domingo, 27 de março de 2022

Mães Paralelas. Sobre ancestralidade e hereditariedade.



Não há como antecipar um filme de Almodóvar sem altas expectativas! Ou sem buscar, mesmo que inconscientemente, os elementos tão característicos que o consagram como um dos maiores diretores de todos os tempos! E o mais maravilhoso é que nunca nos decepcionamos, nunca nos frustramos. Seus filmes acendem questões nada convencionais e  nos mergulham nas suas cores intensas que ambientam os universos femininos que ele cria com maestria. 





"Mães Paralelas" é um filme essencialmente político, costurado no sagrado da maternidade. Duas mulheres de idades diferentes, contextos diferentes, vivenciando a maternidade não planejada de forma diferente. A mais velha, Janis (Penélope Cruz), aceita sem reservas a filha inesperada que atende à sua vontade de ser mãe. A mais nova, Ana (Milena Smit), ao contrário, não tem elo amoroso com a filha que está para nascer. Mas o sentimento de maternidade sempre fala mais alto, e, após o nascimento, Ana se transforma numa cuidadosa e dedicada mãe. Nada diferente das reações durante o processo de gravidez. Há mulheres que se apaixonam perdidamente pelo modelo de bebê que criam durante o período de gestação. Outras se apaixonam pelo bebê real, nascido e em seus braços. São formas diferentes de acolher o bebê que geram e trazem ao mundo.




A morte de uma das crianças de um lado e a descoberta da troca acidental dos bebês de outro são as perdas que escancaram os lutos vividos e sofridos. E servem de pano de fundo para as questões políticas e dilemas pessoais. 




Mulheres. Apenas mulheres. De todas as idades, de diferentes vivências, anseios, culpas, medos, lacunas. São as mulheres que guardam a história, buscam a verdade, alimentam as memórias. São as mulheres as responsáveis pelo culto à ancestralidade. Desvendar os horrores da Guerra Civil Espanhola que mutilou famílias, disseminou orfandade e semeou a morte indigna. 

E é justamente a busca pela ancestralidade que resolve o enorme conflito da maternidade negada à verdadeira mãe e da  maternidade que reclama a posse da qual se julga merecedora. Privar a hereditariedade é trair a ancestralidade. Impossível seguir adiante. Impossível viver esse mor que não te pertence. E a revelação da verdade é um momento sofrido, doído e belíssimo do filme!

Almodóvar não foge ao seus estilo. Não disseca todas as camadas. Mas elas estão todas ali. E pintas as cores fortes, e mantém os diálogos curtos, diretos, objetivos. Não há dramalhão. Mas há muito drama.

Uma delícia rever Rose de Palma! Não há como conceber um filme dele sem esse rosto tão familiar!

E o que falar de Penélope Cruz??? Linda, magistral, absoluta, perfeita! Deusa! Como pode??? Cada vez mais bela! Cada vez mais plena! 

Buscar as respostas do passado para fazer as pazes com o presente e garantir a verdade do futuro.

Que belo filme! 

domingo, 20 de fevereiro de 2022

When I'm sixty-four

 




                              Sobre catarata, artrite reumatoide e outras condições inconclusivas.


Na adolescência, quando ouvia essa música dos Beatles, 64 era um número  irreal e incompreensível,   absolutamente fora do único futuro que conseguia vislumbrar:  a juventude  eterna!

Completei 64 anos no dia 13 de janeiro. 

Estava há 5 dias com uma febre persistente que atribuí, inicialmente, à Covid-19, diagnóstico não confirmado após 2 exames. A febre alta persistia e encontrava-me em completa prostração na cama. Virar de lado era esforço, falar era esforço,  levantar e ir até o banheiro era como correr a maratona, comer um desafio. Os batimentos cardíacos estavam acelerados e não baixavam de 130, mesmo permanecendo de repouso o dia todo. A comemoração só não passou em brancas nuvens porque meu filho, que ainda não tinha voltado pra NY, minha filha e meu genro insistiram para que eu soprasse a velinha com deliciosos cupcakes. 

