segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Tia Guanahyra.


Aniversário de 75 anos - Fraga, Beth, Ieda, Cristina, Guana e Maria Alice


Tia Guanahyra era a 7ª dos 10 filhos dos meus avós maternos e a caçula das meninas. Não me perguntem de onde tiraram esse nome! Nunca conheci ou ouvi falar de outra Guanahyra no mundo!

Tia Guana tinha apenas 14 anos quando os meus pais se casaram e, junto com mais 2 irmãos menores, veio morar com eles para aliviar um pouco a minha avó, já viúva e com dificuldades para criar tantos filhos. Nada mais natural do que tornar-se madrinha da minha irmã mais velha! Foi a  tia de maior referência na nossa infância!

Mudamos para Belo Horizonte assim que eu nasci. Como ela já namorava o tio Abelardo, voltou para a casa da minha avó até o casamento. Meu pai entrou com ela na igreja como se fosse uma filha. E acho, mesmo, que ela sempre foi mais filha do que irmã da minha mãe.

Casamento com tio Abelardo


Tio Abelardo foi um presente nas nossas vidas! Não havia tio mais amoroso e engraçado! E eu tive o privilégio de tê-lo para padrinho de batismo! Entre tantos sobrinhos que disputavam sua atenção, sentia-me especial. Com o tio Abelardo, ganhamos mais uma família. Seu Astor, o seu pai, era o avô que já não tínhamos. Gordo, bonachão e tão carinhoso! D.Ida, sua mãe, era a pessoa mais magra que eu conheci. E ele tinha um monte de irmãs, que tornaram-se amigas e tias emprestadas. A gente adorava ficar na casa da tia quando íamos de férias ao Rio! Sentíamos verdadeiramente em casa!

Tio Abelardo e tia Guana iam sempre a Belo Horizonte nos visitar. Morávamos na Rua Ramalhete, no bairro da Serra, imortalizada na canção de Tavito. Uma rua e seus ramalhetes. Era uma rua de apenas um quarteirão, mas com um monte de crianças! Quando eles chegavam, era uma festa! Tio Abelardo sempre inventava alguma coisa e a gente aproveitava! A maior das aventuras foi um dia que ele combinou um passeio até o pé das montanhas no final do bairro. Éramos 15 crianças ao todo, entre os meus irmãos e os nossos amigos da rua. Eu não me lembro ao certo quantos anos eu tinha, mas sei que era bem pequena, talvez cinco ou seis anos. Andamos, andamos, andamos e andamos mais e o dia foi passando, passando, e acabamos chegando, já à noite, em Nova Lima, um outro município!! Lembro vagamente desse dia... Mas lembro de estar exausta e o tio coordenar com os meninos a confecção de uma padiola para me transportarem. Lembro desse nome até hoje. Padiola. Fato é que fui carregada como uma princesa por quase todo o trajeto! Quando chegamos em Nova Lima, o tio ligou  da delegacia para a casa dos meus pais. A rua estava em polvorosa, as mães desesperadas, rezando novenas, os pais se organizando para  irem atrás de nós. Um rebuliço!  Achavam que algo muito sério tinha acontecido. Foram nos buscar tarde da noite em comitiva. O tio levou a maior espinafração da face da terra!! Dos pais, das mães e, principalmente, da tia!  Mas nós, as crianças, nunca fomos tão felizes! Essa aventura marcou tanto a nossa infância que era lembrada sistematicamente e citada, inclusive, em livro escrito sobre o bairro da Serra.

Tio Abelardo virou estrela quando eu tinha apenas 10 anos. Foi uma enorme comoção entre os nossos amigos da Rua Ramalhete. Uma perda que sinto até hoje...

Estávamos de mudança de volta para o Rio e a tia Guana viveu o seu luto conosco. Passava temporadas na nossa casa e minha mãe e meu pai davam-lhe o colo que ela precisava.

