sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Memórias de Carnaval.

"Eu tô só vendo, sabendo, sentindo, escutando e não posso falar... Tô me guardando pra quando o Carnaval chegar..." (Quando o Carnaval Chegar - Chico Buarque)





Adoro carnaval! Adoro a alegria vibrante, pulsante, contagiante! Adoro a criatividade, a ousadia, a transgressão, a subversão! Adoro as tantas manifestações soltas e loucas! Adoro as cores, texturas, sonoridades, sabores, odores! Adoro a mistura, a permeabilidade, a osmose! Adoro os espaços de ninguém e de todos, os tempos suspensos e esticados! Adoro a pausa permitida e permissiva!

Minhas memórias carnavalescas mais remotas são dos bailes infantis que minha tia Guanahyra, irmã da minha mãe, nos levava. Na época, morávamos em Belo Horizonte e passávamos as férias no Rio. A tia nos levava nas matinês de domingo, devidamente munidas dos confetes e serpentinas que tanto amávamos! Lembro-me, em especial, das nossas fantasias de havaiana, embora de olhos bem compridos para  a de melindrosa que nossa prima Marcinha usava. Aquela cigarrilha longa era tão chique! Deve ser por isso que melindrosa sempre foi a minha fantasia preferida! E demorei muitos anos até ter uma!

Os carnavais do início da minha adolescência foram na quadra da Vila Isabel. Minha tia Yara, outra irmã da minha mãe, tio Carlos e meus primos eram sócios ativos e grandes foliões! Todos com muito samba no pé! Minha tia não parava um minuto e, no auge da animação, rodopiava lindamente como uma baiana na avenida! Como aproveitamos aqueles bailes! Primeiras paqueras de carnaval, blocos de pareô, quantas lembranças boas! Foi ali, naquela quadra, que participei do primeiro ensaio de escola de samba da minha vida: "ó cirandeiro, ó cirandeiro ó, a pedra do teu anel brilha mais do que o sol" em 1972.

Em seguida vieram os dourados anos dourados. Ano após ano. Olhos compridos nos famosos bailes do Monte Líbano ali ao lado, mas firmes e fortes na comportada AABB. Quantos carnavais! Fantasias exclusivíssimas made by D.Algenir. Novas adesões dos amigos do Colégio de Aplicação a cada ano. Como nos divertíamos! Quantas vezes saímos dos bailes e fomos pra Av. Presidente Vargas pegar o final dos desfiles das escolas de samba! Andávamos, andávamos e a bendita entrada não chegava nunca! "E onde vamos fazer a curva? Lá na m...?" Quantos desfiles maravilhosos conseguimos assistir de penetras já à luz da manhã... Doces lembranças de uma adolescência inesquecível!

Minha mudança para São Paulo em 1978 mudou também os meus salões carnavalescos. D.Toninha e Sr. Lorival, amigos dos meus pais, tinham uma fazenda em Birigui, interior de São Paulo, coladinha em Araçatuba. E foi lá que passei as temporadas de muito sol, piscina e estrada de terra nos carnavais do início dos anos 80! Só havia um clube na cidade e todos iam aos mesmos bailes. Éramos quatro amigas no frisson dos preparativos, no troca troca interminável de roupas, nas táticas de paquera, nas confidências no day after, sempre com o lança-perfume que, graças a Deus, nunca faltava! As idas e vindas pela estrada de terra, as entradas sorrateiras pela porta dos fundos com o dia já adiantado e as sonecas preguiçosas nos colchões da piscina "pra não perder o bronzeado"! Bom demais!

Depois veio a Sapucaí. Solo sagrado! E palco do espetáculo mais lindo dessa Terra - e acredito que de todas as outras Terras! Fui a muitos desfiles na Sapucaí! Coração sempre batendo forte! Com emoção palpitante a cada entrada da minha Mangueira! Meu coração é verde e rosa! Com torcida também sempre fiel pra minha também Vila Isabel.   Com olhos embotados de coloridos deslumbrantes e ouvidos tomados por sambas inesquecíveis.  Quem já atravessou a Sapucaí atravessa um tipo de umbral onde magia e energia se misturam e impregnam para sempre e sempre mais! Não se sai incólume dessa experiência.