O primeiro médico a quem recorri receitou um antibiótico. A febre alta persistia. No segundo dia do antibiótico, acordei com a pálpebra do olho esquerdo caído e os vasos do olho direito rompidos. Durante o dia, manchas vermelhas começaram a pipocar pelo meu corpo. Minha filha conseguiu marcar horário no mesmo dia  numa das mais renomadas clínicas de oftalmologia de São Paulo e me viraram de cabeça pra baixo, mas não identificaram nada que, do ponto de vista oftalmológico, explicasse o quadro. Aparentemente, era uma reação à infecção que me acometia. Mas ganhei, nessa investigação, um presente dos meus 64 anos: a descoberta da catarata que já avança e que, em muito breve, precisarei operar! Pois é...

Anjos da guarda existem e os astros conspiram a favor. Nesse mesmo dia, a mãe de um aluno me ligou para avisar que já tinham regressado de férias e, ouvindo o meu relato (eu estava muito nervosa), me colocou em contato imediato com o Dr. David Uip, de quem é muito amiga, e ele me atendeu no dia seguinte. O Dr. David pediu milhões de exames, concentrados, inicialmente, no grupo dos "mono like", que aprendi ser o grupo que abrange todas as hepatites, mononucleose, toxoplasmose, dengue, zica, chikungunya e afins, além de eletro, eco, rx e outros. A primeira sorologia de dengue apontou reagente, mas após a repetição do exame, o diagnóstico foi descartado. Todos os outros exames deram negativo. A febre continuava, controlada por Novalgina, a prostração continuava e vocês não imaginam as manchas que cobriam todo o meu corpo!

Dos resultados dessa primeira leve de exames, o referente à artrite reumatoide deu bastante alterado. Tenho artrite há 3 anos e absolutamente sob controle por medicação apropriada. Essa infecção ainda não diagnosticada, aparentemente, teria também atacado esse controle da artrite. A reumatologista também me examinou dos pés à cabeça, pediu mais uma infinidade de exames e ela e o dr. David passaram a investigar algum tipo de doença autoimune  (lúpus, por exemplo) que justificasse esse quadro. Nessa altura, felizmente, eu já não tinha febre e a prostração melhorava um pouquinho a cada  dia. 

Em paralelo, o dr. David pediu que fizesse Pet/CT de corpo inteiro, para afastar a possibilidade de algum tumor, e pediu que consultasse a dermatologista para que fizessem a biópsia das lesões da pele. O Pet/CT deu negativo (graças a Deus!), a biópsia apontou as lesões como reação medicamentosa (ao antibiótico ministrado do início do processo) e os exames da reumatologista, salvo algumas pequenas alterações, também não apontaram nada que merecesse maiores preocupações. 

Quarenta dias se passaram desde os primeiros sintomas. Quarenta dias. e sigo sem diagnóstico. Nesta próxima semana, retorno ao dr. David, à reumatologista e à dermatologista para avaliar os próximos passos. O meu estado geral está infinitamente melhor, as lesões ainda cobrem o meu corpo, mas já estão secando, formando uma crosta áspera que, aos poucos, descasca. Mas sigo sem diagnóstico.

Durante os primeiros 30 dias, tomei a decisão de me afastar totalmente de qualquer noticiário. Não vi nem li uma só notícia. Estava tão fragilizada que não queria que tantas noticias nocivas me afetassem ainda mais. Afastei-me, pelas mesmas razões, de todas as redes sociais e, pela prostração, mal respondi às mensagens de grupos de whatsapp. A profunda prostração também impedia a minha concentração e não conseguia ver filmes, nem séries, nem ler uma só linha. Querem saber como ocupei o meu tempo? Vi Ana Maria Braga, Fátima Bernardes e o desenho do Pica-pau pelas manhãs. Gente, o Pica-pau é mesmo genial! Há anos não via! À tarde, pasmem: "O melhor da tarde com Catia Fonseca" e  "A tarde é sua com Sonia Abrão". Gente!! Estou por dentro de TODAS as fofocas dos famosos!! Um mundo à parte que passei a conhecer! Um dia ainda falarei sobre isso com mais detalhes! As novelas também me ajudaram, claro! E a grande surpresa positiva foi "Duelo com Bobby Flay, um chef americano que é desafiado por outros chefs em receitas específicas. SEMPRE torço por ele! Tomei um chá de Rita Lobo (de quem sempre fui fã) e agora nem aguento passar pelo programa dela! Mas esse repouso emocional me fez um bem enorme!

