sexta-feira, 3 de junho de 2022

"Aujourd'hui, maman est morte".

 




 

"Aujourd'hui, maman est morte. Ou peut-être hier, je ne sais pas." (L'Étranger, Albert Camus - 1942)

Li "L'Étranger de Camus, pela primeira vez,  quando estudava na Aliança Francesa de Botafogo, no Rio. Eu tinha 16 anos. De lá pra cá, reli esse livro inúmeras vezes, e, a cada leitura, essa abertura sempre me fascinava!   E acredito,  ainda que inconscientemente, também sempre assustava. 

Até que aconteceu comigo... E a abertura da ficção tornou-se real: a mãe que morreu é a MINHA!! E essa verdade absoluta, definitiva e irreversível muda tudo, absolutamente tudo! Ninguém está preparado para perder a mãe... Ninguém está preparado para deixar de ser filho/a... Absorver essa nova condição requer uma nova estruturação. Muito difícil conceber o mundo, o MEU mundo, sem a presença da minha mãe...

A orfandade materna é o fantasma que ronda, amedronta e gera  insegurança. E não importa a idade! Não há símbolo mais forte, mais confortador e mais consolador do que a presença da MÃE! A mãe valida a nossa existência, reforça a nossa identidade e nos garante o porto seguro num mundo tantas vezes hostil.  O amor de mãe é o paradoxo entre o deixar ir e reter, entre deixar crescer e manter criança, entre deixar ser e querer que seja. E talvez seja por isso, por matar a mãe logo na abertura,  que o livro de Camus seja tão inquietante!

Minha mãe chamava-se Ieda. Nasceu em 13 de junho de 1926, no Rio de Janeiro. Tinha 8 irmãos, dos quais só um ainda está vivo.  Minha mãe era linda! Linda mesmo! Além de extremamente elegante! Elegante mesmo! Em todos os sentidos! Tinha porte, tinha presença. Além disso, apesar de muito decidida e determinada, era gentil e atenciosa com todos! Todos gostavam da minha mãe! Sério! Não conheço quem quer que seja que não gostasse dela! Sempre tinha uma palavra gentil, uma preocupação verdadeira, uma vontade de ajudar, de cuidar, de não deixar faltar. Crianças a adoravam, idosos a adoravam. Quando ela passava na rua, os porteiros dos prédios vizinhos a cumprimentavam. Tinha jeito com todos!

Foi uma mãe disciplinadora! Nossa casa girava em torno de horários! Querem um exemplo? Não podíamos sair pra brincar na rua antes das 16:00. Nossos amigos, que não tinham essa restrição, já estavam brincando, enquanto a gente implorava pro relógio andar mais rápido! Não por acaso, o relógio antigo do qual ela tinha tanto orgulho é o centro da sua parede, cercado por seus pratos antigos azuis. E ela dava corda nesse relógio como um ritual religioso!  

Cuidava dos nossos estudos de perto! Quando crianças, não nos deixava usar borracha, porque caderno "apagado" mostra falta de capricho! E a gente estudava inglês, e francês, e pintura em porcelana, e pintura em tecido.

Era a mãe voluntária para as excursões. E a velha Kombi ia sempre cheia de crianças! Na adolescência, nossa casa era aberta a todos os nossos amigos! Casa cheia! Passávamos as tardes e noites jogando, rindo, jogando, rindo! E ela recebia a todos com um enorme sorriso! Nossos amigos adoravam a minha mãe! Ela levava todos pra passar o dia em Paquetá, E recebia nossas amigas que moravam fora do Rio nas férias! Até supositório em amigas com cólica ela colocava! 

As histórias são inúmeras! E todos os que conheceram a minha mãe vão se lembrar do que vou contar!

1) Minha mãe era devota de Santo Antônio. Devota mesmo! Ia todas às terças-feiras à Igreja de Santo Antônio com a lista de moças solteiras. Sim! Porque, para a minha mãe, não havia vida possível fora do casamento! Alguém sem namorado? Ia pra lista! Meu pai brincava que o coitado do Santo, quando via a minha mãe chegar, se escondia!!  E as  brincadeiras e simpatias pro Santo casamenteiro?  

2) Minha mãe também era devota de  Santa Rita dos Impossíveis. Mas essa devoção já era mais restrita ao âmbito familiar. A medalhinha da Santa nos acompanhava nos momentos importantes das nossas vidas.

3) Minha mãe ia todos os  sábados à tarde fazer unha e cabelo no Erni, o cabelereiro do outro lado da rua. Todos os sábados! Quando eu era adolescente, eu imagina que ser adulta era isso! E me via, no futuro, passando as tardes fazendo o mesmo. Não, não fiz! Entendi que isso era dela. Não era meu.