Tia Guana e tio Abelardo, após algumas tentativas frustradas, tiveram a sua única filha: Márcia. Meu irmão era o seu padrinho. Marcinha era um ano mais nova que a Andréa e tinha a maior coleção de bonecas que se possa imaginar! Eu amava passar os dias na casa da tia brincando com as bonecas da Marcinha! Marcinha era gordinha, bem gordinha, e a obesidade aumentava conforme ela crescia. Uma pena... Ela tinha o rosto lindo e era uma menina alegre e extremamente carinhosa!

Alguns anos depois, tia Guana conheceu um português: Fraga. Casaram-se. Tínhamos o pé atrás, uma certa desconfiança com aquele que veio ocupar o lugar do nosso tio querido. Essa resistência foi rapidamente desfeita, pois o Fraga nos adotou com o coração aberto! E ele fez a minha tia tão feliz! Um grande companheiro e um pai dedicado pra Marcinha! Um homem suave, inteligente, adaptável. Braços sempre abertos! E a tia Guana retomou a vida plena que ela tanto merecia.


Guana, Fraga e Marcinha


Tia Guana era alegre, alto astral, vaidosa, muito sociável,  intrometida, comprava brigas com o que acreditava. Sempre foi uma tia presente, amorosa e interessada. Adorava receber e cozinhava muito bem! Mas teve uma vida difícil e de muitas perdas.

Marcinha virou estrela em 2012,  por complicações que a obesidade lhe causou ao longo dos anos. Foi muito chocante, para todos nós, absorver a perda da nossa prima.

Fraga virou estrela em seguida. E a tia se viu sem o seu companheiro e sem a sua única filha. Muito difícil.

Sua saúde deteriorou. Passou a viver no seu mundinho e com poucas conexões com a realidade. Mas continuava alegre e leve! Adotou um cachorrinho de pelúcia como verdadeiro e o levava para todos os lugares. Quando descia no playground do prédio, a  criançada todo vinha ver o "cachorro".  E ela ficava feliz quando tratavam bem o seu cachorrinho...

Minha irmã mais velha ia vê-la  todos os dias. Chegava depois do trabalho e assistiam juntas a novela das 6. A tia ria, brigava com os vilões, se metia nos diálogos. No seu mundinho à parte... Meu primo William também ia sempre visitá-la e minha prima Dunga almoçava com ela toda semana.

Ontem à noite, em pleno domingo de carnaval, tia Guanahyra virou estrela. Quando minhas irmãs chegaram, ela já tinha partido.

Sensação estranha... Tristeza por perder a nossa tia tão querida... Alívio por ela ter partido sem dor. E uma felicidade doce por ela ir ao encontro dos amores de sua vida.

Que Marcinha, tio Abelardo e Fraga a recebam com amor e conforto.

E que o céu se prepare pois, com esse nome e essa personalidade, vai causar!!

sábado, 27 de janeiro de 2018

Lady Cookie.




Essa é a Cookie. Lady Cookie. Ela foi meu (????) presente de Dia das Mães em 1999. Morávamos no Rio nessa época e eu tinha vindo a São Paulo resolver alguns problemas da nossa casa aqui. Cheguei tarde e exausta de volta ao Rio e encontrei o meu quarto trancado. Sem pensar muito, fui dormir no quarto da Marina e lembro vagamente de ouvir um chorinho, mas nem de longe podia supor que fosse na minha casa! No dia seguinte, ao acordar, ganhei essa figurinha de presente que, claro, tinha passado a noite trancada no meu banheiro para que não a visse! Era uma filhotinha linda! E tão pequenininha perto do Trovão, o outro labrador preto que já tínhamos.

A Cookie apresentou um sangramento logo nos primeiros dias e nunca soubemos ao certo  o que foi. De cio precoce a infecção bacteriana, essa cachorrinha deu trabalho! Eram 2 idas diárias ao veterinário para injeções e contagem hormonal. O resto do dia, colo. Foi assim que conheci vários veterinários no Rio, clínicas de ultrassonografia veterinária, injeções, antibióticos e etc. E a Cookie no colo.

