"City of stars... Are you shining just for me?... City of stars... You never shined so brightly..."
La La Land é como se costumava chamar Los Angeles, em especial o distrito de Hollywood, em referência à toda a mágica que acontece ali. Título perfeito para esse filme irresistível, encantador e apaixonante! Toda a magia hollywoodiana está retratada nessa pequena obra-prima!
O musical é um tributo calculado e merecido ao gênero! O enredo simples e ingênuo, recheado de clichês, reflete esmero e atenção a detalhes Nada é descuidado ou gratuito! A nostalgia é construída positivamente e não no saudosismo vão e engessado. Referências a clássicos como Casablanca, Juventude Transviada e Dançando na Chuva celebram a história do cinema, mas, ao mesmo tempo, servem como elo com o tempo presente.
O encantamento já se impõe na cena de abertura. Que cena lindíssima e envolvente! Quanta música, quanta luz, quanta coreografia, quanta juventude! Tudo pulsa! Tudo move! Tudo sugere sonhos e vontades!
A partir dai, já estamos cativos. E entregues para acompanhar e torcer, ao longo da simbologia das estações do ano, as primaveras, verões, outonos e invernos das trajetórias profissionais e do desenrolar do amor entre Mia (Emma Stone) e Sebastian (Ryan Gosling). A atuação da dupla impressiona e comove! Sem serem particularmente reconhecidos pelas habilidades necessárias para estrelarem musicais (canto e dança), surpreendem pela qualidade, naturalidade e verdade. Com química já lapidada por trabalhos anteriores, constroem sua história de amor com romantismo contagiante e convincente. Não há como não torcer pelo sucesso de ambos e pelo final feliz!
As histórias individuais são comuns a tantos outros artistas que chegam a Hollywood cheios de sonhos e enfrentam as dificuldades e desilusões. Como também a história de amor é comum a tantas outras que passam do arrebatamento inicial ao desgaste do dia a dia e da interferência dos problemas de sobrevivência. O mérito do diretor Damien Chazelle, que também assina o roteiro, foi criar, dentro de um modelo simples e trivial, personagens que quebram a previsibilidade e se transformam sem perder o que os reconhece.
A cena final provoca encantamento ainda mais intenso do que a cena de abertura! O que poderia ter sido contrastado com o que efetivamente foi provoca emoções conflitantes. Um misto de melancolia com resignação, ao mesmo tempo em que anuncia o fim da magia com os créditos finais. Que pena acabar!
Chazelle imprimiu perfeição técnica ao seu filme. Assim, arte, iluminação, fotografia, figurino e trilha sonora constituem-se elementos formais irretocáveis e impecáveis!
Para quem é familiarizado com literatura, poderia-se dizer que La la Land é um dos mais característicos representantes do parnasianismo, movimento literário definido pela busca da estética perfeita e cuidadosamente trabalhada!
Já consagrado no Globo de Ouro, La La Land também se consagrará na emoção inesquecível que certamente entrará na história dos musicais!
Ali ali só ali se se alice ali se visse quanto alice viu e não disse se ali ali se dissesse quanta palavra veio e não desce ali bem ali dentro da alice só alice com alice ali se parece (Paulo Leminski)
segunda-feira, 16 de janeiro de 2017
quinta-feira, 12 de janeiro de 2017
Inferno Astral.
De todos os infernos do inferno, o inferno astral é o mais desolador. O mais sombrio dos sombrios, o mais assustador dos assustadores, o mais gélido dos gélidos. Um vasto, muito vasto vale de devastação, confusão e abandono.
No inferno astral, cada astro, exaurido ao cumprir seus longos ciclos, encontra descanso. Cada casa tem um dono, cada dono se alimenta do seu elixir para recuperação. Ou redenção. Ao melhor, apenas um salvo-conduto para percorrer mais um ciclo.
Nesse período de convalescença e, portanto, sem guardião, os signos vagueiam à deriva, desorientados,expostos e à mercê dos infortúnios e provações. É mesmo o inferno dos infernos.
Mas, mesmo diante desses perigos, os signos, em geral, aproveitam as suas férias astrais. Enquanto os seus guardiães padecem em sofrimento indescritível, os signos respiram novos ares e ousam novas experiências, novas características, novas definições. Transgressores, saltitam como crianças de casa zodiacal para casa zodiacal sem culpa ou cuidado!