O tempo do carnaval é irreverente e caprichoso. E pula e brinca e se inventa. E acha na genética o seu jeito próprio de se fazer presente. E foi nesse tempo emprestado e herdado que o carnaval dos meus filhos se construiu/constrói. No tempo e na sedução de fantasiar-se, de tornar-se outro, fazer-se outro. Daniel é folião.  Mangueirense como eu. E bloquista convicto em ritos sagrados de produção. Marina, mais contida, revela-se no Sargento Pimenta. Foi minha companheira em um dos desfiles da Vila Isabel.  Mas aproveita a folia tanto quanto a calmaria. Tudo vale!

 E, afinal,  já não dizia o poeta que tudo vale a pena se a alma não é pequena? E que tamanho tem a alma inundada de tantos carnavais?






quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Februaris. A César o que é de César.

Um pouco de história para entender por que o mês de fevereiro tem só 28 dias...




O primeiro calendário romano tinha apenas 10 meses, sendo março o primeiro. Os meses de setembro, outubro, novembro e dezembro são, portanto, respectivamente,  referências à sua ordem -   7ª, 8ª, 9ª e 10ª - no calendário. 

Naquela época, os conhecimentos dos solstícios de verão e inverno e equinócios da primavera e do outono já eram muito desenvolvidos e precisos,  calculando cerca de 365 dias entre  dois eventos de cada tipo. 

Os romanos também achavam mais fácil seguir o calendário lunar, mas alteraram os ciclos para 30 e 31 dias,  deixando de fora do calendário cerca de 60 dias.

Numa Pompilius, ao se tornar rei de Roma, promoveu as primeiras mudanças no calendário. Primeiro, mudou todos os meses para números ímpar de dias, pois acreditava que números pares davam azar. Assim, os meses passaram a ter 29 ou 31 dias.  Além disso, criou 12 ciclos lunares ao invés de 10, acrescentando 2 meses a mais ao calendário: janeiro, com 29 dias e fevereiro, com 28 dias. Fevereiro, dedicado a Februa, rito de purificação, estaria isento do azar de ter número de dias pares.

Mas o calendário continuava impreciso e, comparado com o calendário solar, utilizado, por exemplo, pelos egípcios, estava em desacordo com as estações do ano.

Júlio César, ao assumir o poder, adotou o calendário solar de 365 dias e distribuiu os dias que restavam pelos meses, mantendo fevereiro com 29 dias.

Mas tem mais! Dedicaram o mês de julho a Júlio César e o mês de agosto a César Augusto. E assim criou-se um impasse, pois, afinal, os meses deveriam ter o mesmo número de dias para não indicar qualquer favorecimento a um ou outro. A solução foi tirar um dia de fevereiro, pois, afinal, já era mesmo um mês muito particular, e aumentar agosto para 31 dias.

E assim foi feito. E seguimos até hoje. E fevereiro mantém seus 28 dias, com exceção dos anos bissextos, onde ganha um dia a mais. 

Curiosidades... Meras curiosidades... 





terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Sobre misses. E as passarelas na Rua Ramalhete.

"Os estados brasileiros se apresentam... Nesta festa de alegria e esplendor ... Jovens misses seus estados representam... Seus costumes, seus encantos, seu valor... Em desfile, nossa terra, nossa gente... Pela glória do auriverde, em céu de anil... Sempre unidos... Leste, Oeste, Norte e Sul... na beleza das mulheres do Brasil..." 
(Canção das Misses)


Ontem foi o concurso de Miss Universo 2017. Pela primeira vez, a nossa representante foi negra. Belíssima! Mas, infelizmente, nem chegou a figurar entre as 9 finalistas. Venceu a representante da França, de beleza genérica e morna e já caída no esquecimento.O que importa?

A verdade é que esses concursos de beleza estão, a cada ano, mais anacrônicos e descabidos. Inúteis. E que em nada contribuem para qualquer impacto no conceito de beleza ou de multiculturalidade. Pelo contrário, chegam a ser patéticos. Jovens de belezas ajustadas e retocadas, sem emoção e de conteúdo medíocre e limitado. Ainda nos moldes do Pequeno Príncipe e da paz mundial.

Para as mulheres da minha geração, um imenso saudosismo  da época de ouro desses concursos! E que época! E  que ouro!Que maravilha era acompanhar e torcer! Maiôs Catalina. Trajes típicos. E os deslumbrantes vestidos de gala! Treinadas a mão-de-ferro pela inesquecível Maria Augusta da Socila. E o Maracanãzinho? Palco dos sonhos!



