Uma cortina vermelho sangue e um morcego estampado. Esse é o convite para mergulharmos no mundo virado de cabeça pra baixo para onde Medea nos arrasta.
A primeira referência ao mito de Medea vem da Teogonia, a mais
antiga narrativa grega conhecida e que descreve a criação do mundo a partir do
caos primordial. Escrita por Hesíodo no séc VIII a.C., a Teogonia menciona
Medea de forma breve, porém significativa, pois, a partir de sua linhagem –
neta do Sol e sobrinha de Circe - seus poderes divinos e de feitiçaria já são
atestados.
Eurípedes, no séc V a.C, publica a tragédia Medeia, como a
conhecemos: uma mulher poderosa, tomada pelo ódio e desejo de vingança – ao
limite de matar seus próprios filhos – após ser abandonada por seu marido
Jasão.
Mas não é essa versão que o diretor Gabriel Villela escolhe para a sua Medea. Gabriel escolhe a versão do romano Séneca, escrita no séc I d.C, e que vai além da questão do amor ferido e foca na ira e crueldade desveladas. Nesse sentido, enquanto Euripedes prioriza a Medea desprezada, Séneca foca na Medea tomada pela raiva incontrolável. E, numa interpretação contemporânea sobre tantas formas de violência contra a mulher, Gabriel coloca em cena a mulher vítima em nudez e crueza sem atenuantes.
Com uma Medea de tamanha tragicidade e monstruosidade, o diretor, brilhantemente, opta por apresentá-la em três camadas distintas, mas complementares. Para isso, apresenta três atrizes ESPETACULARES! Rosana Stavis detém a maior parte das falas, e, por isso, torna-se a “guardiã” do “verbo”, sem dúvida, o maior protagonista da tragédia! Mariana Muniz incorpora à construção de Medea toda a potência corporal, que assusta pela dramaticidade e pela evolução da ira incontrolável personificada diante de nossos olhos. Para completar e fechar o ciclo virtuoso, Walderez de Barros, que, sentada e lendo o texto, traz ao palco não só as memórias da heroína, mas toda a memória teatral! E é justamente nessa comunhão das 3 facetas, que Medea cumpre o seu destino: Agora sou Medea!
Como sempre, o barroco e o lúdico do Gabriel surpreendem! O
cenário em forma de picadeiro, os adornos e os filhos assassinados pintados em
retalhos nos remetem a emoções e belezas! E, aqui, menciono também a declamação
dos versos de Chico Buarque na sua montagem de “Gota d’água”: “pra mim, basta
um dia, não mais que um dia, um meio dia...” Arrepiei! E reverenciei!
Preciso ainda destacar dois pontos que, pra mim, são fundamentais:
a presença do narrador e do coro! Amo quando as tragédias são iniciadas por um
narrador! E Claudio Fontana o faz de forma tão intensa, que a somos levados sem
escala para o centro da trama, os os remos dos argonautas. E, como toda boa
tragédia, o coro, que permanece no palco – nessa montagem, com máscaras por
toda a encenação. O interessante desse coro é que, tradicionalmente nas
tragédias, o coro tem, como uma de suas funções, aproximar-nos da dor do herói,
e fundamental para o desenvolvimento da catarse. Gabriel, no entanto, nos
apresenta um coro que, ao contrário, ajuda a construir o nosso horror diante de
Medea e sua transfiguração irada e cruel!
Em tempos tão absurdamente violentos para as mulheres, Medea, na visão de Gabriel Villela, se torna essencial e urgente!
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