Mas não Capricórnio. Não, não Capricórnio. Nunca Capricórnio. Arcado pelo peso do mundo, Capricórnio é solidário ao seu guardião e também se recolhe. Sério, preocupado, atento, responsável e resignado, isola-se. Observa, consternado, o caos. Agarra-se, equilibrista, nos picos mais íngremes e inacessíveis para, solitário, ordenar e organizar. E é nessa solidão inóspita que espera o seu guardião recuperar-se para, juntos, em missão heroica não reconhecida, reconduzirem o mundo à ordem e ao sentido.
Quando termina o inferno astral de Capricórnio, até o inferno respira em alívio celebrado! Até os fogos timidamente ardem mais leves! Os demônios festejam! Os monstros ousam brincadeiras inocentes! As profundezas visitam as tonas como comadres. Turbulências se estabilizam. Há suspensão no ar. Por um breve, muito breve período, os portais do inferno e do paraíso se confundem.
Enquanto isso, Capricórnio, já curvado pelo cansaço jamais refeito, acolhe o seu guardião e, pelos céus zodiacais, segue cumprindo a sua missão.
domingo, 27 de novembro de 2016
Sobre legados.
Rachel já era casada, tinha 2 filhos e trabalhado como secretária executiva durante anos, antes de realizar o sonho de ingressar na universidade.
Silvia tinha acabado de se casar e já era formada em Economia.
Eu era recém chegada a São Paulo, tinha abandonado a Engenharia Química e assumido a minha vocação na área de língua e literatura.
Vocês tinham que conhecer a Rachel pra entendê-la. Vegetariana. Super perfeccionista. Super detalhista. Super preocupada. Super exigente. Super dedicada. Super generosa. Super amorosa. Super solidária. Super atenta. Super filha. Super mãe. Super avó. Ganhou o apelido de Mrs. Morel, em referência à personagem-mãe do clássico inglês Sons and Lovers de D.H. Lawrence.
Vocês tinham que conhecer a Silvia pra entendê-la. Não há pessoa mais atrapalhada. Nem mais engraçada. E engraçada simplesmente porque é, sem qualquer intenção de ser. E não há quem tenha histórias iguais. Sério. Nenhuma ficção chega aos pés das coisas que acontecem com a Silvia! São enredos fantásticos, cheios de tramas, subtramas, melodramas, tragédias, comédias. Mas também não há pessoa mais prática e mais objetiva. Problemas com ela não se criam e são logo colocados dentro da sua ordem de grandeza e zonas de solução.
Eu? Bem, vocês me conhecem bem pra me entender. Sou algo no meio das duas e bem fora das duas.
Portanto, só a casualidade - ou fatalidade - explica esse encontro improvável na Faculdade de Letras da USP em 1978. Improvável não o encontro em si, pois, como em qualquer curso, a diversidade é esperada, previsível e saudável. Digo improvável por ter enraizado, sobrevivido e frutificado fora daquelas salas de aula improvisadas na colmeia, onde o curso de Letras funcionava precariamente naquele tempo. Trinta e oito anos depois, nossas diferenças fazem toda a diferença nessa amizade sólida e que já atravessa a 3ª geração!
Não pensem que foi fácil. Rachel sofreu um pouco. Fazíamos os trabalhos juntas, planejávamos todos os detalhes e, na hora H, eu, que não me preparava como ela, no despreparo trocava tudo e fazia no improviso. E ela ficava sem chão, sem saber como seguir, com aquele monte de folhas que ela tinha estudado e decorado por dias. Ela quis me matar muitas vezes. Sou uma sobrevivente! Mas lembro com carinho das tardes e tardes na sua casa alternando os trabalhos com as minhas epopeias amorosas. Ela ouvia sempre atenta, preocupada e nem sempre de acordo! Foi um alivio quando me estabilizei e casei!
Silvia estava sempre correndo! Ia de casa pra faculdade, da faculdade pra casa da mãe e nunca tinha tempo pra nada! Uma vez tiramos zero - ZERO!! - num trabalho de francês. Tínhamos que ler e resumir La Symphonie Pastorale de André Gide. Inteligentes que somos, dividimos o livro no meio e uma fez uma parte e a outra fez a outra parte. Trocamos, copiamos e entregamos. O trabalho era individual e não em grupo e a professora deu zero pras duas quando identificou as partes absolutamente iguais! Rimos de nos acabar! Duas marmanjas sendo pegas colando. Tivemos que fazer um trabalho de substituição. Bem longe uma da outra!