Esses concursos eram solenes, formais, nobres, cheios de glamour! Apresentadores e jurados vestiam-se com esmero, tinham honradez, altivez, deferência.

 Fomos referência de beleza na América Latina durante décadas. E produzimos misses de quilates inestimáveis! Misses dos pés a cabeça. Majestosas! Como jamais esquecer Martha Rocha? Adalgisa Colombo? Terezinha Morango? Ieda Maria Vargas? Pra mim, a mais bonita de todas! Martha Vasconcelos? As gêmeas Ana Cristina e Maria Elizabeth Ridzi? Vera Fischer?




Minha infância foi marcada por estes concursos. Grudada na TV. E nas capas da Manchete, Fatos e Fotos e O Cruzeiro.

Quantas vezes reproduzimos os concursos  nos paralelepípedos da Rua  Ramalhete em Belo Horizonte! Da TV para a rua da minha infância! Passarela querida do nosso imaginário feminino! Inventávamos trajes típicos e improvisávamos vestidos de gala para desfilar, empoderadas, diante da comissão julgadora formada por irmãos e amigos do sexo masculino! Gloriosas tardes!

De tantos desfiles naqueles anos, lembro de dois em particular e com imenso carinho. Ambos na minha casa. Desfilávamos na sala, ao som da  radiola que tocava músicas clássicas. Num deles, tia Nenem, minha tia-avó por parte do meu pai, fazia parte do juri, e, enquanto eu desfilava, ela, que era pianista clássica, ouvia a música e  não parava de me chamar; "Maria Alice, parece que estamos no céu!!". Fiquei com muita raiva, porque ela realmente atrapalhou o meu desfile.

A outra lembrança que guardo, saudosa, é do meu primo Carlinhos, já falecido, que calhou de estar lá numa dessas temporadas e foi o apresentador oficial do desfile. Ele adorava anunciar as medidas no desfile de maiô, frisando sempre: 'Busto: ausente". Claro, éramos todas meninas de 6 a 10 anos!! Mas ele anunciava sempre com a maior ênfase!

Esses concursos hoje são bregas e sem importância. Em sintonia com a superficialidade  e inutilidade do que define beleza. Num mundo onde estética ainda é determinante, mas que conflita com as belezas que realmente importam, tornaram-se sem sentido. Ainda bem!

Mas eu, ainda assim, por saudosismo teimoso ,  insisto. Ainda que seja para comprovar que duas polegadas, definitivamente, não fazem a menor diferença. Ou fazem TODA a diferença!





segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

La La Land... La La La...

"City of stars... Are you shining just for me?... City of stars... You never shined so brightly..."





La La Land é  como se costumava chamar Los Angeles, em especial o distrito de Hollywood, em referência à toda a mágica que  acontece ali. Título perfeito para esse filme irresistível, encantador e apaixonante! Toda a magia hollywoodiana está retratada nessa pequena obra-prima!

O musical é um  tributo calculado e merecido ao gênero! O enredo simples e ingênuo,  recheado de clichês, reflete esmero e atenção a detalhes  Nada é descuidado ou gratuito! A nostalgia é construída positivamente e não no saudosismo vão e engessado. Referências a clássicos como Casablanca, Juventude Transviada e Dançando na Chuva celebram a história do cinema, mas, ao mesmo tempo, servem como elo com o tempo presente.

O encantamento já se impõe na cena de abertura. Que cena lindíssima e envolvente! Quanta música, quanta luz, quanta coreografia, quanta juventude! Tudo pulsa! Tudo move! Tudo sugere sonhos e vontades!

A partir dai, já estamos cativos. E entregues para acompanhar e torcer, ao longo da simbologia das estações do ano, as primaveras, verões, outonos e invernos das trajetórias  profissionais e do desenrolar do amor entre Mia (Emma Stone) e Sebastian (Ryan Gosling). A atuação da dupla impressiona e comove! Sem serem particularmente reconhecidos pelas habilidades necessárias para estrelarem musicais (canto e dança), surpreendem pela qualidade, naturalidade e verdade. Com química já lapidada por trabalhos anteriores, constroem sua história de amor com romantismo contagiante e convincente. Não há como não torcer pelo sucesso de ambos e pelo final feliz!