4) Minha mãe adorava ler. Lia muito! E marcava o seus livros com o seu nome antes de emprestar para as amigas. Havia essa troca de livros, principalmente com a sogra da Andréa. Sempre tivemos livros em casa. Coleções inteiras: Monteiro Lobato, Machado de Assis, Croni, Coleção menina e Moça, Malba Tahan, etc. Todas as coleções  eram encadernadas. E tínhamos que ler. Nas férias, então, era obrigatório! Hoje, essas coleções preciosas estão na fazenda da minha irmã Beth.

5) Minha mãe adorava esportes! Acompanhava todos os campeonatos de vôlei e de tênis! Se a gente quisesse saber qualquer horário ou resultado, era só ligar pra ela. E tanto ela quanto o meu pai despertaram o nosso interesse. Todos nós jogamos vôlei. E todos nós acompanhamos esportes.

6) Minha mãe era crocheteira de mão cheia! Estava  SEMPRE fazendo alguma coisa em crochê. Sempre! E fazia enxovalzinho pra bebês. E fazia bicos para toalhas de mesa xadrez. Todos nós temos, até os netos!

7) Minha mãe , quando algum namorado terminava conosco, dizia horrores dele! Mas quando era a gente que terminava   com algum namorado, ele era um coitado e a gente não sabia do que estava abrindo mão!

8) Minha mãe adorava ficar em casa. Detestava ficar fora de casa! Quantas vezes ela literalmente fugia! Acreditam?  Quando ia pra casa da Beth, esperava ela sair pra levar as crianças pra escola e corria pra rodoviária, sem avisar nada, e voltava pra casa. Quando eu mudei pra Buenos Aires, foi conosco pra me ajudar. Na véspera de voltar pro Brasil, ela dormiu sentada no sofá, já vestida e com a mala ao lado. Juro! 

9) Minha mãe adorava jogar buraco. Sábados à noite eram sagrados! E memoráveis! Mas DETESTAVA perder! E a culpa era SEMPRE do parceiro! Ela nem disfarçava o desagrado! Era muito tenso ser parceiro dela!

10) Minha mãe tinha coleção de pratos antigos azuis, de santos barrocos, de lladró, e das benditas galinhas! Essas galinhas eram mantegueiras antigas. Ela tinha várias, de várias cores. Só ela gostava dessas galinhas. Entre nós, era a brincadeira "quem vai herdá-las"? 

11) Minha mãe teve 11 netos e 9 bisnetos. Conheceu todos. Até o menorzinho,  Leonardo, que nasceu em janeiro deste ano nos EUA, ela conheceu. 

12) Minha mãe era louca pelos netos! Deu o primeiro banho em todos. Conhecia os gostos, mimava, trazia pra passar as férias, ligava, participava ativamente. Sempre sabia onde cada um estava e o que estava fazendo. Os amigos dos netos eram muito bem-vindos! Ela agradava mesmo! Quando os netos completavam 1 aninho, ela dava de presente uma sessão de fotos no Preuss para mandar fazer o retrato de carinhas. E ela escolhia uma das fotos e colocou todas na parede ao lado da sua cama. A parede mais linda do mundo! seus 11 netos e os 2 bisnetos que chegaram a fazer as fotos. Todos os netos se lembram da história das criancinhas cujas pernas atrofiaram porque queriam colo e não caminhar!!! TRAUMA!!!

13) Minha mãe era ótima dona de casa! A melhor que conheci! Cozinhava bem e as arrumações de armários eram impecáveis. Gostava de mesa bem posta, gostava de louça bonita. Tinha obsessão por roupa de cama e banho. Sempre tinha novos e as toalhas de banho tinham que combinar com os lençóis! Tenho que admitir que herdei isso dela. Meus filhos que o digam! Mas era também metódica de uma forma enlouquecedora! Lavar roupa, por exemplo, TINHA que ser aos domingos. Chovesse ou fizesse sol. E as empregadas da casa não tinham autorização de mexer na máquina: ELA é quem apertava os botões dos programas de lavagem! 

14) Minha mãe e meu pai foram MUITO felizes! Eram companheiros e agregadores. Tanto a  família dela quando a família dele eram família MESMO! Crescemos entre tios e primos dos 2 lados! E eles também construíram amizades duradouras e laços que ainda hoje cultivamos através das gerações. Nem imagino o quanto foi difícil pra ela perdê-lo tão  cedo... Foram 39 longos anos sem ele... 





15) Minha mãe detestava remédios, detestava hospital, tinha pavor de UTI. E acho que foi por isso que ela se foi tão logo entrou na UTI... Não era o lugar dela. E ela não ficaria ali...

"Aujourd'hui, maman est morte. Ou peut-être hier, je ne sais pas".  Não foi hoje. Nem ontem. Foi na segunda-feira, dia 30. Mas tanto faz... 

Somos muitos: filhos, genros e nora, netos e bisnetos. E hoje sentimos um enorme vazio... 





Somos 5 filhos pra lá de sortudos!!! Tivemos a melhor mãe do mundo!! 




 E hoje, sem ela, seguimos nós 5! Com um monte de lembranças doces... Com um monte de gratidão... E com um monte de amor jamais esgotado!!