Formamo-nos em 1981, numa cerimônia coletiva com outros cursos em uma sala na reitoria, sem qualquer pompa ou destaque. Mera formalidade. Mas os legados desses 4 anos em que nossa amizade foi construída não cabem em nenhum diploma!
Vocês tinham que conhecer a Rachel para entender o seu legado! Ela vem de um núcleo familiar pequeno dentro de outro núcleo familiar enorme! Sua mãe, a queridíssima D. Branca, já falecida e com quem tivemos a sorte de conviver por muitos e muitos anos, ficou viúva muito jovem e com dois filhos pequenos. Mas a família maior, de avós, tios e primos tornou-se a família de referência e de lindos exemplos de união e doação. Não conheço ninguém mais dedicada e com maior senso de família do que a Rachel! Seus cuidados realmente emocionam! Além disso, tornou-se a fornecedora oficial das burekas que os meus filhos tanto amam! E é a minha consultora para dúvidas de português, tradução ou qualquer assunto correlacionado. |E a voz da consciência e sensatez!
Vocês tinham que conhecer a Silvia pra entender o seu legado! Ela dá aulas particulares de absolutamente tudo! De corte e costura a Física Quântica! E diz pérolas aos seus alunos do tipo : Não pensem que aqui é um templo ou tenda de milagres!! A gente chora de rir! Silvia tem uma irmã gêmea, Sandra, casada com Arnaldo, o melhor obstetra do mundo e quem me ajudou a trazer Daniel e Marina ao mundo! Só isso já seria legado pra legado suficiente! Mas ela ainda tem 4 cunhadas que também herdamos como se fossem nossas!! Além do mais, é um guia ambulante! Conhece todas as lojas, sabe onde se compra qualquer coisa e faz os melhores roteiros de viagem!
Rachel é casada com Mauricio, que tem um coração maior que esse mundo! Seu filho Adriano é casado com a Fernanda e têm 2 meninos: Gabriel e Ian. Adriano, professor da USP, é o nosso olhar crítico e cético sobre a educação universitária. Sua filha Carolina é casada com Rich, tem um filho, Joshua, e mora nos Estados Unidos. Carolina é grande companheira e que faz enorme falta no nosso convívio diário. A Carolina é uma história à parte nessa nessa história!
Silvia é casada com Luiz Antonio, na minha opinião e na da Rachel, um santo! Sua filha Renata, que hoje é a médica da minha filha, é a doçura em pessoa, casada com Fabiano e têm o Antonio, de 1 aninho e meio. Seu filho Luiz Felipe é o nosso xodó e namora a Cibelis, já adotada com torcida organizada!A caçula, Marina como a minha, mora em Londres e é a nossa Lady absoluta! Realeza da cabeça aos pés!
Nosso maior orgulho é sermos capazes de reunir, todos os anos, nossas 3 famílias e comemorarmos todas as coisas boas que vivemos naquele ano. E, por sorte, sempre temos muito pra comemorar! Principalmente o fato dos nossos filhos, e agora netos, fazerem parte desse legado e, espontaneamente (ou assim queremos acreditar!) acomodarem suas agendas para estarem juntos, interagirem, construírem afinidades e participarem desses encontros que têm tamanha importância pra nós!
Tem sido meu privilégio - e enorme prazer - receber esses encontros na minha casa! E a cada ano, meu prazer é maior e mais emotivo! Olho pras minhas amigas, para as nossas famílias juntas, e meu coração transborda de carinho e orgulho!
Costumo brincar dizendo que quando tudo parece fora do prumo, sem sentido e caótico, volto ao meu centro e me reconheço no mundo quando acordo e vejo que a Rainha Elizabeth continua aqui. De alguma forma, a certeza da permanência dela é a minha certeza de que o mundo ainda é o mundo.
Mas tenho outra certeza. Quando tudo parece mesmo fora do prumo, sem sentido e caótico, esse encontro anual é a minha garantia de que tudo continua certo no meu mundo!
Ontem fizemos o nosso encontro 2016. E hoje acordei com o meu mundo mais florido, mais esperançoso e muito mais promissor!
Silvia tinha acabado de se casar e já era formada em Economia.
Eu era recém chegada a São Paulo, tinha abandonado a Engenharia Química e assumido a minha vocação na área de língua e literatura.
