e seu poder sobre o  pensamento e sobre o  raciocínio. Hoje, mais velha e mais distante da relação tão desigual com aquele monstro incompreensível, consigo ver a sua beleza, ainda que não consiga decifrá-la.

Números, tal como as letras, se ordenam e coordenam em sequências e significados lógicos. Ainda que tantas vezes - e para tantos - ilógicos. Como qualquer linguagem, a Matemática tem suas normas, regras e articulações. E também transgressões. Integra todos os cotidianos., interpreta todos os universos. Acreditem:  até poesia!





segunda-feira, 2 de maio de 2016

A Juventude. Ahhhh... La Jeunesse!!

"Leveza é uma tentação irresistível. Mas é também uma perversão." (A Juventude - Paolo Sorrentino)






Arrebatamento. Encantamento. Poesia. Lirismo. Beleza. Belezas. Grandes belezas. São esses os primeiros substantivos que me ocorrem para definir o novo filme do diretor italiano  Paolo Sorrentino.

Após  a consagração de A Grande Beleza ( merecido  ganhador do Oscar de Melhor Filme Estrangeiros em 2014),  A Juventude confirma a genialidade do diretor ao combinar referências inspiradoras - especificamente Fellini -  e impor  a sua personalidade e assinatura inconfundível. Já é um gênero!

Sorrentino é um mestre dos sentidos! Sua potência imagética e musical é absurda! São cenas e cenas de  belezas estéticas  e musicais que deslumbram os olhos e os ouvidos. A combinação imagens + musicalidade é responsável pela harmonização do enredo, provocando transbordamentos sucessivos  de emoções.

A Juventude dialoga intimamente com A Grande Beleza! Não como continuação, mas como parte de um mesmo conjunto. Uma saga. E  que cria  espaços para obras futuras. Ou, pelo menos, assim espero!

Nessa saga, o ponto de partida é o vazio criativo e a decadência - decadências - sociais e pessoais.

Em A Juventude, Sorrentino consegue - ou prefere? - costurar melhor os fragmentos aparentemente desconexos que  respondem, em grande parte, pelo sucesso de A Grande Beleza! As questões sobre criação, criatividade e, principalmente, sobre o envelhecimento ganham reflexões menos angustiadas, mais serenas e de extrema profundidade e relevância.

De um lado, o músico aposentado Fred  Ballinger (Michael Caine) e que reluta em aceitar o convite da Rainha para um concerto da sua obra Simple Songs.  De outro,  o cineasta  Mick Boyle  (Harvey Keitel) em processo de produção do seu novo filme, que deverá ser, segundo ele, o seu testamento de vida!  Entre os dois -  e mantendo o gênero desenvolvido em A Grande Beleza - vários personagens periféricos, mas de importância visceral para  complementar facetas que não teriam o mesmo efeito se concentradas nos   dois protagonistas: um casal de meia idade que mal se fala; uma massagista do spa, uma prostituta deprimida, um garoto canhoto iniciante em violino, uma Miss Universo e todos os preconceitos que a acompanham, um ex-jogador de futebol argentino com uma enorme tatuagem nas costas (qualquer semelhança não terá sido mera coincidência!). Destaque para Lena (Rachel Weisz),  filha de  Fred, e que ajuda a compor as nuances da personalidade e da história de vida apresentada aos poucos e sem facilitadores! Destaque também para o ator Jimmy Tree (Paul Dano - maravilhoso!) e a carga de frustração e questionamentos dentro  do campo das vaidades inerentes ao show business. Destaque inquestionável para Brenda Morel,  vivida pela maravilhosa Jane Fonda, e que não podia ser mais perfeita para pontuar mais uma faceta da crueza do universo artístico.

 E é nesse viés das diferenças individuais que as convergências sobre o envelhecimento e o existencialismo se convertem num do mais belos, sutis e delicados filmes sobre a terceira idade!

Michael Caine brilha no contido Fred Ballinger! Que expressão corporal! Que olhar! Que interpretação magistral! Harvey Boyle também se apresenta inteiro na sua capacidade interpretativa! Que presente ser espectadora das contracenas entre esses dois grandes atores! Quanto talento! Quanta densidade! Quanta maturidade! Quanta entrega!

Onde entra a juventude? Na oposição à velhice!  E pontuada  nas singelezas: nas lembranças difusas do passado, no desejo sexual perdido, nas dúvidas sobre próstata, nos movimentos mais contidos,  na melancolia conformada, na sabedoria aprendida e resolvida, na flacidez dos corpos.  Há uma cena lindíssima onde o cineasta Mick  pede a uma de suas jovens roteiristas que olhe pela luneta e veja, por uma das lentes, o próximo, o tangível, o futuro. Essa é a lente da juventude.  Pela outra lente, se vê o distante, o intangível, o passado. Essa é a lente da velhice.

Sorrentino é também mestre do  onirismo! Se em A Grande Beleza nos encantamos com a cena  dos flamingos e com a cena da girafa,  A Juventude nos estonteia em  três momentos mágicos e  altamente alegóricos ! O primeiro é protagonizado pelo personagem periférico do jogador de futebol  - Maradona - numa quadra de tênis. Impossível não se comover  com a força da cena! Muda. Sem uma palavra sequer!  A segunda alegoria é protagonizada pelo músico Fred Ballinger diante de um pasto de gado, onde ele rege um concerto dos sinos pendurados nos pescoços das vacas e da revoada dos pássaros. Indescritível! E de uma beleza que aflora e não quer mais sair! A terceira alegoria é protagonizada pelo cineasta Mick Boyle e outro grande tributo à sétima arte, já característico do diretor. Mick vê diante de si dezenas de personagens femininas, devidamente - e lindamente! -  caracterizadas e repetindo suas falas como bonecas de corda. Cena maravilhosa!

Termino com a cena final. A razão de tudo e onde tudo se justifica: a apresentação de Simple Song #3, performada pela soprano Sumi Jo. Ali tudo se mostra tão simples e tão complexo... Tão humano e tão sublime... Tão belo... Tão incrivelmente belo... E a certeza de são as grandes belezas que, enfim, preservam a juventude!