Quando ficou boa, pode, finalmente, aproveitar o espaço da casa e, principalmente, a companhia do Trovão, de quem se tornou sombra. Até ele se tornar sombra dela! Ela fazia o que queria dele! Comia a sua comida, deitava no seu tapetinho, bebia a sua água. Era a rainha absoluta! Fazia as artes e corria com cara de santa pra não ser pega. Sobrava sempre pra ele, bobalhão, que não tinha malícia alguma e apenas nos olhava com a sua cara tão típica de desamparado.

A Cookie era mesmo uma lady! Deitava-se languidamente no jardim, sempre com as patinhas dianteiras cruzadas. Gostava de mergulhos na piscina de madrugada. Comia com elegância - a comida do Trovão! Mas não gostava de banho. Quando eu chegava com a toalha e o shampoo, o Trovão corria na minha direção. E ela corria na direção oposta!

Quando vendemos a casa, foram os três - nessa altura já tínhamos também a Mel, outra labradora chocolate - para o sítio do Fernando em Minas. E lá viraram cachorros de roça. Trovão morreu. Mel morreu. E Lady Cookie viveu longos quase 16 anos, embora já muito debilitada nos últimos anos. 

Nossa Cookinha se foi em 27 de janeiro de 2015, encerrando a era Trovycooksmel,  como os meus filhos chamavam o trio. 

Hoje, ao lembrar os três anos de sua partida, encho-me de ternas lembranças, de amor e agradecimento pelo tanto que ela enriqueceu Daniel e Marina, pelo tanto que eles aprenderam sobre doação e carinho e pelo tanto que recebemos - todos!

E penso em uma constelação de 3 estrelinhas piscando juntas e felizes! Com Lady Cookie, obviamente, dando todas as ordens! 

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

São Paulo. 464 anos de tantos avessos...

Nasci no Rio, passei a minha infância em Belo Horizonte, minha adolescência de volta ao Rio e minha vida adulta em São Paulo. Sou a pessoa mais sortuda do mundo por ter vivido o melhor dos mundos nesses mundos!

São Paulo tem sido a minha casa há exatos 40 anos! E meu deu/tem dado oportunidades e felicidades. Aqui me preparei acadêmica e profissionalmente. Fiz amigos tão queridos. Criei a minha linda família. Como não amar a cidade que me deu o melhor e mais precioso?

Ninguém - nem mesmo o  mais paulistano dos paulistanos, conseguiu  definir São Paulo tão bem como Caetano Veloso!  Porque São Paulo é, sim, a cidade dos avessos. É o colorido no cinza. O arco-íris na garoa. O silêncio reconfortante no barulho ensurdecedor. O familiar no  desconhecido. O aconchego na adversidade. A humildade na ostentação. O generoso no egoísmo. A organização precisa no mais absoluto caos. A civilidade na barbárie. A vida que pulsa na desesperança de vida.

E é assim, nesses e pelos avessos, que a gente descobre, por querer ou sem querer, outras formas de beleza.

E a gente ama. Aprende a amar.  Escolhe amar. Sem querer. Ou por  querer. Até mesmo cinzamente. E tão lindamente. Talvez até mesmo por isso. Ou apesar disso. E por todas as outras tantas coisas que acontecem nos corações.

Eu, pelo mais puro e profundo querer, amo São Paulo!!






sábado, 13 de janeiro de 2018

Eu hoje acordei sessenta!






Hoje acordei sessenta. Eufemismo para sexagenária. SEXAGENÁRIA!!! S.E.X.A.G.E.N.Á.R.I.A. 

Ontem, ainda ontem, apenas ontem, tinha cinquentas. E anteontem, quarentas. E um pouco antes, trintas. Há uns diazinhos, vintes. E antes, era adolescente. Bastava olhar um pouquinho pra trás,  e era criança. Nasci.   Mas foi logo, já, então, nos ponteiros tangíveis do tempo na palma da minha mão.