Vocês tinham que conhecer a Rachel pra entendê-la. Vegetariana. Super perfeccionista. Super detalhista. Super preocupada. Super exigente. Super dedicada. Super generosa. Super amorosa. Super solidária. Super atenta. Super filha. Super mãe. Super avó. Ganhou o apelido de Mrs. Morel, em referência à personagem-mãe do clássico inglês Sons and Lovers de D.H. Lawrence.
Vocês tinham que conhecer a Silvia pra entendê-la. Não há pessoa mais atrapalhada. Nem mais engraçada. E engraçada simplesmente porque é, sem qualquer intenção de ser. E não há quem tenha histórias iguais. Sério. Nenhuma ficção chega aos pés das coisas que acontecem com a Silvia! São enredos fantásticos, cheios de tramas, subtramas, melodramas, tragédias, comédias. Mas também não há pessoa mais prática e mais objetiva. Problemas com ela não se criam e são logo colocados dentro da sua ordem de grandeza e zonas de solução.
Eu? Bem, vocês me conhecem bem pra me entender. Sou algo no meio das duas e bem fora das duas.
Portanto, só a casualidade - ou fatalidade - explica esse encontro improvável na Faculdade de Letras da USP em 1978. Improvável não o encontro em si, pois, como em qualquer curso, a diversidade é esperada, previsível e saudável. Digo improvável por ter enraizado, sobrevivido e frutificado fora daquelas salas de aula improvisadas na colmeia, onde o curso de Letras funcionava precariamente naquele tempo. Trinta e oito anos depois, nossas diferenças fazem toda a diferença nessa amizade sólida e que já atravessa a 3ª geração!
Não pensem que foi fácil. Rachel sofreu um pouco. Fazíamos os trabalhos juntas, planejávamos todos os detalhes e, na hora H, eu, que não me preparava como ela, no despreparo trocava tudo e fazia no improviso. E ela ficava sem chão, sem saber como seguir, com aquele monte de folhas que ela tinha estudado e decorado por dias. Ela quis me matar muitas vezes. Sou uma sobrevivente! Mas lembro com carinho das tardes e tardes na sua casa alternando os trabalhos com as minhas epopeias amorosas. Ela ouvia sempre atenta, preocupada e nem sempre de acordo! Foi um alivio quando me estabilizei e casei!
Silvia estava sempre correndo! Ia de casa pra faculdade, da faculdade pra casa da mãe e nunca tinha tempo pra nada! Uma vez tiramos zero - ZERO!! - num trabalho de francês. Tínhamos que ler e resumir La Symphonie Pastorale de André Gide. Inteligentes que somos, dividimos o livro no meio e uma fez uma parte e a outra fez a outra parte. Trocamos, copiamos e entregamos. O trabalho era individual e não em grupo e a professora deu zero pras duas quando identificou as partes absolutamente iguais! Rimos de nos acabar! Duas marmanjas sendo pegas colando. Tivemos que fazer um trabalho de substituição. Bem longe uma da outra!
Formamo-nos em 1981, numa cerimônia coletiva com outros cursos em uma sala na reitoria, sem qualquer pompa ou destaque. Mera formalidade. Mas os legados desses 4 anos em que nossa amizade foi construída não cabem em nenhum diploma!
Vocês tinham que conhecer a Rachel para entender o seu legado! Ela vem de um núcleo familiar pequeno dentro de outro núcleo familiar enorme! Sua mãe, a queridíssima D. Branca, já falecida e com quem tivemos a sorte de conviver por muitos e muitos anos, ficou viúva muito jovem e com dois filhos pequenos. Mas a família maior, de avós, tios e primos tornou-se a família de referência e de lindos exemplos de união e doação. Não conheço ninguém mais dedicada e com maior senso de família do que a Rachel! Seus cuidados realmente emocionam! Além disso, tornou-se a fornecedora oficial das burekas que os meus filhos tanto amam! E é a minha consultora para dúvidas de português, tradução ou qualquer assunto correlacionado. |E a voz da consciência e sensatez!
