segunda-feira, 20 de fevereiro de 2023

Ubu Rei. Delírio Tropical.


 "E o direito ilegítimo que eu tenho? Não vale nada?"





Alfred Jarry, dramaturgo francês e um dos maiores inspiradores do surrealismo e do teatro do absurdo, estreou "Ubu Roi", sua principal obra, em Paris, em 1896.  A atonicidade com a proposta tão fora do padrão foi tamanha, que as vaias e repúdio do público mantiveram a encenação fora dos palcos por 10 anos!  

Tive a imensa sorte de assistir à  primeira montagem da peça no Brasil em 1985! Ubu/Folias Physicas, Pataphysicas e Musicaes, do grupo Onitorrinco, foi protagonizada por Cacá Rossetti. Cenário e figurino assinados por Lina Bo Bardi. Com  linguagem ousada, irreverente, transgressora e instigante, a peça ficou em cartaz por anos e sucesso absoluto de crítica e premiações. O bordão "Eu não tô legal" fez parte de toda essa geração! Que experiência teatral! 

Rei Ubu tornou-se personagem famoso no cenário paulistano da época. A melhor história foi durante o plesbicito de 1993, ao apresentar-se como defensor a Monarquia e exigir que o Príncipe Dom Bertrand de Orleans e Bragança, não sem tumulto e constrangimento, aceitasse o encontro entre os dois Chefes de Estado. 

Tive também a imensa sorte de assistir à  magistral interpretação de  Marco Nanini  na pele do Rei  Ubu,  na celebração dos 50 anos de sua carreira, em 2017 A proposta dessa montagem foi menos transgressora,  e mais revestida de humor refinado e frescor revigorante. A modernidade do texto permitiu , sem qualquer esforço, um passeio leve, sagaz, ácido e análogo à sordidez e mesquinharia do poder corrompido e corruptor. "Pelos chifres que carrego na cabeça" foi o bordão que marcou essa montagem de celebração!

E tive, por fim, a imensa sorte de assistir, ontem, à surpreendente montagem de Ubu Rei com o grupo Os Geraldos e direção de Gabriel Villela! 





O texto atemporal e visionário de Alfred Jarry parece ter sido escrito sob medida para testar as possibilidades e a genialidade do Gabriel!  O cenário histórico de preocupante regressão a governos totalitários, extremistas e antidemocráticos é um convite ao deboche e escracho tão bem dimensionados no palco. O absurdo da realidade é fonte inesgotável para o absurdo do  teatro! E cada nuance, cada brecha e cada descuido são  explorados e deliciosamente oferecidos! O resultado é uma experiência de leitura do nosso tempo mais típica da crônica, mas temperada pelo humor caricato que quase nos liberta dos tempos sórdidos ainda tão recentes! 

A assinatura do Gabriel está em tudo! O cenário é montado e desmontado pelos próprios atores, sinalizando a mudança de cada ambiente com muita eficiência e pontuando o caráter ficcional da obra. 




Os figurinos, como sempre, são personagens vivos e ativos! São tantos detalhes! São tantas referências!  As golas elizabetanas estão sempre presentes! Destaco o trabalho em crochê por baixo das roupas do Pai Ubu! Tão mineiro! Tão "manual"!




E, claro, a trilha sonora que sempre encanta e costura o enredo,  e flui, como águas caudalosas dos rios mineiros, para revolver as  nossas emoções! "Disparada" abre, seguida de "Viola enluarada". Quase chorei! Lindo demais! E segue até "Bella Ciao" e  "El pueblo unido jamás será vencido"! Cancioneiro de riqueza incalculável!

Não conhecia o trabalho de Os Geraldos! Que grupo maravilhoso! Que atores talentosos! Quantas habilidades!!! Destaque especial para a atuação do "Bostadura", que interpreta a forma de falar do nosso ex-presidente com perfeição!




O maior mérito da montagem do Gabriel foi ambientar a Polônia no Brasil. E adaptar o texto original aos desmandos do último governo e todos os absurdos que tivemos que engolir! O casal Ubu em lutas antiéticas e antidemocráticas para tomar o poder e instaurar a barbárie é o espelho do que vivemos. Tudo de forma sarcástica, exagerada, crítica! As personagens obscuras da nossa política recente estão todas lá! Dos 4 filhos do ex-presidente à deputada Carla Zambelli. 




Gostaria, ainda, de destacar dois elementos. O primeiro é a caracterização do Pai Ubu e a Mãe Ubu de forma altamente sexuada! Os enormes orgãos genitais à mostra fazem o ponto, constroem o simbólico principal definido pelo diretor. O segundo elemento é o empoderamento da Mãe Ubu e a "bestialização" do Pai Ubu. Mãe Ubu não é submissa! Defende-se, opõe-se, situa-se, cobra, inferioriza, ocupa. Essa faceta é nova quando comparada às montagens anteriores. 





E, por fim, queria destacar o momento lírico e tão belo... A morte da consciência. A consciência personificada como mulher, como fauna e flora tropical, desprotegida... E que sucumbe... Um lindo momento poético e melancólico... 