Esses 40 dias me ensinaram muitas coisas. A minha fragilidade emocional. A minha vulnerabilidade física. A importância de cuidar de mim por inteiro. Os limites que não devem ser ultrapassados. Ainda maior respeito à ciência e  admiração aos profissionais de saúde. A consciência do dia a dia. A valorização das pequenas coisas sem julgamento ou preconceito. 

Esses 40 dias também reforçaram meus valores e minhas verdades. Antes de qualquer coisa, os meus filhos amados que são os que me levam adiante e me fazem lutar. A sorte de ter os meus irmãos e sobrinhos que estão sempre junto, sempre unidos, sempre na torcida e na ação. Que sorte a minha! O apoio e amizade do meu ex-marido, que também se mantém junto, preocupado e disponível.  O reconhecimento pelas famílias expandidas de primos que se preocupam e torcem. E os meus amigos maravilhosos, dos mais antigos aos mais recentes, que não largam a minha mão mesmo diante do meu silêncio e afastamento. Amigos, inclusive os meus queridos amigos americanos,  que buscavam  notícias via Daniel e Marina, que me inundavam de mensagens não respondidas, que insistiam em ligar mesmo sabendo que eu não atenderia, que mandaram mimos incríveis e me fizeram chorar copiosamente a cada gesto e a cada carinho. Estou uma manteiga derretida e choro agora, ao escrever essas linhas ao me lembrar desses momentos. Sou a pessoa mais sortuda do mundo e tenho os melhores amigos do mundo!

Volto aos Beatles e a "When I'm sixty-four". Hoje, o número 64 é real, concreto e absoluto. Tem sido, por vezes, de um peso quase insuportável. Mas, por outras vezes, tem sido de leveza flutuante. Olha pra trás com orgulho da trajetória já percorrida, e olha à frente lapidando as escolhas para viver melhor. Sabe muito, muda muito e não tem receio algum de questionar. Entende e respeita as limitações, mas confia no potencial. 64 é um número que merece respeito e o tenho tratado com todo o cuidado de que sou capaz.

Penso muito no refrão da música: "Will you still need me? Will you still feed me? When I'm sixty-four". Aprendi, nesses 40 dias, a alegria de ainda me sentir querida e necessária. É o melhor sentimento do mundo! E aprendi também o quanto as pessoas que amo ainda me alimentam, todos os dias, com carinho, risadas, apoio, companheirismo e, principalmente, com novos conhecimentos e visões de mundo!

YES! I AM 64! Com atrite, com catarata e com diagnósticos ainda inconclusivos! 

quinta-feira, 25 de novembro de 2021

Tanto a agradecer!

 



DANIEL E MARINA. Meu pai, minha mãe, meu irmão, minhas irmãs. Meus sobrinhos e minhas sobrinhas. Meus sobrinhos-netos e minhas sobrinhas-netas. Meus tios e tias. Meus primos e primas. Minhas famílias expandidas. Meu ex-marido e sua família. DANIEL E MARINA. Meus amigos e minhas amigas de infância desde Belo Horizonte e suas famílias. Meus amigos e minhas amigas de adolescência no CAp e suas famílias. Meus amigos e minhas amigas da Rua General Glicério e suas  famílias.  Minha família, meus amigos e minhas amigas de Sparta e suas famílias. Meus amigos e minhas amigas de USP e suas famílias. Meus amigos e amigas agregados ao longo da vida adulta e suas famílias. Meus amigos e minhas amigas agregados no trabalho e suas famílias.  Amiguitas y amiguitos y sus famílias. Minhas amigas de dança e suas famílias. DANIEL E MARINA. Meus alunos queridos e tão especiais e tão provocadores e que tanto me ensinam - e suas famílias. Todas as escolas, schools y escuelas  e todos os professores, teachers y maestros  que construíram a trajetória dos meus filhos. DANIEL E MARINA. Trovão, Cookie, Mel, Nina, Vito. DANIEL E MARINA. Todos os que fizeram/fazem a arte que me emociona. Todos os que escreveram/escrevem o que me transforma. Todos os teatros que me transportam. Todas as músicas que me embalam. DANIEL E MARINA.  Rio, Belo Horizonte, São Paulo, Buenos Aires, San Juan. Paris, Praga, New York, Barcelona. DANIEL E MARINA. E também e inclusive e não necessariamente nessa ordem, minha casa, minha janela, meu olhar pro mundo.  Pizza. Pastel de palmito. Novelas. Água sanitária. Tecnologia. Risoto. Rir. Rir muito. Gargalhar. Falar um monte de besteira. Ter com quem falar um monte de besteira. Pão de queijo. Rosas brancas. Rita Lobo. Sol e pôr do sol. Luas. Aspirador de pó robô. Havaianas. Figo na salada. Aliás, bolo de figo que ainda nem comi. Queijo branco. Siesta. Sorvete de coco. Maple syrup. Alexandre Nero. Mar. Sino da Igreja. E este ano, em especial, VACINA. E todos os cientistas e médicos e enfermeiros e profissionais que lutaram/lutam tão bravamente para  salvar nossas vidas. E por fim, mas não menos importante, aliás, muito pelo contrário, CHICO BUARQUE. E SEMPRE, ACIMA DE TUDO E DE TODOS E MAIS E MAIS: DANIEL E MARINA.