Vocês tinham que conhecer a Silvia pra entender o seu legado! Ela dá aulas particulares de absolutamente tudo! De corte e costura a Física Quântica! E diz pérolas aos seus alunos do tipo : Não pensem que aqui é um templo ou tenda de milagres!! A gente chora de rir! Silvia tem uma irmã gêmea, Sandra, casada com Arnaldo, o melhor obstetra do mundo e quem me ajudou a trazer Daniel e Marina ao mundo! Só isso já seria legado pra legado suficiente! Mas ela ainda tem 4 cunhadas que também herdamos como se fossem nossas!! Além do mais, é um guia ambulante! Conhece todas as lojas, sabe onde se compra qualquer coisa e faz os melhores roteiros de viagem!
Rachel é casada com Mauricio, que tem um coração maior que esse mundo! Seu filho Adriano é casado com a Fernanda e têm 2 meninos: Gabriel e Ian. Adriano, professor da USP, é o nosso olhar crítico e cético sobre a educação universitária. Sua filha Carolina é casada com Rich, tem um filho, Joshua, e mora nos Estados Unidos. Carolina é grande companheira e que faz enorme falta no nosso convívio diário. A Carolina é uma história à parte nessa nessa história!
Silvia é casada com Luiz Antonio, na minha opinião e na da Rachel, um santo! Sua filha Renata, que hoje é a médica da minha filha, é a doçura em pessoa, casada com Fabiano e têm o Antonio, de 1 aninho e meio. Seu filho Luiz Felipe é o nosso xodó e namora a Cibelis, já adotada com torcida organizada!A caçula, Marina como a minha, mora em Londres e é a nossa Lady absoluta! Realeza da cabeça aos pés!
Nosso maior orgulho é sermos capazes de reunir, todos os anos, nossas 3 famílias e comemorarmos todas as coisas boas que vivemos naquele ano. E, por sorte, sempre temos muito pra comemorar! Principalmente o fato dos nossos filhos, e agora netos, fazerem parte desse legado e, espontaneamente (ou assim queremos acreditar!) acomodarem suas agendas para estarem juntos, interagirem, construírem afinidades e participarem desses encontros que têm tamanha importância pra nós!
Tem sido meu privilégio - e enorme prazer - receber esses encontros na minha casa! E a cada ano, meu prazer é maior e mais emotivo! Olho pras minhas amigas, para as nossas famílias juntas, e meu coração transborda de carinho e orgulho!
Costumo brincar dizendo que quando tudo parece fora do prumo, sem sentido e caótico, volto ao meu centro e me reconheço no mundo quando acordo e vejo que a Rainha Elizabeth continua aqui. De alguma forma, a certeza da permanência dela é a minha certeza de que o mundo ainda é o mundo.
Mas tenho outra certeza. Quando tudo parece mesmo fora do prumo, sem sentido e caótico, esse encontro anual é a minha garantia de que tudo continua certo no meu mundo!
Ontem fizemos o nosso encontro 2016. E hoje acordei com o meu mundo mais florido, mais esperançoso e muito mais promissor!
domingo, 20 de novembro de 2016
Pós-verdade.
O elevador de serviço está parado há dois dias. A conta de luz aumentou. Já é Natal? A unha do meu dedinho do pé está doendo, acho que encravou. Será que te amei mesmo algum dia? Mandioquinha virou artigo de luxo, Garotinho foi preso. Garotinho foi pro hospital. Garotinho foi preso. Garotinho foi pro hospital. Em que sonho te perdi? Lei do Amor fere todas as leis. Meu vestido preto com brilho não cabe mais. Viva o Uber. E os drones. E viva quem eu era com você. Empoderamento é ideologia de quem não tem qualquer ideologia. Desidratar alguém é prova de amor. A boca do inferno de Gregório de Matos foi pro céu. Mickey Mouse completa 88 anos. E eu não sei ser sem você. Dilma não vale nada. Lula não vale nada. Temer não vale nada. Renan não vale nada. Aécio não vale nada. Alckmin não vale nada. Mas quanto vale quem vale? Carboidrato não engorda. E dormir é overrated. Ai, que saudades de nós. E saudades da Darlene. Vidas Secas afogaram. Queria ir pra Mongólia. Ou pra Arcádia. Ou ficar mesmo no Itaim. O Brexit acabou com o verão no Brasil. Tudo culpa do Bob Dylan. O que nos fizemos? O que nos causamos? Não me vejo no Retrato de Cecilia Meireles. Nem no retrato de Dorian Gray. Mas me vejo no Retrato em Branco e Preto do Chico. Sempre me vejo no Chico. Queria mesmo era ser a Capitu. Só que recatada e do lar. Nosso lar. E nossas contas, contas, contas. Nossas contas desacertadas. Je suis. I am. Ai, bendito. Sonhei com o Papa Francisco e acordei de burka. O Japão é comunista. É, sim! Tá escrito na bandeira. Trump é o novo dono do mundo. Mas há ainda algum mundo no mundo?A Superlua minguou em redondilhas menores. E eu só sei que nada sei. Nem saberei. Só vou saber quando souber trazer você de volta pra mim. Sobreviverei a todas as verdades. A verdade salva? A ignorância salva. E quem me salvará do teu vazio? God save the Queen.