Não vivo, cresço,envelheço dentro desse tempo  que corre desenfreado, incontrolável e indomável. O meu tempo tem outra contagem. Desconheço esses  segundos que devoram minutos que devoram horas que devoram dias que devoram semanas que devoram meses que devoram anos que devoram décadas que devoram seis décadas. O meu tempo é outro. É tempo iô-iô. Flexível, estica, encolhe, pausa, serena, apressa apenas o necessário, acolhe e dá chão.  Chão fincado e chão alado. Chão de pedra e chão de estrelas. 

O meu tempo é soneto. Tem quartetos e tercetos. E muitos versos decassílabos. Nessa métrica, sessenta é tanto e é tão pouco! Sessenta é tantas possibilidades! 

Sessenta é número inteiro. Indivisível. Tudo que sou, fui,  li, vivi, ouvi, senti, ri, chorei, conheci, amei. Todos os sóis, todas as luas. Todos as pessoas. Todos os Pessoas. E Chico. 

Sessenta é ciclo zodiacal chinês: 12 animais com 5 variações. Completar sessenta é completar o ciclo com sabedoria acumulada e começar um novo ciclo com a excitação infantil que todo recomeço provoca. 

Sessenta é 4 x 15. É  ser irmã das minhas 3 irmãs e do meu irmão e agradecer os nossos filhos e os filhos dos nossos filhos. E saber a sorte de ter sido gerada pelo meu pai e pela minha mãe e fazer parte dessa grande família!

Sessenta é 2 x 30. É multiplicar infinitamente o meu amor infinito pelos meus dois amores maiores e melhores: Daniel e Marina.

Mas sessenta é, sobretudo, seis ciclos de dez! Seis décadas! De  tantas vivências... De tantas experiências... De tantos aprendizados... De tantas memórias cultivadas e cuidadas ...

Penso nas minhas décadas como linhas mágicas que se estendem num crescente de horizontes lilases. Ao final de cada década, a linha dá um nozinho invisível e se abre na próxima década. Esse nozinho não é para fechar ciclos, não. É apenas  para marcar transformações importantes. E para servir de ponte. Ponte que une todas as pessoas importantes da minha vida e costura as minhas memórias e afetos. A cada década, vejo o novo horizonte lilás brilhar mais e mais intenso. E mais e mais pessoas atravessam essa ponte comigo. Fisicamente. E também no coração.

Seis décadas. Seis nózinhos. Seis horizontes. Cada um(a)  com sua marca. Cada um(a) inesquecível. Cada um(a) um fragmento de mim. Dessa que fui me tornando e hoje sou. Até ser outra.




A primeira década me deu a melhor infância possível! E minhas primeiras experiências de amizade! Salve, Belo Horizonte! Salve, Rua Ramalhete!Salve, Serra!




A segunda década me deu a melhor adolescência possível! E meus primeiros amores e descobertas de mundo! Salve, General Glicério!Salve, Colégio de Aplicação! Salve, Sparta, Michigan!




A terceira década me deu a faculdade e minha profissão. E me deu o  casamento. E me deu, principalmente, Daniel e Marina, meus norte, sul, leste e oeste e qualquer referência e tudo de maior e mais maravilhoso e importante e essencial! Salve, USP! Salve, YES!  Salve, Luiz Fernando! E salve, infinitas vezes, Daniel e Marina!





A quarta década me deu o mais além, o mundo fora, a ponte que aproxima e acolhe. E me deu sotaque porteño e sotaque boríquo! Salve, Argentina! Salve, Porto Rico!




Na quinta década, fiquei loira!  Mudei de cidade e mudei de novo e conheci tantos lugares.E meus filhos cresceram... E trouxeram seus amigos. E tivemos tantas férias legais.   E aprendi tanto e tanto e tanto! Salve, Rio! Salve, São Paulo! Salve, Granja!  Salve, Juquehy! Salve, pequeno grande mundo!




A sexta década foi a mais importante profissionalmente. Habilidades, potências, excelências, adaptações, sustos, perdas, conhecimentos, avaliações, olhares, ajustes. Apoios e parcerias que fazem tudo valer a pena! Recomeços. Doídos. Inesperados. Confortadores. Recompensadores. Salve, In Place! Salve, educação!

