terça-feira, 5 de abril de 2016

Torcidas Organizadas: Paixão, violência e sociedade.

"Não acredito que um jogo de bola e, sobretudo jogado com os pés, seja capaz de inspirar paixões e ódios." (Lima Barreto - 1918)

Torcer vem do latim "torquere", de significado original torcer, desvirtuar, distorcer, adulterar, tornar, virar, torturar e  atormentar. Torcedor seria, portanto, aquele que distorce os fatos e falseia a verdade, vendo apenas o que lhe é favorável.

Curiosamente, numa interpretação exclusivamente brasileira, o jornalista e radialista Luiz Mendes atribui a origem da palavra torcida a um ato de extrema elegância:


"No começo do futebol, ir ao estádio era um ato de elegância, principalmente no Fluminense. Por isso o Fluminense tem até hoje essa fama de clube aristocrático. As mulheres se enfeitavam como se fossem ao Grande Prêmio Brasil, colocavam vestidos de alta costura, chapéus, luvas. Mesmo que a temperatura na cidade estivessem por volta dos 40º, elas iam de luvas. Como o calor era muito grande, elas tiravam as luvas e ficavam com as luvas nas mãos, e como ficavam nervosas com o jogo, elas as torciam ansiosamente. Os homens usavam a palheta, um chapéu de palha muito comum na época, muito elegante e também ficavam com o chapéu na mão enquanto torciam. O Coelho Neto, que além de poeta e cronista era pai de dois jogadores do Fluminense: o Preguinho, que foi o primeiro homem a fazer um gol pela seleção brasileira em uma Copa do Mundo, e do Mano, que morreu em consequência de um jogo de futebol, levou uma bolada e acabou morrendo; pois o Coelho Neto escreveu uma crônica em que ele usava a expressão "as torcedoras" , referindo-se às mulheres e dali a expressão pegou e nasceu a torcida. Havia quem dissesse que torcida vinha do fato de as pessoas torcerem os fatos, de o torcedor torcer os fatos a favor de seu clube, mas não foi dai que o termo veio não. Apesar de que quem torce, realmente torce as coisas e até distorce. Mas, na verdade, não foi por isso, foi mesmo pelo gesto das moças , principalmente das que torciam com as luvas entre as mãos."





Talvez por inevitável identificação tricolor, abraço a segunda versão para a origem da palavra. E não sem lembranças da adolescência polvilhadas do pó de arroz que cobria as arquibancadas do Maracanã aos domingos. Jovem Flu e Young Flu: minhas primeiras e saudosas experiências com torcidas organizadas.

É bem verdade que qualquer confronto Fla x Flu gerava tensão. Discussões e xingamentos eram frequentes. Pancadarias mediante provocações também. Mas o que mais assustava , na verdade, eram os rojões -  dezenas - soltos a esmo na entrada do time ou nas comemorações dos gols.

Havia um comportamento tácito preventivo. Por exemplo, levar sempre uma camiseta extra para esconder a do clube e evitar confrontos na saída. Afinal, quem perdia, com os nervos exaltados, não perdoava. Também sentar na arquibancada oposta só sob voto de silêncio e sem esboçar qualquer reação diante de qualquer supremacia do time do coração. Leis de sobrevivência.

As manifestações mais apaixonadas ou reativas, no entanto, parecem brincadeiras de criança quando comparadas com o grau de violência que impera hoje dentro e fora dos estádios.

"Nós, brasileiros, somos pobres e humilhados. o futebol é a nossa vingança." (Tostão)

Os números assustam. Desde 2010, já foram 113 vítimas fatais, sendo 30 delas apenas em 2013! O perfil dos agressores é o mesmo: jovens entre 15 e 24 anos, de todas as classes sociais , na sua maioria associados ao crime organizado e ao tráfico de drogas.

O futebol talvez ainda seja o mair símbolo de nossa unidade e identidade.Apesar da decepção com o  fraco desempenho das nossas seleções atualmente, ainda somos assumida e orgulhosamente o país das chuteiras. E em clara oposição ao caráter agressivo e violento das manifestações das torcidas, o futebol  é um esporte essencialmente inclusivo e democrático, além de portador de forte apelo lúdico.  Num país de tantos contrastes geográficos, étnicos, culturais e sociais, é de se estranhar a convivência cada vez mais difícil com as diversidades inerentes à prática de qualquer esporte - e, por espelhamento, às nossas próprias diversidades.

E talvez a explicação esteja justamente nesse espelhamento.Imagem distorcida. Macunaímas por natureza.

Quanto mais permissivos e tolerantes com os dois pilares que têm sustentado nossa sociedade - impunidade e corrupção - mais mergulhamos na violência social e permitimos micro violências. E, com elas, abalizamos o descrédito de país, a falta de oportunidades, a injustiça social, a baixa auto estima, a exclusão e inadequação. Sentimentos absolutamente contrários à natureza do futebol! Mas que, lamentavelmente, hoje também o definem.

"Amigos, eu sempre digo, aqui e em qualquer lugar, que o torcedor de futebol é um monstro de circo de cavalinhos. Fala-se que o amor é a mais sombria, a mais violenta, a mais cruel paixão do homem. Mentira; - é o futebol. Insisto: - o futebol desfigura o ser humano, tira-lhe todo o raciocínio, todo o sendo do bem e do mal, faz dele o já aludido monstro de circo, transforma-o num Drácula horrendo." (O Torcedor - Nelson Rodrigues - 1929)

E só assim se explica a má combinação paixão/frustração. O que deveria agregar segrega. O que deveria unir distancia. O que se reconhece renega. E a índole pacífica se revolta.

E o futebol passa a ser o espelho de um país dividido, intolerante, agressor e violento. E o torcedor, mecânico reprodutor do que sofre, aprende e não entende.

Volto às luvas. E à elegância que deveria - e poderia - determinar as nossas chuteiras. Dentro e fora do campo. Dos campos. Todos os campos que desafiam hoje nosso desempenho e torcida.

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