E viva  o teatro!  E viva a sua missão alegórica, fantasiosa e profana de cruzar as linhas da imaginação, da identidade e da emoção!







sábado, 5 de novembro de 2022

Ana Maria Whitaker. Nossa eterna embaixatriz.



Conheci a Ana em 1992 em San Juan, Porto Rico. O Christiano, marido dela, era o cônsul do Brasil em Porto Rico e, quando fomos nos registrar no consulado, ele, muito gentilmente, sentou-se conosco para saber quem éramos, o que fazíamos, nossos filhos, etc. Christiano fez um ótimo trabalho em reunir os brasileiros que estavam morando ali e, pelas afinidades, e, principalmente, pela proximidade da idade dos filhos, formamos um grupo muito especial. 

Quando a conheci, fiquei muito impressionada. Porque ela era MESMO uma consulesa! E depois virou embaixatriz! Um porte, uma altivez, uma presença! Acho que "presença" é a palavra que melhor a define.  A Ana chegava e ocupava o espaço. Mesmo sem querer.  Chique, elegante, discreta. Mas com muita personalidade! 

A Ana era muito sagaz! Sem dizer uma palavra, os olhos percorriam tudo e todos. Um senso crítico apuradíssimo! Uma capacidade de síntese como poucos! Uma habilidade para decifrar como nunca vi. E os olhos... Que percorriam... Entendiam... Decifravam... Um humor daqueles bem ácidos, diretos, certeiros. Como eu gostava do humor dela! E ela não ria solto. Ria baixo, cortado. Ria quase sem rir. Mas ria. E muito! 

A  Ana tinha uma casa linda! LOTADA de objetos de todos os tamanhos, formatos e materiais possíveis. Objetos lindos! Verdadeiras relíquias acumuladas ao longo do tempo, e vindos de todos os  países em que moraram. Nem sei mais listar quantos ou quais, mas foram muitos! Cada um dos quatro filhos nasceu em um país diferente. E ela mantinha todas essas lembranças e obras de arte de todos os tipos. Era um prazer admirá-los!

A Ana costurava. Fazia aulas de costura em Porto Rico com a professora mais famosa da ilha: Begônia. Ela e a Christina, outra brasileira do nosso grupo que também tinha o maior talento. Fiz aulas também com a mesma professora. Resultado: fracasso total. Definitivamente, não dou pra coisa. Mas a Ana e a Christina... Como costuravam bem!

A Ana também cozinhava. E como!! Pratos maravilhosos! Uma organização que dava até raiva! Lembro, em especial,  um jantar de 24 de dezembro, dia do aniversário do Christiano, que passamos com eles. Uma ceia MARAVILHOSA!!! Nada parecia dar trabalho, tudo parecia simples, fácil, normal. Lembro-me também de uma outra vez em que fui ao Rio e almocei com eles. O almoço todo pensado, calculado, todo arrumado num carrinho de chá que era só levar para a mesa. Era assim. Tudo perfeito como um relógio suíço!

Mas o mais típico da Ana eram as benditas bolas de Natal que ela passava o ANO TODO preparando! Ela forrava as bolas com retalhos e levava a cesta das bolas para onde ia! Sentava enquanto conversávamos...  E dá-lhe bolas! Falava e forrava! Centenas! 

De um número razoável de brasileiros em Porto Rico, acabamos formando um grupo menor. Menor em tamanho, mas ENORME em afeto e afinidades.  Chamamo-nos de AMIGUITAS! E amiguitas somos há exatos 30 anos! De Porto Rico, eu e a Carmen, ambas cariocas, viemos para São Paulo. Bel, paulista, foi pra Recife e depois voltou pra São Paulo. A minha xará, Maria Alice, foi pro Uruguai e depois voltou pra São Paulo. Christina foi pra Alemanha, pra França e hoje mora na Flórida. Fátima foi pra República Dominicana e hoje mora na Guiana. E a Ana foi pro Vietnã, pra Namíbia e depois voltou para o Rio de Janeiro. Mas NUNCA deixamos de nos falar, de nos procurar, e de estar juntas sempre que possível! E conseguimos muitas vezes! E  cada vez era uma festa! E muito prosecco! E muita bobagem! E muitas risadas! Uma vez, fomos a um restaurante aqui em São Paulo e fizemos tanto estardalhaço que os garçons nos olhavam a ponto de sentirmos vergonha! Eram assim os nosso encontros... Era assim a nossa vontade de estar juntas... Era assim que éramos as amiguitas... A foto abaixo retrata um dos nossos momentos juntas. Conseguimos reunir quase todas, faltando apenas a Fátima, que inclui na montagem para registrar todas nós! 