domingo, 26 de setembro de 2021

Deborah Colker e a "cura do que não tem cura"

 


O espetáculo "Cura", da coreógrafa Deborah Colker, é  de uma beleza absolutamente estonteante! E é, ao mesmo tempo, um soco no estômago e um enorme afago no coração!

Deborah Colker tem a inquietude dos grandes artistas! Como cria! Como inova! Como experimenta! E como mistura linguagens em harmonias imprevisíveis! Devo confessar que os seus trabalhos mais recentes me emocionam mais do que os trabalhos mais antigos. "Cão sem plumas", inspirada no poema homônimo de João Cabral de Melo Neto, é uma obra-prima! Só mesmo ela para dar movimento a uma dos meus poemas preferidos!

E agora chega "Cura"! O nome do espetáculo, ainda que não tenha sido inspirado em nada relativo à pandemia, estreia quando estamos desejosos e necessitados da cura literal, mas, principalmente, da metafórica. Estamos doentes de alma. E nunca a cura foi tão urgente.

Para lembrar, Deborah tem um neto, Theo, portador de epidermólise bolhosa, uma doença genética e hereditária rara que provoca a formação de bolhas na pele. A longa e frustrante jornada pela ciência  levou a coreógrafa a percorrer outros universos contraditórios entre si, mas que encontraram a convergência da resiliência. Não da desistência.

"Cura" é o resultado dessas referências e influências. Nos movimentos do corpo, a harmonia científica, história, mitológica, religiosa e musical. A riqueza simbólica é absurda! E nos chega em sons, alegorias e coreografias espetaculares!

O rabino Nilton Bonder responde pela dramaturgia. Quem leu "Alma Imoral" ou já assistiu a algumas palestras do Nilton Bonder entende a escolha. Quem já participou da celebração do Rosh Hashaná conduzido por ele na Pedra do Arpoador no Rio sabe o quanto ele une as pontas da vida e da fé. Fui uma vez, com o meu filho Daniel, por convite da minha amiga Beatriz Tremblais, e foi uma das experiências mais incríveis da minha vida!

Carlinhos Brown assina parte da  trilha sonora. A música de abertura coreografada por um só bailarino, fala justamente sobre a  dor. "Sou mais forte do que a minha dor". Nunca passei por uma dor tão dilacerante, mas tenho amigos que passaram e passam. E consigo entender a força desses versos. A força que não deixa a dor vencer, ainda que a dor se instale em cada cantinho do corpo ou da alma. Nos curativos da dor, a resistência. Que abertura forte, doída e penetrante! Sentimos a dor do bailarino. A dor se personifica no palco. 

Deborah, Bonder e Brown conseguem unir as emoções mais comuns e as mais raras! E fazem um espetáculo de uma grandeza que apenas todos os séculos da existência humana explicam!

A lenda do orixá Obaluê abre "Cura", declamada pelo próprio neto de Deborah, estabelece o lúdico que compõe também a busca pela cura do incurável. É uma abertura inesperada para um espetáculo de dança, mas não poderia haver nada mais apropriado! Na lenda do Orixá da doença e da cura, toda a trajetória do abandono, acolhimento, preconceito e superação. Não poderia haver analogias mais pertinentes!