Hoje aperto mais um nózinho. Bem apertadinho pra não deixar nada  e ninguém escapar. Olho a ponte atrás de mim e todas as pessoas que, para minha alegria, seguem juntas na minha travessia. São tantas e tão queridas.  E tão importantes e tão fundamentais.

Olho o novo horizonte piscando lilás.   E penso: vai ser bom... vai ser bom demais!!!







quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Atacama. Era uma vez... Era uma vez... O mundo.







Era uma vez um mundo. Um mundo vasto mundo. Vasto, mas cru. Igual. Plano. Monótono. Com cor e gosto de pó, pedra e barro. O mundo vasto mundo era cercado de ondulações. Quase montanhas. Todas também de pó, pedra e barro. Não era muito, mas era alguma coisa. Algum movimento diferente.

Acontece que esqueceram um pedaço de mundo depois das montanhas no fim do mundo. Ninguém se deu conta. Ninguém se lembrou. E o pedaço de mundo ficou lá esquecido, perdido, à parte do mundo vasto mundo.

O pedaço esquecido adormeceu alguns tempos, à espera de ser encontrado. Não foi. Mas não se importou. Pelo contrário, exaltou! Sentiu-se livre. E pensou em tudo o que podia fazer e que lhe seria proibido do lado de cá das montanhas do mundo vasto mundo.

E fez. No início, timidamente. Apenas para passar o tempo, já que tinha todos os tempos do mundo para si. Mas logo tomou gosto. E quanto mais gosto tomava, mais ousava. Começou com pequenas explosões e depressões. Achou divertido. Então cresceu montanhas gigantes que viam por cima das montanhas do fim do mundo do mundo vasto mundo. As montanhas cresceram até transbordar. E transbordaram formas e texturas que nem existiam. E inundaram vales e criaram outros vales. Alguns vales transbordados escorreram líquidos como nunca se tinha visto. E empoçaram salgados, descansando como espelhos de luz refletida dos céus.

Uma gota azul do céu, distraída com o que via lá embaixo, caiu, sem querer,  nessas águas. As águas se assustaram com aquela cor que não conheciam. Mas o azul tinha natureza desgarrada e logo multiplicou-se em mil gotas, e em dez mil gotas, e em um milhão de gotas. Cada gota soltou-se da outra, procurando outras águas. E cada gota encontrou  uma água e criou uma cor novinha, só para si. O pedaço esquecido do mundo, então, coloriu-se de todos os azuis e verdes e brancos e amarelos e rosas e vermelhos. As cores, enlouquecidas, subiram as montanhas e espalharam-se pelos vales. Não havia quem lhes desse freio. E eram tão brilhantes  e intensas que ofuscavam onde passavam!

Até o céu, desavisado, cegou com tanto colorido e se apagou em breu. Mas as cores, desassossegadas, salpicaram o céu de prateados cintilantes e acenderam bolas douradas que diziam a noite do dia.

E não teve mais fim. As formas e cores e montanhas e vales e depressões e azuis e verdes e amarelos e rosas e vermelhos e estrelas e todo o mais ganharam vida própria e não paravam de criar e inventar. Eram e em seguida não eram mais. E não davam nem tinham descanso. Ruidosos e mutantes, já não cabiam mais naquele pedaço esquecido além das montanhas do fim do mundo vasto mundo.

Descontrolados, invadiram o lado de cá. E ocuparam cada espaço, coloriram cada palmo. E o mundo fez-se outro. E tomou-se de formas e cores que não existiam. E jamais foi o mesmo! E tornou-se maior, grandioso, radioso. E já nem se sabia para onde olhar, por tanto que se tinha para ver!

E soube-se, então, embora sem se saber, que, assim e ali,  aquele pedaço esquecido além das montanhas era a nascente de toda a beleza do mundo vasto mundo. 


domingo, 31 de dezembro de 2017

2017 e o monstro debaixo da minha cama.