De tudo que a Ana tinha de especial, acho que o ouvir era o principal. Pelo menos pra mim. Quando eu precisava desabafar, ou de um conselho sobre algum assunto mais sério, era a ela que recorria. Isso porque, nesses casos, eu não precisava de alguém dizendo que tudo ia dar certo. Eu precisava mesmo era de alguém que ouvisse até o que eu não estava falando. Atentamente. E, sem meias palavras,  olhando bem dentro do meu olho, ela dizia tudo o que eu precisava ouvir. E nunca mais tocava no assunto! E precisei dela algumas vezes... Com tantas dúvidas... Tantas incertezas... E sempre tive dela o olhar firme e os ouvidos atentos. E por isso, entre tantas coisas, sou imensamente grata.

A  Ana nos deixou no dia 30 de outubro. Embora ela já não estivesse bem, a sua partida nos pegou desprevenidas. Porque é muito difícil pensar num mundo sem ela. Quase impossível pensarmos como amiguitas sem ela. Ela era o centro do nosso grupo. A nossa matriarca sábia, ponderada, ácida, generosa, atenta. Estamos sem chão... Um vazio doído... Uma vontade de voltar o tempo e estar mais vezes, ouvir mais, aprender mais... Dizer o quanto ela era querida, apreciada, reconhecida, admirada... 

E o meu carinho se estende infinito ao Christiano, Clara (minha querida, que tbm me ajudou num momento de transição muito especial!), Daniel (sempre tão carinhoso!), Camila (minha querida florida!), Renato (o caçulinha que se juntou à criançada!), Aninha, Lia, Petra, Vinicius...

A Ana SEMPRE dizia, em TODAS as vezes em que estávamos juntas: "O que temos é muito especial!" E era mesmo. E é mesmo! E sempre será!

Ana, que falta você vai fazer... Que falta... 



sábado, 29 de outubro de 2022

A política e o poder de perdoar.






Amanhã encerraremos o longo e triste período eleitoral para a escolha do presidente que governará o Brasil pelos próximos quatro anos.  

Longo, porque não se ateve aos três meses normalmente concedidos para as campanhas, mas que se mantém ativo e vigoroso desde a campanha de 2018. Verdade seja dita, o atual presidente NUNCA deixou de ser candidato. NUNCA assumiu a presidência e NUNCA governou para todos. Todo o exercício do seu mandato foi voltado única e exclusivamente para os seus apoiadores, excluindo, explicitamente, quem não o apoia.

Triste, porque presenciamos, nesses quatro anos, atos de barbárie indescritíveis e inimagináveis. O atual presidente promoveu, de todas as formas possíveis, o ódio em todas as suas possíveis facetas. Dividiu o país de forma quase irreversível. Armou a população de forma leviana e irresponsável. Atacou e menosprezou as instituições democráticas construídas com tanta luta. Impôs sigilos ao invés de promover a transparência. Levou 780 mil brasileiros à morte durante a pandemia da Covid-19 com toques de crueldade jamais vistos. Desmontou todas as políticas de preservação ambiental. Reduziu a Educação e a Cultura a patamares difíceis de serem galgados outra vez. Ignorou todas as ações de proteção a minorias. Entregou o orçamento ao Centrão. Atacou a imprensa de forma implacável. Promoveu o negacionismo. Trouxe  de volta doenças erradicadas. Usou a mentira como principal arma presidencial. Disseminou fake news como nem pensávamos possível. Agrediu países parceiros. Tornou o Brasil um país pária no mundo. Contaminou a laicidade do Estado, atiçando verdadeiras guerras santas. Cercou-se de ministros e conselheiros cínicos, oportunistas e ignorantes. Criou gabinetes paralelos. E expôs comportamentos e discursos indignos, baixos e vis. Em nosso nome, mas sem o nosso consentimento.

Amanhã, seja qual for o  resultado, encerraremos esse interminável cabo de guerra. Estamos todos cansados, exaustos, exauridos, combalidos.

Amanhã, um dos lados comemorará. Amanhã, o outro lado lamentará. O lado da civilidade, se ganhar, comemorará com profundo alívio e muita esperança. Se perder, será um lamento enlutado, dolorido, fundo e profundo. Já o lado da incivilidade, se ganhar, será estrondosa, espaçosa, alardeante. Se perder, será reativa, agressiva, violenta, armada, perigosa. 

Mas temos que tirar, desse horror que temos vivido, alguma lição. Temos que encontrar conforto. E, principalmente, temos que encontrar alguma maneira de reconciliação. Caso contrário, não sobreviveremos como nação soberana, unificada e compromissada.

E foi pensando nisso que busquei alguma inspiração que me ajudasse a  vislumbrar o caminho de retorno depois do resultado amanhã. Seja ele qual for.

E foi nessa busca que recorri a Hannah Arendt, uma das mais conceituadas filósofas políticas do século XX. Para ela, é a atividade política que diferencia o ser humano dos outros seres vivos,  pois é através de atos e palavras que os homens se revelam. Nessa visão, a política é baseada na liberdade e espontaneidade, revelando, assim, as incoerências a pluralidade dos homens. E é aqui que entra o seu conceito de "perdão". Para Arendt, o  "agir" é imprescindível e a imprevisibilidade da ação não deveria ser um empecilho. O "perdão" desempenharia o papel de "remédio" para as ações que não podem ser desfeitas, mas podem, sim, ser perdoadas.  O perdão libertaria e impulsionaria a capacidade de agir, mesmo considerando toda a imensa área de incertezas das eventuais  consequências. 