As histórias individuais são comuns a  tantos outros artistas que chegam a Hollywood cheios de sonhos e enfrentam as dificuldades e desilusões. Como também a história de amor é comum a tantas outras que passam do arrebatamento inicial ao desgaste do dia a dia e da interferência dos problemas de sobrevivência. O mérito do diretor Damien Chazelle, que também assina o roteiro, foi criar, dentro de um modelo simples e trivial, personagens que quebram a previsibilidade e se transformam sem perder o que os reconhece.

A cena final provoca  encantamento  ainda mais intenso do que a cena de abertura! O que poderia ter sido contrastado com o que efetivamente foi provoca emoções conflitantes. Um misto de melancolia com resignação, ao mesmo tempo em que anuncia o fim da magia com os créditos finais. Que pena acabar!

Chazelle imprimiu perfeição técnica ao seu filme. Assim,   arte, iluminação, fotografia, figurino e trilha sonora constituem-se elementos formais irretocáveis e impecáveis!

Para quem é familiarizado com literatura, poderia-se dizer que La la Land é um dos mais característicos representantes do parnasianismo, movimento literário definido pela busca da estética perfeita e cuidadosamente trabalhada!

Já consagrado no Globo de Ouro, La La Land  também se  consagrará na emoção inesquecível que certamente entrará na história dos musicais!




quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Inferno Astral.


De todos os infernos do inferno, o inferno astral é o mais desolador. O mais sombrio dos sombrios, o mais assustador dos assustadores, o mais gélido dos gélidos. Um vasto, muito vasto vale de devastação, confusão e abandono.

No inferno astral, cada astro, exaurido ao cumprir seus longos ciclos, encontra descanso. Cada casa tem um dono, cada dono se alimenta do seu elixir para recuperação. Ou redenção. Ao melhor, apenas um salvo-conduto para percorrer mais um ciclo.

Nesse período de convalescença e, portanto, sem guardião, os signos vagueiam à deriva, desorientados,expostos e à mercê dos infortúnios e provações. É mesmo o inferno dos infernos.

Mas, mesmo diante desses perigos, os signos, em geral, aproveitam as suas férias astrais. Enquanto os seus guardiães padecem em sofrimento indescritível, os signos respiram novos ares e ousam novas experiências, novas características, novas definições. Transgressores, saltitam como crianças de casa zodiacal para casa zodiacal sem culpa ou cuidado!

Mas não Capricórnio. Não, não Capricórnio. Nunca Capricórnio. Arcado pelo peso do mundo, Capricórnio é solidário ao seu guardião e também se  recolhe. Sério, preocupado, atento, responsável e resignado, isola-se. Observa, consternado, o caos. Agarra-se, equilibrista, nos picos mais íngremes e inacessíveis para, solitário, ordenar e organizar.  E é nessa  solidão inóspita que espera o seu guardião recuperar-se para, juntos, em missão heroica não reconhecida, reconduzirem o mundo à ordem e ao sentido.

Quando termina o inferno astral de Capricórnio, até o inferno respira em alívio celebrado! Até os fogos  timidamente ardem mais leves! Os demônios festejam! Os monstros ousam brincadeiras inocentes! As profundezas visitam as tonas como comadres. Turbulências se estabilizam. Há suspensão no ar. Por um breve, muito breve  período, os portais do inferno e do paraíso se confundem.

Enquanto isso, Capricórnio, já curvado pelo cansaço jamais refeito, acolhe o seu guardião e, pelos céus zodiacais, segue cumprindo a sua missão.


domingo, 27 de novembro de 2016

Sobre legados.

Rachel já era casada, tinha 2 filhos e trabalhado como secretária executiva durante anos, antes de realizar o sonho de  ingressar na universidade.

Silvia tinha acabado de se casar e já era formada em Economia.

Eu era recém chegada a São Paulo, tinha abandonado a Engenharia Química e assumido a minha vocação na área de língua e literatura.

Vocês tinham que conhecer a Rachel pra entendê-la. Vegetariana. Super perfeccionista. Super detalhista. Super preocupada.  Super exigente. Super dedicada. Super generosa. Super amorosa. Super solidária.  Super atenta. Super filha. Super mãe. Super avó. Ganhou o apelido de Mrs. Morel, em referência à personagem-mãe do clássico  inglês Sons and Lovers de D.H. Lawrence.