terça-feira, 15 de novembro de 2016
Coroas e Caras.
"Liberdade! Liberdade!... Abre as asas sobre nós..."
Os versos acima são do Hino da Proclamação da República, mas ficaram mais conhecidos 100 anos depois, como refrão do samba enredo na vitória da Imperatriz Leopoldinense em 1989.
Do latim "res publica" (coisa pública), o conceito de república é amplo, pois abrange outros conceitos como democracia, bem comum e liberalismo. Hoje, entendemos como república a forma de poder que emana do povo, fundamentada numa constituição que promove, protege e garante os direitos fundamentais e as liberdades civis de todos os cidadãos de igual forma.
Em 15 de novembro de 1889, proclamou-se a República no Brasil, pondo-se fim à Monarquia. Teoricamente, isso significaria a migração do "império da coroa" para o "império da lei".
127 anos depois, no entanto, ainda vivemos num autêntico sistema imperial, onde cora e lei ainda se confundem. Privilégios de poder seguem transmitidos hereditariamente. Igualdade aplica-se apenas às minorias beneficiadas. E a justiça regulamenta, predominantemente, justificativas para a impunidade.
A partir do escândalo do mensalão, em 2005, temos vivido a tímida esperança da descoroação desses impérios anacrônicos. Esperança frustrada por tão poucas punições e pelo rápido rearranjo dos podres poderes.
A operação Lava-Jato reacendeu essa esperança, ao mesmo tempo em que testemunha, atônita, as manobras mais do que escabrosas para transformar denúncias em vitimizações e vitimizações em denúncias. O salve-se-quem-puder começa a abalar os pilares que , historicamente, perpetuam coroas: lealdades, fidelidades e cumplicidades. Mas, ainda assim, ainda que com já alguns condenados, a mobilização para salvação dos podres poderes preocupa e decepciona.
A consolidação da nossa república parece , ainda , um futuro distante e utópico e conceito mais simbólico do que real. As moedas de troca continuam manipuladas. É muita coroa pra pouca cara!
Os versos acima são do Hino da Proclamação da República, mas ficaram mais conhecidos 100 anos depois, como refrão do samba enredo na vitória da Imperatriz Leopoldinense em 1989.
Do latim "res publica" (coisa pública), o conceito de república é amplo, pois abrange outros conceitos como democracia, bem comum e liberalismo. Hoje, entendemos como república a forma de poder que emana do povo, fundamentada numa constituição que promove, protege e garante os direitos fundamentais e as liberdades civis de todos os cidadãos de igual forma.
Em 15 de novembro de 1889, proclamou-se a República no Brasil, pondo-se fim à Monarquia. Teoricamente, isso significaria a migração do "império da coroa" para o "império da lei".
127 anos depois, no entanto, ainda vivemos num autêntico sistema imperial, onde cora e lei ainda se confundem. Privilégios de poder seguem transmitidos hereditariamente. Igualdade aplica-se apenas às minorias beneficiadas. E a justiça regulamenta, predominantemente, justificativas para a impunidade.
A partir do escândalo do mensalão, em 2005, temos vivido a tímida esperança da descoroação desses impérios anacrônicos. Esperança frustrada por tão poucas punições e pelo rápido rearranjo dos podres poderes.
A operação Lava-Jato reacendeu essa esperança, ao mesmo tempo em que testemunha, atônita, as manobras mais do que escabrosas para transformar denúncias em vitimizações e vitimizações em denúncias. O salve-se-quem-puder começa a abalar os pilares que , historicamente, perpetuam coroas: lealdades, fidelidades e cumplicidades. Mas, ainda assim, ainda que com já alguns condenados, a mobilização para salvação dos podres poderes preocupa e decepciona.