O oposto do perdão é a vingança, a reação natural e previsível. O correlato do perdão é a punição, que, como o perdão, põe fim a algo que poderia vir a prosseguir indefinidamente. A pergunta que se põe, então  é: conseguimos perdoar qualquer tipo de ação para a qual não há punição? 

Os atos do presidente, dos seus ministros, de governadores, prefeitos, vereadores, deputados, senadores,  dos administradores e funcionários públicos e  dos demais colaboradores podem ser punidos.

Mas e nós? Como sociedade? Como prosseguiremos, depois de amanhã, com os nossos atos de oposição uns aos outros, para o quais não há punição? Não podemos ser punidos por escolher um ou outro caminho. Não podemos ser punidos por defender ideologias antagônicas, inconciliáveis. Mas, no entanto, estamos, sim,  nos punindo metaforicamente pelo que defendemos. Implacáveis, irredutíveis, acusativos.

Por mais que tenhamos valores cristalizados e inegociáveis, se não dermos um passo  em direção ao perdão  ao que nos opomos tão veementemente, não nos reconciliaremos, não teremos como construir  o país que queremos e merecemos. Não colocaremos fim ao cabo de guerr.

Amanhã um dos lados sairá "vencedor". Espero, do fundo do meu coração, que seja o lado da civilidade. Esse lado será capaz de unir, acolher e, sim, perdoar o que parece  imperdoável. O outro lado, se ganhar, pelo seu histórico,  infelizmente, fortalecerá seus ressentimentos, seus ódios e sua exclusão.  




domingo, 18 de setembro de 2022

Carta às mulheres

 




São Paulo, 18 de setembro de 2022.


Queridas mulheres:

A história do mundo foi/é/tem sido contabilizada, quase que exclusivamente, sob a equivocada ótica do universo masculino. Força, lutas, conquistas, dominação, subjugo, vaidades, egolatria e sacralização peniana foram/são/têm sido os fios condutores que determinaram/determinam a jornada e feitos da humanidade.

Coube a nós, mulheres, no entanto, a missão mais nobre. Mais importante. Mais essencial. Somos nós, e não os homens, as responsáveis por gerar vidas. O escritor moçambicano Mia Couto, no seu livro "A confissão da leoa", diz, num dos trechos mais lindos da literatura, que "Todos sabemos, por exemplo, que o céu ainda não está acabado. São as mulheres que, desde milênios, vão tecendo esse infinito véu. Quando seus ventres se arredondam, uma porção de céu fica acrescentada. Ao inverso, quando perdem um filho, esse pedaço de firmamento volta a definhar".

Somos também nós, e não os homens, as responsáveis, por contar e preservar as memórias de mundo.  Cada mãe que nina o seu filho conta uma história de mundo. E lhe assegura que o mundo é bom. E que ele será sempre protegido. Cada mãe, avó, tia, prima, irmã, sobrinha, professora  que conta uma história, faz um afago, consola, enaltece, sorri largo e derrama carinho, conta mais histórias do mundo. Histórias belas, nobres, que fazem acreditar muito além do que se vê e se sente. Histórias que fazem ser possíveis outros mundos, outros destinos, outras e outras histórias. 

E somos também nós, e não os homens, que criamos e desenvolvemos a arte de fiar e tecer. Fios e bordados, reais e simbólicos, tão frágeis quanto potentes, teceram/tecem/têm tecido as tradições, memórias, desejos e fantasias. Verdadeiros guardiões das histórias construídas, mal construídas e desconstruídas.

E é justamente em nome da nossa missão insubstituível que convoco todas vocês, em união cúmplice e solidária, para, juntas, interferirmos na desordem caótica em que estamos todos mergulhadas e reestabelecermos a ordem funcional que garanta a preservação das vidas. Gerar e preservar. Preservar e contar. Essa é a nossa natureza. Essa é a nossa essência. 

Há quatro anos,  vivemos o invivível. Temos sido silenciadas, maltratadas, mutiladas, estupradas, mortas. Nossos filhos estão  diariamente em risco. Feliz é a mãe que, aliviada, coloca o seu filho para dormir em casa todas as noites. Muitas, infelizmente, não têm a mesma sorte e choram os seus filhos nos seus caixões. Vidas e vidas interrompidas por balas aleatórias deliberadamente cedidas a quem extermina quando deveria proteger.