Vocês tinham que conhecer a Silvia pra entendê-la. Não há pessoa mais atrapalhada. Nem mais engraçada. E engraçada simplesmente porque é, sem qualquer intenção de ser.  E não há quem tenha histórias iguais. Sério. Nenhuma ficção chega aos pés das coisas que acontecem com a Silvia! São enredos fantásticos, cheios de tramas, subtramas, melodramas, tragédias, comédias. Mas também não há pessoa mais prática e mais objetiva. Problemas com ela não se criam e são logo colocados dentro da sua ordem de grandeza  e zonas de solução.

Eu? Bem, vocês me conhecem bem pra me entender. Sou algo no meio das duas e bem fora das duas.

Portanto,  só a casualidade - ou fatalidade - explica esse encontro  improvável na Faculdade de Letras da USP em 1978. Improvável não o encontro em si, pois, como em qualquer curso, a diversidade  é esperada, previsível e saudável. Digo improvável por ter enraizado, sobrevivido e frutificado fora daquelas salas de aula improvisadas na colmeia, onde o curso de Letras funcionava precariamente naquele tempo.  Trinta e oito anos depois, nossas diferenças fazem toda a diferença nessa amizade sólida e que  já atravessa a 3ª geração!

Não pensem que foi fácil. Rachel sofreu um pouco.  Fazíamos os trabalhos juntas, planejávamos todos os detalhes e, na hora H, eu, que não me preparava como ela, no despreparo  trocava tudo  e fazia no improviso. E ela ficava sem chão, sem saber como seguir, com aquele monte de folhas que ela tinha estudado e decorado por dias.  Ela quis me matar muitas vezes. Sou uma sobrevivente! Mas lembro com carinho das tardes e tardes na sua casa  alternando os trabalhos com as  minhas epopeias  amorosas. Ela ouvia sempre atenta, preocupada e nem sempre de acordo! Foi um alivio quando me estabilizei e casei!

Silvia estava sempre correndo! Ia de casa pra faculdade, da faculdade pra casa da mãe  e nunca tinha tempo pra nada! Uma vez tiramos zero - ZERO!! - num trabalho de francês.  Tínhamos que ler e resumir La Symphonie Pastorale de André Gide.  Inteligentes que somos,  dividimos o livro no meio e uma fez uma parte e a outra fez a outra parte. Trocamos, copiamos e entregamos. O trabalho era individual e não em grupo e a professora deu zero pras duas quando identificou as partes absolutamente iguais! Rimos de nos acabar! Duas marmanjas sendo pegas colando. Tivemos que fazer um trabalho de substituição. Bem longe uma da outra!

Formamo-nos em  1981, numa cerimônia coletiva com outros cursos em uma sala na reitoria, sem qualquer pompa ou destaque. Mera formalidade. Mas os legados desses 4 anos em que nossa amizade foi construída não cabem em nenhum diploma!

Vocês tinham que conhecer a Rachel para entender o seu legado! Ela vem de um núcleo familiar pequeno dentro de outro núcleo familiar enorme! Sua mãe, a queridíssima D. Branca, já falecida e com quem tivemos a sorte de conviver por muitos e muitos anos, ficou viúva muito jovem e com dois filhos pequenos. Mas a família maior, de avós, tios e primos tornou-se a família de referência e de lindos exemplos de união e doação. Não conheço ninguém mais dedicada e com maior senso de família do que a Rachel! Seus cuidados realmente emocionam! Além disso, tornou-se a fornecedora oficial das burekas que os meus filhos tanto amam! E é a minha consultora para dúvidas de português, tradução ou qualquer assunto correlacionado. |E a voz da consciência e sensatez!

Vocês tinham que conhecer a Silvia pra entender o seu legado! Ela dá aulas particulares  de absolutamente tudo! De corte e costura a Física Quântica! E diz pérolas aos seus alunos do tipo : Não pensem que aqui é um templo  ou tenda de milagres!! A gente chora de rir! Silvia tem uma irmã gêmea, Sandra, casada com Arnaldo, o melhor obstetra do mundo e quem me ajudou a trazer Daniel e Marina ao mundo! Só isso já seria legado pra legado suficiente! Mas ela ainda   tem 4  cunhadas que também herdamos como se fossem nossas!! Além do mais, é um guia ambulante! Conhece todas as lojas, sabe onde se compra qualquer coisa e faz os melhores roteiros de viagem!