A partir daí, estabelece-se uma sucessão de movimentos, contorções, distorções, músicas, tradições e palavras. É uma obra tão visual e sensitiva quando verbal. Mérito do Bonder, que escolheu a dedo as palavras certas e que nos incomodam tanto quanto acalantam. A potência das palavras... Já dizia Cecília Meirelles: "Ai, palavras, ai, palavras! Que estranha potência a vossa! Todo o sentido da vida principia a vossa porta:" De palavras isoladas a salmos lindíssimos, os caminhos da dor, da busca, da aceitação, do pedido de socorro, da ajuda, da insistência. 

Gostaria de destacar duas coreografias que particularmente me marcaram e que exemplificam os caminhos mencionados acima.  A primeira foi a simulação do Muro das Lamentações da tradição judaica.   Que impressionante! E a segunda foi a simulação do "caminhar". Caminhar sobre as águas, caminhar pelo íngreme, caminhar só, caminhar amparado, caminhar pesado, caminhar leve. 

O caminhar que, uma vez concluído, resulta na alegria que encerra o espetáculo. Porque a cura do que não tem cura, quando assimilada, pode - e deve! - conviver com a alegria! Essa é a grande lição.

Encerro com uma das referências mais  inspiradoras: HINENI. EIS-ME AQUI!


quarta-feira, 5 de maio de 2021

Carta para Paulo Gustavo.





São Paulo, 5 de maio de 2021.


Oi, Paulo Gustavo!

Ainda estou anestesiada com a sua partida tão prematura. Na verdade, estamos todos. O Brasil acordou numa baita ressaca hoje.

Sabe, Paulo Gustavo, desde a sua internação, imaginamos que a luta seria dura.  Conforme as notícias chegavam, entendemos que seria mais dura  ainda do que supúnhamos. E, por maior que fosse a nossa torcida pela sua recuperação, lá no fundo, no fundinho, sentíamos que seria uma luta perdida.

E olhe que teve torcida! Você não imagina! Quer dizer, sei que você imagina. Imagina, não. Sabe.  E com certeza sentiu! Você, certamente, sentiu toda essa onda de amor e cura que tomou conta de todo o Brasil! Que onda, Paulo Gustavo! Uma onda enorme, gigantesca! Uma onda tão tão tão mas tão colossal que banhou o nosso país dos sentimentos mais amorosos, espontâneos e generosos de que fomos capazes!

Paulo Gustavo, você conseguiu o improvável. Você conseguiu nos unir pela primeira vez em muitos e muitos anos! Porque, te juro, não conheço uma só pessoa que não rezasse por você, torcesse por você, sofresse por você. Por você, todas as divergências, por mais inconciliáveis em tempos tão extremos, deram uma trégua. Uma pausa nos ódios, nas agressões, nos muros. E todos, todos mesmo, conseguimos encontrar as emoções que nos lembram o que nos faz humanos. 

Faço uma pausa  porque queria simplificar e te chamar de Paulo. Paulo Gustavo é grande demais. Até pensei em adotar PG. Mas não dá. Você é Paulo Gustavo! Vou ter que seguir assim!

Perder você é perder muito mais do que pensamos possível. Individual e coletivamente. Porque te perder cria enormes feridas que aprenderemos a fechar em cicatrizes doídas. 

Vou começar a falar por mim, Paulo Gustavo. Acho que "te conheci" tardiamente. Mas natural, considerando a minha idade, né? E te conheci naquele comercial MARAVILHOSO do Open English, em que você disse uma das frases mais brilhantes "I give the white color in my mind"! Amo esse frase! Sou professora de Inglês, então já viu, né? Foi ai que pesquisei sobre você, aprendi quem você era e passei a ser fã. Fã mesmo! De carteirinha! D. Hermínia é inspiração. Tenho 2 filhos e me vejo, muitas vezes, encarnando a D.Hermínia! Tenho uma mãe de 94 anos que também tem muito da D.Hermínia. E quem não tem? Todas as mães se veem nela. Eu rio de chorar com ela! Como rio de chorar com outras personagens! Sabe qual é uma das minhas favoritas? Aquela que fuma feito uma chaminé! Sou ex-fumante e adoro aquela mulher!!! E Vai  que Cola? E a Vila? Durante a pandemia, corro pro Multishow quando acaba a novela da Globo pra ver as reprises. E a Vida em Marte??? Não tem cena melhor no cinema nacional do que vocês em NY esbarrando nos outros pra dizer "sooooryyyyy". Maravilhoso"!