Há quatro anos, os  nossos filhos estão cada vez mais orfãos da pátria acolhedora, gentil, cuidadora. Não há vozes ternas; há apenas vozes raivosas. Não há caminhos de luz; há apenas trevas. Não há futuro esperançoso; há apenas o presente incerto. Não há liberdade; há apenas o poder impostor. Não há a alegria e descontração; há apenas a tristeza que nem sabemos  bem por quem carregamos. Não há o futuro de terra nossa que nos permita continuar a respirar; há apenas cinzas e o fogo que consome e sufoca. Não há país para todos; há apenas para poucos, muito poucos. Não há conhecimento; há apenas a ignorância galopante. Não há cultura, arte, beleza, sublimação; há  apenas  a supressão de tudo o que seja criativo e transformador. Não há o direito das  minorias; há apenas o preconceito e perseguição. Não há a fé espontânea, que vem de dentro e procura ser sempre melhor; há apenas a nojenta manipulação dos ingênuos. Não há preocupação com o sustento; há apenas a fome que dói, que imobiliza, que mata. Não há valorização da vida; há apenas o culto satânico à morte. 

Há quatro anos, encolhemos. Minguamos. De vergonha, de horror, de impotência. Assoladas por estratégias de crueldades nunca antes pensadas possíveis, paralisamos. Incrédulas, silenciamos. Deixamos de contar a história, porque nos recusamos a perpetuar a história tão indigna, tão baixa; tão contrária.

Mas essa infeliz história pode ser revertida. Somos 52,65% de eleitoras. E,  em 2 de outubro, podemos, não contar, mas FAZER HISTÓRIA! Não assistir, mas protagonizar.  Podemos dar o basta. E determinar, ao toque de uma tecla, a nossa escolha pela vida. 

Somos mulheres. De fragilidade forte, sensível, atenta, intuitiva. É absolutamente contrário à nossa natureza aceitar o inaceitável. Conviver com a  violência, com a boçalidade, com a falta de liberdade, com a perda da doçura, com o medo, com os lutos infinitos, com a fé que fere o bem e o bom, com a injustiça, com a dor de cada uma  que se torna a  dor de todas é um verdadeiro estupro ao nosso SER MULHER. 

Somos mulheres. E repudiamos tudo e todos que nos afastam do sorriso orgulhoso, do coração transbordante de orgulho, da compreensão maior do mundo, da capacidade de cuidar, proteger, viver e deixar viver. Não precisamos dos discursos e narrativas do oposto. Devemos ouvir os nossos corações. Sem medo de errar, DEVEMOS seguir a nossa intuição.

Somos 52,65%. Vamos juntas. Vamos confiantes. Vamos convictas. O que está em jogo é o mais básico: A SOBREVIVÊNCIA. E ninguém melhor do que nós, as que geramos vidas, para entender o valor de ver essa vida germinar e florescer. 

Peço a cada um de vocês que reflita. Muito. E sem amarras. Sem  ideias ultrapassadas. Com a clareza do ver mais profundo do que a superfície rasa que ilude, confunde. Pensem nas outras mulheres que fazem parte das suas vidas. Pensem que voz vocês querem dar a elas. Pensem nas histórias que elas terão orgulho em contar. Pensem no mundo que podemos, agora,  fazer ser um pouquinho melhor. 

As mulheres da minha vida estão aqui: minhas irmãs, sobrinhas, sobrinhas-netas. E, principalmente, a minha filha - aranha, que já tem tecido lindas histórias de mundo!

Termino com essa imagem e com um provérbio africano: "Quando as teias de aranha se juntam, elas podem amarrar um leão"! 

Obrigada a todas!

Com carinho, imensa admiração e irrestrita cumplicidade,

Maria Alice




quinta-feira, 8 de setembro de 2022

"God save our gracious Queen."

 



Quem me conhece sabe o quanto sou admiradora da Rainha Elizabeth! Eu costumava dizer que quando o mundo - e  também  o meu mundo particular -  parecia caótico e sem sentido, ter certeza da presença dela era a ordenação necessária para que tudo voltasse ao normal possível e suportável.

Her Majesty. Setenta anos de reinado. A primeira coroação transmitida pela TV. Testemunhou as grandes transformações do seu tempo. Viveu os períodos das maiores mudanças. Elo entre o passado glorioso e o presente incerto. 

Her Majesty. Digna. Altiva. Elegante. Discreta. Gentil. Alegre. Admirada. Respeitada. Reverenciada.  

E acho que é por isso tudo que sou súdita leal e assumida. Preciso de mitos que elaborem o que a lógica nem sempre explica. Preciso de mitos que assegurem que tudo tem o seu momento, o seu lugar, a sua linguagem. Não é essa, afinal, a função dos mitos?   

A Rainha Elizabeth personificou os protocolos e os cerimoniais. Com eles, o apaziguamento de conflitos e o despojamento dos interesses e vaidades. Nos rituais rígidos e metódicos, a estabilidade, a segurança, a normalidade. Na sua majestade, a capacidade de adaptar-se aos tempos sem fraquejar e sem deixar de cumprir o seu papel.

O mundo perde hoje a sua Rainha absoluta e insubstituível. Uma Era se encerra. Gloriosa, vitoriosa, digna. Em tempos tão difíceis e com tantas indignidades e falta de grandeza, o exemplo da Rainha fará muita falta.  Uma nova Era  se inicia. Diferente, incerta, frágil.