A consolidação da nossa república parece , ainda , um futuro distante e utópico e conceito mais simbólico do que real. As moedas de troca continuam manipuladas. É muita coroa pra pouca cara!
segunda-feira, 14 de novembro de 2016
Porque saber ler é preciso.
Maria foi nossa empregada por muitos muitos e muitos anos. Já nem me lembro quantos. Ela já trabalhava conosco quando morávamos em Belo Horizonte e nos acompanhou na mudança pro Rio. Era negra, gorducha e aguentava, estoicamente, uma casa com 5 crianças com horários variados e, a partir da nossa adolescência, as refeições com a mesa cada vez mais cheia de amigos. Maria tinha uma melhor amiga, d. Alice, costureira, e um namorado, Bruce, motorista de ônibus de turismo e que a esperava na rua de trás para namorarem. E era analfabeta.
Maria foi a minha primeira cobaia como professora. Fiz dela um projeto pessoal e adorava passar tempo no quarto ela, ensinando-a a escrever as primeiras letras. Falava sobre vogais e consoantes, cantava as musiquinhas que aprendia na escola e ela ia aprendendo. Quer dizer, aprendendo apenas o que tinha se proposto a aprender: escrever o seu nome. Maria Alves. Copiava, copiava, copiava. Um esforço enorme para reproduzir as letras que compunham o seu nome sem olhar para o modelo. Maria Alves. Um nome tão comum quanto o analfabetismo que ainda marca as tantas outras Marias Alves no Brasil.
Não tinha a dimensão, na época, do que significava viver num mundo em que letras não fazem sentido. Ou em que o itinerário do ônibus é definido pelas suas cores. Ser cega, surda e muda sem ser. E precisar se relacionar com o mundo que impõe o mistério implacável e intransponível da alfabetização.
Fui entender esse abismo muito tempo depois. E a consciência da indignidade do analfabetismo marginal me faz sempre lembrar da Maria com admiração ampliada e orgulhosa por, por questão de honra determinada, ter aprendido a desenhar o seu nome!
Ainda que tenhamos evoluído nas últimas décadas, o Brasil ainda ocupa a vergonhosa 8ª posição, segundo a UNESCO, de pais com maior número de analfabetos no mundo. 8,7% dos brasileiros acima de 15 anos ainda são analfabetos absolutos e 27% são analfabetos funcionais. Mais além, apenas 8% da nossa população são considerados "proficientes" ou seja, capazes de compreender e elaborar textos de motivações diversas, além de gráficos e tabelas, e conseguir opinar, argumentar e se posicionar com clareza e consistência.
Tendo nas palavras a minha formação e trajetória profissional, tenho dificuldade em imaginar o mundo desprovido da mágica do ler e escrever. Porque aprender letras é, sim, um processo mágico. Entendê-las na sua primitividade e, a partir daí, experimentá-las em ordenações múltiplas para significados infinitos é agigantar, alargar, libertar, transformar, romper, desafiar, ultrapassar. É multiplicar e desvendar mundos, universos. É mergulhar em realidades sonhadas ou em sonhos reais.
Precisamos intensificar as políticas e ações - possíveis e disponíveis - para erradicar o analfabetismo em nosso país. E acreditar que a primeira e maior das riquezas e grandezas de uma verdadeira nação é ter nas letras, em cada uma, como em cada letra que compõe o nome Maria Alves, diamantes reluzentes!
Maria foi a minha primeira cobaia como professora. Fiz dela um projeto pessoal e adorava passar tempo no quarto ela, ensinando-a a escrever as primeiras letras. Falava sobre vogais e consoantes, cantava as musiquinhas que aprendia na escola e ela ia aprendendo. Quer dizer, aprendendo apenas o que tinha se proposto a aprender: escrever o seu nome. Maria Alves. Copiava, copiava, copiava. Um esforço enorme para reproduzir as letras que compunham o seu nome sem olhar para o modelo. Maria Alves. Um nome tão comum quanto o analfabetismo que ainda marca as tantas outras Marias Alves no Brasil.
Não tinha a dimensão, na época, do que significava viver num mundo em que letras não fazem sentido. Ou em que o itinerário do ônibus é definido pelas suas cores. Ser cega, surda e muda sem ser. E precisar se relacionar com o mundo que impõe o mistério implacável e intransponível da alfabetização.