Mas Paulo Gustavo, você é tão mais do que as suas personagens! Você é a leveza que  acalma. O seu humor é límpido, natural e fala diretamente com a gente. Esse humor espontâneo, cheio de furos, que ri de si mesmo, é o humor que nos conquistou. E sabe por quê? Porque você conseguiu juntar o palco e a plateia. No espaço dividido do teatro ou do cenário de TV, você derrubou os limites. Veio pra plateia e nos levou pro palco. Pouco, muito poucos conseguem isso. E, em você, parece tão natural e obvio! E foi nesse humor cúmplice e compartilhado que a gente aprendeu a te amar. 

Desde ontem às 21:12, não param de circular vídeos seus. E o coração aperta de um jeito que você nem imagina! Em um deles, o do Final de Ano na Globo, você diz que "Rir é um ato de resistência". É mesmo, Paulo Gustavo! Diante de tudo que temos vivido no nosso combalido país nos últimos anos, rir é resistir. Com todo o abandono, as escolhas contra a vida, as perdas irrecuperáveis, os lutos inconsoláveis, conseguir rir é resistência e sanidade. Não é fácil... Não tem sido fácil... Todos os dias somos confrontados com números assustadores... Com ações e omissões monstruosas... Nosso mundo é sombrio... Nossas vidas estão encolhidas,  recolhidas... Vivemos saudades... E um esforço quase impossível ver alguma graça além do caos...

A sua partida tirou quase toda a pouca graça que nos restava. Ficamos orfãos, Paulo Gustavo! Orfãos do profissional brilhante, do filho do qual nos apoderamos (desculpe, d. Déa!), do cara que defendeu tanta coisa, que quebrou tantos preconceitos, que provocou tantas mudanças, que abriu tantos corações fechados, que mostrou a careca e a cara lavada com  transparência cativante. Orfãos do amigo que te consideramos. Você é o conhecido de todos nós! Você é próximo, íntimo. A gente te conhece intimamente, Paulo Gustavo!  

Você virou o símbolo do nosso luto. Sua partida tão prematura e tão  injusta vai ser um divisor de águas nas irresponsabilidades  que têm nos condenado. Você vai ter orgulho de nos deixar mais esse legado. O preço é alto, altíssimo! Mas será pago.

Mas nem quero falar disso. Porque falar disso é trazer sentimentos muitos ruins de raiva, de muita raiva, de indignação, de revolta. E não quero isso pra nós hoje. Não merecemos isso. Muito menos você. 

Hoje é dia  apenas de sentimentos de luz. De amor. De gratidão. De admiração. De leveza. De tristeza profunda. Mas tristeza que constrói. De solidariedade desmedida à sua mãe, seu marido, seus filhinhos lindos... Abraço a sua mãe com todo o carinho de que sou capaz. Abraço o seu marido desejando a ele uma força que nem sei de onde ele vai tirar. Abraço os seus filhinhos certa de que eles saberão crescer lindamente  com a sua ausência sempre presente. 

Hoje é dia de serenar. E te desejar paz. 

Paulo Gustavo, que fique o riso. Escancarado. Resistente.

Como termino essa carta? Não sei...  Pode ser com I give the white color in my mind?  Acho que não tem melhor maneira de expressar o nosso vazio. Na mind e no heart. 

Com imenso carinho,

Maria Alice


segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

D.Algenir. A maior figurista dos carnavais!

 Passei a minha adolescência na Rua General Glicério, em Laranjeiras, certamente  uma das ruas mais lindas do Rio de Janeiro! Rua General Glicério, 440. Edifício Pajeú. Morávamos no 5º andar. Apartamento 502. No apartamento 503, morava a Cristina Sobral (também conhecida como Sobralina), neta ilustre do ilustre Sobral Pinto, de quem me apropriei também do tratamento íntimo "vovô Sobral". No apartamento 602, bem  em cima do nosso, morava a Graça Miranda (também conhecida como Graciosa). Formávamos um trio inseparável, e, para nossa sorte, continuamos trio até hoje. Juntas, tornamo-nos , assumidamente, gralhas, ou hienas, ou retardadas (até os filhos, muitas vezes, se referem a nós dessa forma!). A nossa capacidade de rir e falar besteira é inesgotável! 