E eu? Particularmente? Perco Mi Reina, My Queen. E sinto uma certa vertigem. Medo de pisar no chão cambaleante, daqui por diante, e tatear a  sua não-presença para me garantir que tudo segue bem no  mundo.   

Encerro com um dos seus maiores ensinamentos: "It has been women who have breathed gentleness and care into the harsh progress of mankind." .





domingo, 21 de agosto de 2022

Pundonor. Pontos de honras.

 

Pundonor, em espanhol,  quer dizer ponto de honra, aquilo do que não se pode abrir mão. 

E é justamente a defesa dessa honra que serve de base para o monólogo dirigido por Bernardo Bibancos, um jovem diretor de apenas 25 anos, mas com um olhar sensível, cuidadoso e muito profissional; e protagonizado por Lu Grimaldi,  que dispensa apresentação pela sua carreira coroada por grandes personagens! 

O texto é da dramaturga argentina Andrea Garrote, o que lhe rendeu vários prêmios, inclusive o de "melhor monólogo da década"!

Monólogos não são fáceis dentro da dramaturgia. A falta de interação entre personagens, a ausência de falares diferentes e de particularidades individuais podem tornar-se cansativas para o público e muito desgastante para o ator. O monólogo EXIGE um texto primoroso, impecável, interessante, coeso e de grande poder de identificação. Ao mesmo tempo, o monólogo EXIGE cenários assertivos, iluminação cuidadosa e um ator/uma atriz de ENORME talento de corpo e voz. Sem essa combinação perfeita, o monólogo torna-se um desafio. 

Tenho, como referência, dois monólogos a que assisti e me impactaram muito. O primeiro, na década de 70 e eu, ainda adolescente, foi "Apareceu a Margarida", numa interpretação inesquecível de Marilia Pera! Arrebatadora! Desconcertante! O texto falava sobre uma professora que, em plena sala de aula, fazia de seus alunos  interlocutores para mostrar a sua visão de mundo, discutir autoritarismo, poder e sexo. Aos poucos, na sua empolgação e abstração, a professora subia na mesa, gritava, ria histericamente, chorava, uma mistura incrível de emoções! 

O segundo foi "Palavra de Rainha", com Lu Grimaldi numa apresentação magistral que, ainda que única atriz, dividia o palco com um dos cenários mais sensacionais que já vi! O enorme vestido preto de D.Maria cobria cada centímetro e movia-se, como ondas, na mente tortuosa da Rainha Louca. Tenho uma afeição especial por esse monólogo, pois o meu filho teve a honra de participar desse projeto como assistente de direção da diretora Mika Lins. Lu Grimaldi encarnou D.Maria de forma tão absurda que, depois disso, só consigo vê-la como "majestade"! A peça fala sobre a "loucura" da rainha atormentada pela morte de seus filhos e pelo medo do desconhecido. O que eram fatos racionais e lógicos, passam a ser sensações e intuições. Uma peça belíssima que traz toda a tragédia da mulher, mãe e soberana numa mente fragilizada, amedrontada e melancólica. 

Pundonor reúne, num certo sentido, as trajetórias e vozes das duas mulheres que a antecederam. Na pele de Claudia, professora de sociologia especializada em Michel Foucault, o conceito de loucura, opressão e dominação são aprofundados e atualizados. Claudia volta à sala de aula após um afastamento imposto. Ainda bastante abalada pelos acontecimentos e por  todo o julgamento, acusações e rótulos impostos, ela usa a teoria de Foucault para externar a sua visão da modernidade e do papel que a sociedade ainda destina à mulher. Loucura e descontrole sempre foram atribuídos às mulheres ao longo da História, quando não correspondiam ao comportamento esperado, ou melhor, definido para elas. Ao confrontar os próprios alunos quanto às suas atitudes, principalmente  quanto ao uso das redes sociais, Claudia questiona o que pode ser considerado normal ou anormal, e o quanto esse conceito muda de acordo com o tempo e os padrões sociais. 




A personagem parece ter sido escrita especialmente para a Lu Grimaldi! Que controle de palco! Que controle de corpo! Que controle de voz! Que controle de olhar! A Lu consegue, com maestria, mesclar a densidade do tema com a leveza e o humor que sustentam o texto. O nervosismo de estar sendo julgada é equilibrado com o "foda-se" e controle de seus pensamentos e convicções. A loucura é uma linha tênue... E tão fácil de ser diagnosticada! E tão difícil de ser compreendida e acolhida... 




Uma das coisas legais dessa peça é o espaço escolhido! Não é teatro. É um anfiteatro dentro da Unisa, Assim, a criação do ambiente de sala de aula é criado de forma natural e não cenográfica!

O primoroso trabalho de iluminação também merece aplausos!  Algumas poucas luminárias espalhadas pela "sala de aula" servem de âncora e de apoio para Claudia. Em uma das cenas, todas são deitadas no chão... Que efeito!