Fui entender esse abismo muito tempo depois. E a consciência da indignidade do analfabetismo marginal me faz sempre lembrar da Maria com admiração ampliada e orgulhosa por, por questão de honra determinada, ter aprendido a desenhar o seu nome!
Ainda que tenhamos evoluído nas últimas décadas, o Brasil ainda ocupa a vergonhosa 8ª posição, segundo a UNESCO, de pais com maior número de analfabetos no mundo. 8,7% dos brasileiros acima de 15 anos ainda são analfabetos absolutos e 27% são analfabetos funcionais. Mais além, apenas 8% da nossa população são considerados "proficientes" ou seja, capazes de compreender e elaborar textos de motivações diversas, além de gráficos e tabelas, e conseguir opinar, argumentar e se posicionar com clareza e consistência.
Tendo nas palavras a minha formação e trajetória profissional, tenho dificuldade em imaginar o mundo desprovido da mágica do ler e escrever. Porque aprender letras é, sim, um processo mágico. Entendê-las na sua primitividade e, a partir daí, experimentá-las em ordenações múltiplas para significados infinitos é agigantar, alargar, libertar, transformar, romper, desafiar, ultrapassar. É multiplicar e desvendar mundos, universos. É mergulhar em realidades sonhadas ou em sonhos reais.
Precisamos intensificar as políticas e ações - possíveis e disponíveis - para erradicar o analfabetismo em nosso país. E acreditar que a primeira e maior das riquezas e grandezas de uma verdadeira nação é ter nas letras, em cada uma, como em cada letra que compõe o nome Maria Alves, diamantes reluzentes!
quarta-feira, 9 de novembro de 2016
Trump e muros.
Em 9 de novembro de 1989 Daniel tinha 2 anos e 4 meses e Marina quase 10 meses. E eu testemunhava, incrédula, as imagens do Muro de Berlim sendo derrubado por marretas e picaretas. Marretas e picaretas mais simbólicas do que reais e que mal tiraram lascas da solidez separatista que o tinha erguido 28 anos antes. A imagem daqueles milhares de pessoas ocupando o topo do muro me impactam até hoje. Para a minha geração, juntamente com a chegada do homem à lua, uma das maiores transformações da humanidade.
Em 2012 fui a Berlim com a Marina e emocionei-me muito diante do que restou do muro. Por tudo o que representou antes e depois da sua queda. Foram minutos de recolhimento e absorção solitários e necessários. Os grafites desordenados e de cores e imagens intensas - a maioria de teor pessimista e fatalista - carregam um simbolismo que minha filha, de outra geração, não sentiu.
Ao longo desses 27 anos, a queda do muro tem nos assombrado com sua herança contraditória. É bem verdade que algumas liberdades incontestáveis ganharam espaço e o mundo desordenou-se em pontes importantes. No entanto, muitos outros muros - visíveis e invisíveis - foram sendo erguidos diariamente, impondo distâncias absolutas e intransponíveis. Os muros das inconciliações e intolerâncias alastram-se em proporção ainda maior do que as pontes de conexão disponibilizadas pelo nosso mundo globalizado.
Hoje, num mesmo coincidente 9 de novembro, a eleição de Donald Trump re-ergue o que talvez seja o muro mais simbólico da história da humanidade. O país guardião da democracia sucumbe ao autoritarismo separatista, discriminatório, preconceituoso, machista e xenofóbico. Em nome do resgate da grandeza épica - ainda mais potente do que o Sebastianismo português - retira-se do mundo escolhendo que valores guardar e que valores rejeitar, além de escolher quem comporá a identidade idealizada e renegar, a qualquer preço, quem ameaça a sua pureza.
A promessa do muro divisório com o México é apenas um dos muros que a partir de hoje passam a delinear a geografia estadunidense. A proximidade com ideologias nacionalistas até então opositoras assusta. Não se imaginaria, em qualquer tempo, sob qualquer condição ou configuração, um discurso de um presidente americano alinhado com líderes antidemocráticos.
Temeroso perceber recuos tão determinantes quanto mais o mundo se mostra frágil e desamparado. Desalentador reconhecer que os movimentos para entendimento e conciliação serão paralisados. Incerto prever os desdobramentos e impactos no equilíbrio entre ordens e desordens no mundo. Essas ordenações e desordenações são mutáveis e são elas que promovem as transformações. Progressos e retrocessos igualmente.
MAKE AMERICA GREAT AGAIN. Pergunto-me em que grandeza os americanos votaram.
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