Somos um trio singular. Eu e a Cristina sempre adoramos praia. A Graça não ia à praia. Eu e a Cristina adorávamos carnaval. A Graça não ia com a gente. Eu e a Cristina fumávamos escondido na escada. A Graça não fumava. Eu e a Cristina fuxicávamos tudo. A Graça pegava uma revista e lia. Eu e a Cristina brincamos, até hoje, de sermos repórteres culturais e esportivas. Simulamos transmissões ao vivo, inventamos entrevistas, conversamos com os nossos ouvintes! A Graça nos chama de loucas e se recusa a fazer parte da nossa equipe. Vocês precisavam escutar algumas das nossas transmissões "ao vivo". Põe qualquer live da Bethânia no chinelo!  

O que isso tudo tem a ver com figurinos de carnaval?  Tudo a ver! Porque a mãe da Graça, D. Algenir, essa linda da foto abaixo, era uma costureira de mão cheia! E eu e a Cristina tivemos a sorte de sermos presenteadas com os modelitos mais lindos do mundo!!! 

O melhor deles, e mais original, foi um pós-banho. Segundo a d.Algenir, era um substituto do roupão de banho (que a gente nem usava!) para sairmos do banho e ficarmos confortáveis até vestirmos a nossa roupa.  Era, na verdade, um tomara-que-caia curtinho, com um elástico na cintura. Os dois eram estampados e o meu era amarelo. Como a gente adorava aquele pós-banho!! Íamos pelo corredor uma pra casa da outra, sempre de pós-banho! Sentávamos pra fumar escondido na escada de pós-banho! Reuníamos para ouvir música de pós-banho! A gente não largava o pós-banho! Foi, sem dúvida, a peça de roupa que mais marcou a nossa adolescência! E não me conformo de não termos uma só foto para mostrar! 

Mas as melhores criações da D.Algenir foram as nossas fantasias de carnaval! Eu e a Cristina íamos, todos os anos, aos bailes da AABB e, aos domingos, quando acabava o baile, tentávamos entrar nas arquibancadas da Presidente Vargas para ver os últimos desfiles das Escolas de Samba. A Graça, claro, não ia com a gente. Mas d. Algenir garantia os nossos figurinos. E era assim, ano após ano, que desfilávamos os nossos pareôs super estilosos! Íamos de par de vasos! Mudava a estampa, mas o modelo era exatamente igual! E como a gente gostava! Como a gente se sentia mais linda do que qualquer fantasia em qualquer salão do Rio de Janeiro! Uma vez, num dos últimos carnavais a que fomos de clube, d.Algenir se esmerou! E fez uma baiana estilizada maravilhosa!!! A saia era bem curtinha, de renda branca. O bustier e o arranjo da cabeça eram de lamê dourado. Ficou MARAVILHOSA! 

Nesse carnaval tão atípico, recluso e confinado, as minhas memórias de carnaval jorram! E olho pra trás com uma enorme saudade... Mas, ao mesmo tempo, com uma alegria infinita por tantos e tantos carnavais aproveitados até o último acorde do "Cidade Maravilhosa"! 

E, mergulhada nessas memórias tão doces, tão foliãs, tão agradecidas, veio uma imensa saudade da d.Algenir... 

E me imaginei na escada entre o 5º e 6º andar do Edifício Pajeú... Vestida no meu pós-banho esperando a hora de colocar o meu pareô e cair na folia! E sei que a estrelinha lá no céu iria sorrir, orgulhosa das suas criações!

Salve, d. Algenir! Linda! Querida! Maravilhosa! 

 










Vocês não têm ideia! 

terça-feira, 26 de janeiro de 2021

Monica. Porque a primeira amiga da adolescência a gente nunca esquece.





Monica foi a minha primeira amiga quando voltei ao Rio com 10 anos de idade. Estudamos juntas na Escola Municipal Albert Schweitzer, na mesma rua em que morávamos. Quer dizer, na rua em que eu morava, Rua General Glicério, em Laranjeiras.  A Monica morava na rua de trás, Rua Professor Ortiz Monteiro, no icônico Edifício Três Mosqueteiros. Da área de serviço da minha casa eu conseguia ver a janela do quarto dela. E era assim que nos comunicávamos para combinar quem ia pra casa de quem. Porque sempre íamos uma pra casa da outra.