E destaco , para finalizar, a frase do  texto MUITO apropriada para os tempos atuais: "Há muitas pessoas sem inteligência, mas que têm a sua ignorância muito bem organizada."






sexta-feira, 3 de junho de 2022

"Aujourd'hui, maman est morte".

 




 

"Aujourd'hui, maman est morte. Ou peut-être hier, je ne sais pas." (L'Étranger, Albert Camus - 1942)

Li "L'Étranger de Camus, pela primeira vez,  quando estudava na Aliança Francesa de Botafogo, no Rio. Eu tinha 16 anos. De lá pra cá, reli esse livro inúmeras vezes, e, a cada leitura, essa abertura sempre me fascinava!   E acredito,  ainda que inconscientemente, também sempre assustava. 

Até que aconteceu comigo... E a abertura da ficção tornou-se real: a mãe que morreu é a MINHA!! E essa verdade absoluta, definitiva e irreversível muda tudo, absolutamente tudo! Ninguém está preparado para perder a mãe... Ninguém está preparado para deixar de ser filho/a... Absorver essa nova condição requer uma nova estruturação. Muito difícil conceber o mundo, o MEU mundo, sem a presença da minha mãe...

A orfandade materna é o fantasma que ronda, amedronta e gera  insegurança. E não importa a idade! Não há símbolo mais forte, mais confortador e mais consolador do que a presença da MÃE! A mãe valida a nossa existência, reforça a nossa identidade e nos garante o porto seguro num mundo tantas vezes hostil.  O amor de mãe é o paradoxo entre o deixar ir e reter, entre deixar crescer e manter criança, entre deixar ser e querer que seja. E talvez seja por isso, por matar a mãe logo na abertura,  que o livro de Camus seja tão inquietante!

Minha mãe chamava-se Ieda. Nasceu em 13 de junho de 1926, no Rio de Janeiro. Tinha 8 irmãos, dos quais só um ainda está vivo.  Minha mãe era linda! Linda mesmo! Além de extremamente elegante! Elegante mesmo! Em todos os sentidos! Tinha porte, tinha presença. Além disso, apesar de muito decidida e determinada, era gentil e atenciosa com todos! Todos gostavam da minha mãe! Sério! Não conheço quem quer que seja que não gostasse dela! Sempre tinha uma palavra gentil, uma preocupação verdadeira, uma vontade de ajudar, de cuidar, de não deixar faltar. Crianças a adoravam, idosos a adoravam. Quando ela passava na rua, os porteiros dos prédios vizinhos a cumprimentavam. Tinha jeito com todos!

Foi uma mãe disciplinadora! Nossa casa girava em torno de horários! Querem um exemplo? Não podíamos sair pra brincar na rua antes das 16:00. Nossos amigos, que não tinham essa restrição, já estavam brincando, enquanto a gente implorava pro relógio andar mais rápido! Não por acaso, o relógio antigo do qual ela tinha tanto orgulho é o centro da sua parede, cercado por seus pratos antigos azuis. E ela dava corda nesse relógio como um ritual religioso!  

Cuidava dos nossos estudos de perto! Quando crianças, não nos deixava usar borracha, porque caderno "apagado" mostra falta de capricho! E a gente estudava inglês, e francês, e pintura em porcelana, e pintura em tecido.

Era a mãe voluntária para as excursões. E a velha Kombi ia sempre cheia de crianças! Na adolescência, nossa casa era aberta a todos os nossos amigos! Casa cheia! Passávamos as tardes e noites jogando, rindo, jogando, rindo! E ela recebia a todos com um enorme sorriso! Nossos amigos adoravam a minha mãe! Ela levava todos pra passar o dia em Paquetá, E recebia nossas amigas que moravam fora do Rio nas férias! Até supositório em amigas com cólica ela colocava! 

As histórias são inúmeras! E todos os que conheceram a minha mãe vão se lembrar do que vou contar!

1) Minha mãe era devota de Santo Antônio. Devota mesmo! Ia todas às terças-feiras à Igreja de Santo Antônio com a lista de moças solteiras. Sim! Porque, para a minha mãe, não havia vida possível fora do casamento! Alguém sem namorado? Ia pra lista! Meu pai brincava que o coitado do Santo, quando via a minha mãe chegar, se escondia!!  E as  brincadeiras e simpatias pro Santo casamenteiro?  

2) Minha mãe também era devota de  Santa Rita dos Impossíveis. Mas essa devoção já era mais restrita ao âmbito familiar. A medalhinha da Santa nos acompanhava nos momentos importantes das nossas vidas.

3) Minha mãe ia todos os  sábados à tarde fazer unha e cabelo no Erni, o cabelereiro do outro lado da rua. Todos os sábados! Quando eu era adolescente, eu imagina que ser adulta era isso! E me via, no futuro, passando as tardes fazendo o mesmo. Não, não fiz! Entendi que isso era dela. Não era meu.