"Once there was a way...  To get back homeward... Once there was a way... To get back home... Sleep, pretty darling... Dot not cry... And I will sing a lullaby... Golden slumbers... Fill your eyes... Smiles await you when you rise... Sleep pretty darling... Do not cry... And I will sing a lullaby... (Golden Slumbers - The Beatles)


O monstro chegou aos poucos, quase sem alarde. Não percebi.  Naquelas noites,  as estrelas ainda brilhavam  e ofuscavam a noite. Ou então os  meus olhos é que conseguiam ver mais além da escuridão. Mas a verdade é que não vi o monstro chegar.

Ele se acomodou debaixo da minha cama. E se espalhou confortavelmente. Acho que gostou daquele espaço amplo e arejado, porque, no início, nem se fez notar. Deve ter sentido que nenhum outro monstro jamais esteve ali e aproveitou sua glória pioneira. Deve ser mesmo difícil disputar a sobrevivência com outros monstros. Esse reinou absoluto.

Por meses, manteve-se quieto e inofensivo. Quer dizer, inofensivo é modo de dizer. Preparou-se com estratégias de fazer inveja aos maiores generais da história.  Calculou cada movimento. Estudou-me, entendeu-me. E cresceu e engordou a sua monstruosidade.

Começou engolindo as minhas estrelas. Uma a uma, pouco a pouco. Minhas noites tornaram-se longas, escuras. Em seguida, comeu as beiradas das madrugadas. Meia-hora aqui, meia-hora ali, até noite e dia se confundirem. Depois, ainda não sei se por maldade ou apenas para agradar sua companheira desabrigada, trouxe a insônia. Quando dei por mim, ela já dormia na minha cama enquanto meus olhos, cansados e inchados convertiam-se em olheiras profundas e irreversíveis. O medo, percebendo a fragilidade, convidou-se sem convite. E tomou conta dos vazios da segurança e confiança. Abusado, vasculhou segredos, invadiu pensamentos, subverteu a ordem, encolheu-me. Acuou-me.

Foi então que  o ouvi, inconfundível:  o monstro debaixo da minha cama. Ruidoso, audível, ensurdecedor. Vencedor. E resolvi encará-lo. Com uma coragem escondida que ele não tinha conseguido levar - e eu nem sabia que ainda estava lá -  olhei-o fundo e profundo. E ele era horrível. Tinha uma cabeça enorme e um corpinho minguado. Seus olhos, esbugalhados, eram frios, gélidos, imóveis. Sua língua era comprida e mal cabia na sua boca enorme. Ele salivava. Uma gosma nojenta e muscosa que escorria pelo chão e deixava um cheiro fétido e purulento. Tive ânsia de vômito. Tremia dos pés a cabeça. Tive medo, muito medo daquele monstro horrível que fez da minha cama e da minha noite a sua morada.

Fechei os olhos bem forte e voltei pra minha cama. Não respirava. Meu coração batia forte e descompassado. Queria ardentemente uma luzinha, um brilhinho luminoso que me acalmasse. Mas o monstro tinha mesmo acabado com as minhas estrelas. E não me deixava sair dos seus domínios das trevas.

Desde então, convivemos - eu e o monstro. Tentamos conviver. Em acordo tácito não verbalizado, respeitamos os limites geográficos da minha cama. Ele debaixo, eu em cima.E também os limites dos tempos.  Ele à noite, eu de dia. Algumas vezes, nos cruzamos nesses limites temporais e espaciais. Ele me ameaça, ruge. Mas eu aprendi/tenho aprendido a enfrentá-lo. Maneira de dizer. Não enfrento, ignoro. Maneira de dizer. Não ignoro, tento dobrá-lo. É como se duas de mim se alternassem.  Uma, essa eu que conheço tão bem e que nasceu comigo. E essa outra, intrusa e desconhecida e de quem não gosto. Rejeito. Mas por quem tenho também uma enorme compaixão.

Até que fiz  progresso. Algumas noites, quando ele está mais desarmado e eu mais atenta, conseguimos até conversar. Tenho aprendido essa língua estranha e tão pouco acolhedora. E até que tenho me saído relativamente bem. Ele, por sua vez, tem recuado. Muito pouco, é verdade. Mas a cada passada pra trás, um mundo se abre diante de mim. Não o deixo  perceber. Faço que não vejo. Ele ainda acha que me domina. Melhor assim.