Estudamos juntas por apenas 1 ano. No Admissão, eu fui para o Colégio Teresiano, na Gávea. Não me lembro para onde a Monica foi... No ano seguinte, ambas tentamos o sorteio para entrar na 5ª série do Colégio de Aplicação da UFRJ (CAp) , na Lagoa. A Monica foi sorteada. Eu não. Continuei no Teresiano. Mas nossas janelas continuaram. E, como adendo dela, fui conhecendo os seus amigos e me entrosando no CAp.

Mônica repetiu a 5ª série. Eu entrei no CAp na 6ª série. E, ainda que tenhamos ficado em séries separadas,  nunca deixamos de estar juntas. Nunca. Herdei a sua turma original, da qual ela também jamais deixou de fazer parte.  E ampliamos nosso pequeno círculo com os novos alunos de sua nova turma. E nossas janelas continuaram.

Meu irmão nos levava para o Cap todas as manhãs. Minha irmã caçula, Andrea, e a irmãzinha da Monica, Rossana, também faziam parte da comitiva. E era a mãe da Monica que nos trazia de volta no final da manhã. Nossa convivência ultrapassou o universo de amigas. Virou família. Mesmo. Monica se tornou uma irmã. 

Minha adolescência foi ao lado dela. Não tínhamos segredos, tudo dividíamos. Usamos o primeiro soutien (eu antes que ela!) , menstruamos, demos o primeiro beijo. Juntas sonhamos, vibramos, descobrimos amores e todas as outras coisas importantes desta fase. Não me lembro de nada - importante ou não - que ela não tenha testemunhado ou participado. Eu mega metida, ela mega não metida. Eu na frente, ela na retaguarda. Uma encobrindo a outra. Inventamos roteiros fantásticos! Como tínhamos imaginação! Como ela tinha paciência com as minhas trapalhadas!  Ouvimos todas as trilhas sonoras de novelas ( a mãe dela SEMPRE comprava os discos das Trilhas Nacionais e Internacionais!)! Fizemos guerras de sapato contra a coitada da Rossana de deixar as marcas na parede do quarto! Fomos a festas! E nos metíamos em cada uma... E sempre, sempre, sempre, sempre, sempre defendíamos uma a outra. 

Monica era lobo em pele de cordeiro. Fala mansa... Quieta... Tímida... Mas por dentro... Quando o sangue fervia... Socorro!!! Por sorte, os seus ataques nunca foram dirigidos a mim! Não sei se sobreviveria! Monica tinha uma situação familiar conturbada e, volta e meia, "fugia de casa". Pra aonde? Pra minha casa! Perdi a conta de quantas vezes ela se refugiou conosco. Meus pais a acalmavam, a acolhiam, a mãe dela sabia que ela estava em segurança, ela ficava alguns dias, a poeira baixava, ela voltava pra casa. E essa rotina se repetiu inúmeras vezes. Eu adorava a mãe dela! Mais jovem, tinha uma cabeça mais aberta, a gente conversava muito! E meus pais adoravam a Monica! Virou filha mesmo! Uma vez, ela disse que, se um dia se casasse, queria que o meu pai entrasse com ela na igreja. Isso não aconteceu, porque meu pai morreu muito cedo. Nem sei se realmente aconteceria, mas era essa a nossa intimidade.

Vivemos nossas vidas adultas muito separadas depois que vim pra SP. Monica não teve uma vida fácil. Teve a Gabi sozinha, ficou viúva muito cedo e com outros dois filhos: Marcelo e Roberta. Bateu um pouco a cabeça, mas a sua capacidade de resistência e recomeços é impressionante! Tenho uma admiração infinita pela coragem, pela determinação, pelo despojamento! Hoje ela mora em Portugal. Um novo recomeço, que, espero, lhe traga tudo que ela sempre desejou, correu atrás e merece!

Hoje é o dia dela! 63 anos! E o que eu desejo não cabe nesse número tão pequeno pra contar a nossa história. 

Hoje é o dia dela! E eu só quero agradecer! Muito! Sempre! Porque se eu, ao longo da minha vida, aprendi a ser uma boa amiga, foi com ela que aprendi! Ela me ensinou a amizade da forma mais destilada, generosa e comprometida possível! 

Monica, minha irmã de alma e de vida: PARABÉNS!!!!!!! Te amo tudo o que posso!!!!