4) Minha mãe adorava ler. Lia muito! E marcava o seus livros com o seu nome antes de emprestar para as amigas. Havia essa troca de livros, principalmente com a sogra da Andréa. Sempre tivemos livros em casa. Coleções inteiras: Monteiro Lobato, Machado de Assis, Croni, Coleção menina e Moça, Malba Tahan, etc. Todas as coleções  eram encadernadas. E tínhamos que ler. Nas férias, então, era obrigatório! Hoje, essas coleções preciosas estão na fazenda da minha irmã Beth.

5) Minha mãe adorava esportes! Acompanhava todos os campeonatos de vôlei e de tênis! Se a gente quisesse saber qualquer horário ou resultado, era só ligar pra ela. E tanto ela quanto o meu pai despertaram o nosso interesse. Todos nós jogamos vôlei. E todos nós acompanhamos esportes.

6) Minha mãe era crocheteira de mão cheia! Estava  SEMPRE fazendo alguma coisa em crochê. Sempre! E fazia enxovalzinho pra bebês. E fazia bicos para toalhas de mesa xadrez. Todos nós temos, até os netos!

7) Minha mãe , quando algum namorado terminava conosco, dizia horrores dele! Mas quando era a gente que terminava   com algum namorado, ele era um coitado e a gente não sabia do que estava abrindo mão!

8) Minha mãe adorava ficar em casa. Detestava ficar fora de casa! Quantas vezes ela literalmente fugia! Acreditam?  Quando ia pra casa da Beth, esperava ela sair pra levar as crianças pra escola e corria pra rodoviária, sem avisar nada, e voltava pra casa. Quando eu mudei pra Buenos Aires, foi conosco pra me ajudar. Na véspera de voltar pro Brasil, ela dormiu sentada no sofá, já vestida e com a mala ao lado. Juro! 

9) Minha mãe adorava jogar buraco. Sábados à noite eram sagrados! E memoráveis! Mas DETESTAVA perder! E a culpa era SEMPRE do parceiro! Ela nem disfarçava o desagrado! Era muito tenso ser parceiro dela!

10) Minha mãe tinha coleção de pratos antigos azuis, de santos barrocos, de lladró, e das benditas galinhas! Essas galinhas eram mantegueiras antigas. Ela tinha várias, de várias cores. Só ela gostava dessas galinhas. Entre nós, era a brincadeira "quem vai herdá-las"? 

11) Minha mãe teve 11 netos e 9 bisnetos. Conheceu todos. Até o menorzinho,  Leonardo, que nasceu em janeiro deste ano nos EUA, ela conheceu. 

12) Minha mãe era louca pelos netos! Deu o primeiro banho em todos. Conhecia os gostos, mimava, trazia pra passar as férias, ligava, participava ativamente. Sempre sabia onde cada um estava e o que estava fazendo. Os amigos dos netos eram muito bem-vindos! Ela agradava mesmo! Quando os netos completavam 1 aninho, ela dava de presente uma sessão de fotos no Preuss para mandar fazer o retrato de carinhas. E ela escolhia uma das fotos e colocou todas na parede ao lado da sua cama. A parede mais linda do mundo! seus 11 netos e os 2 bisnetos que chegaram a fazer as fotos. Todos os netos se lembram da história das criancinhas cujas pernas atrofiaram porque queriam colo e não caminhar!!! TRAUMA!!!

13) Minha mãe era ótima dona de casa! A melhor que conheci! Cozinhava bem e as arrumações de armários eram impecáveis. Gostava de mesa bem posta, gostava de louça bonita. Tinha obsessão por roupa de cama e banho. Sempre tinha novos e as toalhas de banho tinham que combinar com os lençóis! Tenho que admitir que herdei isso dela. Meus filhos que o digam! Mas era também metódica de uma forma enlouquecedora! Lavar roupa, por exemplo, TINHA que ser aos domingos. Chovesse ou fizesse sol. E as empregadas da casa não tinham autorização de mexer na máquina: ELA é quem apertava os botões dos programas de lavagem! 

14) Minha mãe e meu pai foram MUITO felizes! Eram companheiros e agregadores. Tanto a  família dela quando a família dele eram família MESMO! Crescemos entre tios e primos dos 2 lados! E eles também construíram amizades duradouras e laços que ainda hoje cultivamos através das gerações. Nem imagino o quanto foi difícil pra ela perdê-lo tão  cedo... Foram 39 longos anos sem ele... 





15) Minha mãe detestava remédios, detestava hospital, tinha pavor de UTI. E acho que foi por isso que ela se foi tão logo entrou na UTI... Não era o lugar dela. E ela não ficaria ali...

"Aujourd'hui, maman est morte. Ou peut-être hier, je ne sais pas".  Não foi hoje. Nem ontem. Foi na segunda-feira, dia 30. Mas tanto faz... 

Somos muitos: filhos, genros e nora, netos e bisnetos. E hoje sentimos um enorme vazio... 





Somos 5 filhos pra lá de sortudos!!! Tivemos a melhor mãe do mundo!! 




 E hoje, sem ela, seguimos nós 5! Com um monte de lembranças doces... Com um monte de gratidão... E com um monte de amor jamais esgotado!!