Rachel é casada com Mauricio, que tem um coração maior que esse  mundo! Seu filho Adriano é casado com a Fernanda e têm 2 meninos: Gabriel e Ian. Adriano, professor da USP,  é o nosso olhar crítico  e cético sobre a educação universitária. Sua filha Carolina é casada com Rich, tem um filho, Joshua,  e mora nos Estados Unidos. Carolina é grande companheira e que faz enorme falta no nosso convívio diário. A Carolina é uma história à parte nessa nessa história!

Silvia é casada com Luiz Antonio, na minha opinião e  na da Rachel, um santo! Sua filha Renata, que hoje é a médica da minha filha, é a  doçura em pessoa,  casada com Fabiano e têm o Antonio, de 1 aninho e meio. Seu filho Luiz Felipe é o nosso xodó e namora a Cibelis, já adotada com torcida organizada!A caçula, Marina como a minha, mora em Londres e é a nossa Lady absoluta! Realeza da cabeça aos pés!

Nosso maior orgulho é sermos capazes de reunir, todos os anos, nossas 3 famílias e comemorarmos todas as coisas boas que vivemos naquele ano. E, por sorte, sempre temos muito pra comemorar! Principalmente o fato dos nossos filhos, e agora netos, fazerem parte desse legado e, espontaneamente (ou assim queremos acreditar!) acomodarem suas agendas para estarem juntos, interagirem, construírem afinidades e participarem desses encontros que têm tamanha importância pra nós!

Tem sido meu privilégio - e enorme prazer - receber esses encontros na minha  casa! E a cada ano, meu prazer é maior e mais emotivo! Olho pras minhas amigas, para as nossas famílias juntas, e meu coração transborda de carinho e orgulho!

Costumo brincar  dizendo que quando tudo parece fora do prumo, sem sentido e caótico, volto ao meu centro e me reconheço no mundo quando acordo e vejo que a Rainha Elizabeth continua aqui. De alguma forma, a certeza da permanência dela é a minha certeza de que o mundo ainda é  o mundo.

Mas tenho outra certeza. Quando tudo parece mesmo fora do prumo, sem sentido e caótico, esse encontro anual é a minha garantia  de que tudo continua certo no meu mundo!

Ontem fizemos o nosso encontro 2016. E hoje acordei com o meu mundo mais florido, mais esperançoso e muito mais promissor!






domingo, 20 de novembro de 2016

Pós-verdade.


O elevador de serviço está parado há dois dias. A conta de luz aumentou. Já é Natal? A unha do meu dedinho do pé está doendo, acho que encravou. Será que te amei mesmo algum dia? Mandioquinha virou artigo de luxo, Garotinho foi preso. Garotinho foi pro hospital. Garotinho foi preso. Garotinho foi pro hospital. Em que sonho te perdi? Lei do Amor fere todas as leis. Meu vestido preto com brilho não cabe mais. Viva o Uber. E os drones. E viva quem eu era com você. Empoderamento é ideologia de quem não tem qualquer ideologia. Desidratar alguém é prova de amor. A boca do inferno de Gregório de Matos foi pro céu. Mickey Mouse completa 88 anos. E eu não sei ser sem você. Dilma não vale nada. Lula não vale nada. Temer não vale nada. Renan não vale nada. Aécio não vale nada. Alckmin não vale nada. Mas quanto vale quem vale? Carboidrato não engorda. E dormir é overrated. Ai, que saudades de nós. E saudades da Darlene. Vidas Secas afogaram. Queria ir pra Mongólia. Ou pra Arcádia. Ou ficar mesmo no Itaim. O Brexit acabou com o verão no Brasil. Tudo culpa do Bob Dylan. O que nos fizemos? O que nos causamos? Não me vejo no Retrato de Cecilia Meireles. Nem no retrato de Dorian Gray. Mas me vejo no Retrato em Branco e Preto do Chico. Sempre me vejo no Chico. Queria mesmo era ser a Capitu. Só que recatada e do lar. Nosso lar. E nossas contas, contas, contas. Nossas contas desacertadas. Je suis. I am. Ai, bendito. Sonhei com o Papa Francisco e acordei de burka. O Japão é comunista. É, sim! Tá escrito na bandeira. Trump é o novo dono do mundo. Mas há ainda algum mundo no mundo?A Superlua minguou em redondilhas menores. E eu só sei que nada sei. Nem saberei. Só vou saber quando souber trazer você de volta pra mim. Sobreviverei a todas as verdades. A verdade salva? A ignorância salva. E quem me salvará do teu vazio? God save the Queen.