O maior dos aprendizados tem sido  conseguir ver o escuro. No escuro. Quando a gente consegue ver os contornos, tudo fica mais fácil. Quando a gente consegue enxergar o invisível, os olhos entendem. E o medo encolhe. E o entendimento encorpa, gigante. E a gente se fortalece. Gênio Drummond já sabia: Claro Enigma.

Claro Enigma é conseguir enxergar todas as luzinhas pirilampos que, ainda que imperceptíveis, nunca deixaram de me iluminar. Anjos. Tantos anjos. Anjos-filhos, anjos-irmãos, anjos-família, anjos-amigos.  Até anjos novos, recém chegados e cheios de energia! Anjos-luz  que brilharam  nas minhas noites compartilhadas com esse monstro terrível.  Anjos-guindastes que me obrigaram a levantar e seguir. Anjos-acolhedores que me ouviram, consolaram, ajudaram. De tantas formas. Anjos-guerreiros que travavam minhas batalhas enquanto eu, cansada, sucumbia. Anjos delicados. Anjos sensíveis, Anjos abençoados.

 O monstro bem que ainda tenta me imobilizar e prender em  2017. Deixar o tempo seguir o curso é abrir o umbral de seus domínio. É me perder. E me perderá! Virar, sobrevivente, 2017, é abraçar o meu Claro Enigma!

Que 2018  mingue monstros e  crie debaixos-de-camas leves, livres e criativos!

Desejo a todos estrelas abundantes!! Luzes de reconstrução. De enfrentamentos. De entendimentos. De enigmas claros e reluzentes.

Feliz 2018!!









sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Feminismo.






mulher. homem.luta. respeito. cólica. eu te amo. machismo.igualdade. orgasmo. ou não. discriminação. lingerie. me larga! fogão. misoginia. amamentação. eu posso. não pode. posso? seios. desejo. animal. animais. denúncia. surra. amor. desejo. mãe, quero! mãe, preciso! mãe, mãe, mãe! pênis. gostosa. reunião. reuniões. febre. vagina. vergonha. salário. perfume. supermercado. vestido de noiva. ou não. salto. prazer. competência. preconceito. estou tão cansada. tira a mão! batom. sexismo. cicatrizes. não me bata! vadia. puta. liberdade. você não entende dessas coisas. solidão. dieta. moda. direito.direitos. ou não. acorda, arruma o café, prepara as merendas, deixa o almoço pronto, leva pra escola, pega na tinturaria, lava a roupa, limpa a casa, ajuda na lição, prepara o jantar, limpa a cozinha, desmaia. sobreviver. estupro. um, dois, três, dezesseis. lua e estrelas. movimento. amor. tanto amor. a sra assina aqui, por favor? me ajudem! assédio. na rua, no trabalho, em casa, nas artes. menstruação. depilação. isonomia. ah, como eu queria... não quero! não quero! decote. bunda. mão na bunda. promoção. ou não. só podia ser mulher! espelho, espelho meu! aborto. meu corpo. shhhh... não tenha medo... movimento. em vão. silêncio. oportunidades. isso é roupa que se use? fêmea. suavidade. conhecimento. política. políticas. políticos. nojo. asco. náusea. me acompanhe, por favor. varizes. maternidade. vertigem. olheiras. preocupação. meritocracia. ou não. teste do sofá. filogenia. sucesso. humilhação. patriarcado. gênero. estupidez. submissão. cor de rosa. eu te levo. eu te ajudo. eu te acompanho. eu te entendo. eu te ouço. eu te apoio. celulite. superioridade. empatia. união. sororidade.  macheza. macho. virilidade. orgulho. tanto orgulho. com. muito. sem. sem tréguas. sem negociação. sem concessões.sem discussão. sem volta.  sem menos. só mais. e adiante. e tudo isso. tenho dito. o dito pelo não dito. mais pelo não dito. e pelo não feito. defeito. feminismo.