quinta-feira, 16 de março de 2017

Formatura.






Daniel, meu filho:

Olho para este certificado e as imagens se confundem diante dos meus olhos em indescritível emoção e imensurável orgulho!

Esse certificado é resultado de sua longa e rica trajetória acadêmica. Do primeiro dia na Passo a Passo, depois passando pela San Lucas em Buenos Aires, Baldwin em Porto Rico, Graded em São Paulo, EARJ no Rio de Janeiro, de volta a Graded, Santa Cruz, La Rochelle na França, Intergraus, USP, Nanterre na França e finalmente de volta a USP, experiências, vivências e aprendizados que vão muito além do conhecimento formal e que construíram seus sonhos, cenários, personagens, figurinos e mundos que se sobrepõem e se completam. Mundos possíveis, imaginários e até mesmo não possíveis. Pois  não há limite para o desejo e a confiança no mundo que queremos criar e viver.

Esse certificado é também resultado de uma vida afetiva - familiar e social - sólida, transparente, agregadora e acolhedora. Família - todos os ramos e facções - que te amam, apoiam, incentivam, se alegram, sofrem e torcem junto. Sempre. Incondicionalmente.

Continuo a olhar esse certificado e ele se transforma na imagem do dia em que você nasceu. Tão pequenininho. E me lembro de tudo o que eu e seu pai sentimos e desejamos pra você naquele momento. A sua felicidade. Plena. Absoluta. Desmedida. Arrebatadora. Inconformada. Transformadora. Sem pretensões, preconceitos ou julgamentos. Libertadora. Generosa. Solidária. Emocionada e emocionante. Consciente. Inconsciente. Funda e profunda.

Esse certificado abre as portas para o mundo ilimitado de oportunidades que você saberá avaliar e escolher. Use-o com responsabilidade, justiça e dentro dos princípios e valores que, sei, você cultiva. Princípios que sempre nos encheram de orgulho e que fazem de você essa pessoal especial e iluminada. Princípios que te guiarão para a felicidade que sonhamos pra você.

O palco, a partir de agora, é oficialmente seu! Acenda suas luzes! Viva seus enredos! Seja todas as suas personagens! E brilhe! Muito! Sempre! Eu, seu pai, sua irmã, avós, tios, primos, afilhados, amigos e todos que ainda estão por vir, estaremos sempre aplaudindo o seu sucesso! Tietagem pura! Na primeira fila!

MERDAAAAAAAAAAAAAAA!!

Beijos.

Mã



quarta-feira, 8 de março de 2017

Dia Mundial das Aranhas.







Fiar e tecer são artes femininas tão antigas quanto a história do mundo. Fios das mais diversas texturas, resistências e cores foram/são usados em atos criativos e expansivos, tão reais quanto simbólicos.

Vários são os mitos de deusas e seus poderes proféticos e mantenedores da ordem cósmica diretamente associados aos movimentos cíclicos e de alternância da tecelagem. E assim, fios mágicos e míticos respondem pela criação dos elementos da natureza e do tempo. Tão frágeis quanto potentes e resistentes, os fios criam e sustentam os destinos dos seres humanos.

Mais além, ainda que a história da humanidade tenha sido/ainda seja contabilizada pela equivocada ótica dos feitos quase que exclusivamente do universo masculino, é o universo feminino, paralelo, misterioso e sutil que efetivamente promove as transformações e as perpetua na memória coletiva.

Fios de histórias - concretas, traduzidas, sonhadas, imaginadas, inventadas - tecem nossas teias de valores, símbolos e identidades. É esse o segredo e missão da natureza feminina.

Surge, assim, a aranha como símbolo maior do trabalho meticuloso e incansável de capturar , desconstruir e renovar complexas teias. Guardiã da ordem, tecelã da sustentação, transmissora da memória.

Aranhas do mundo!!! Dia de recarregar fontes de inspiração e criatividade para  novas teias!!! Delicadas, coloridas,  inesperadas, inusitadas e transgressoras e que nos salvarão da irreversível desumanidade!!

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Memórias de Carnaval.

"Eu tô só vendo, sabendo, sentindo, escutando e não posso falar... Tô me guardando pra quando o Carnaval chegar..." (Quando o Carnaval Chegar - Chico Buarque)





Adoro carnaval! Adoro a alegria vibrante, pulsante, contagiante! Adoro a criatividade, a ousadia, a transgressão, a subversão! Adoro as tantas manifestações soltas e loucas! Adoro as cores, texturas, sonoridades, sabores, odores! Adoro a mistura, a permeabilidade, a osmose! Adoro os espaços de ninguém e de todos, os tempos suspensos e esticados! Adoro a pausa permitida e permissiva!

Minhas memórias carnavalescas mais remotas são dos bailes infantis que minha tia Guanahyra, irmã da minha mãe, nos levava. Na época, morávamos em Belo Horizonte e passávamos as férias no Rio. A tia nos levava nas matinês de domingo, devidamente munidas dos confetes e serpentinas que tanto amávamos! Lembro-me, em especial, das nossas fantasias de havaiana, embora de olhos bem compridos para  a de melindrosa que nossa prima Marcinha usava. Aquela cigarrilha longa era tão chique! Deve ser por isso que melindrosa sempre foi a minha fantasia preferida! E demorei muitos anos até ter uma!

Os carnavais do início da minha adolescência foram na quadra da Vila Isabel. Minha tia Yara, outra irmã da minha mãe, tio Carlos e meus primos eram sócios ativos e grandes foliões! Todos com muito samba no pé! Minha tia não parava um minuto e, no auge da animação, rodopiava lindamente como uma baiana na avenida! Como aproveitamos aqueles bailes! Primeiras paqueras de carnaval, blocos de pareô, quantas lembranças boas! Foi ali, naquela quadra, que participei do primeiro ensaio de escola de samba da minha vida: "ó cirandeiro, ó cirandeiro ó, a pedra do teu anel brilha mais do que o sol" em 1972.

Em seguida vieram os dourados anos dourados. Ano após ano. Olhos compridos nos famosos bailes do Monte Líbano ali ao lado, mas firmes e fortes na comportada AABB. Quantos carnavais! Fantasias exclusivíssimas made by D.Algenir. Novas adesões dos amigos do Colégio de Aplicação a cada ano. Como nos divertíamos! Quantas vezes saímos dos bailes e fomos pra Av. Presidente Vargas pegar o final dos desfiles das escolas de samba! Andávamos, andávamos e a bendita entrada não chegava nunca! "E onde vamos fazer a curva? Lá na m...?" Quantos desfiles maravilhosos conseguimos assistir de penetras já à luz da manhã... Doces lembranças de uma adolescência inesquecível!

Minha mudança para São Paulo em 1978 mudou também os meus salões carnavalescos. D.Toninha e Sr. Lorival, amigos dos meus pais, tinham uma fazenda em Birigui, interior de São Paulo, coladinha em Araçatuba. E foi lá que passei as temporadas de muito sol, piscina e estrada de terra nos carnavais do início dos anos 80! Só havia um clube na cidade e todos iam aos mesmos bailes. Éramos quatro amigas no frisson dos preparativos, no troca troca interminável de roupas, nas táticas de paquera, nas confidências no day after, sempre com o lança-perfume que, graças a Deus, nunca faltava! As idas e vindas pela estrada de terra, as entradas sorrateiras pela porta dos fundos com o dia já adiantado e as sonecas preguiçosas nos colchões da piscina "pra não perder o bronzeado"! Bom demais!

Depois veio a Sapucaí. Solo sagrado! E palco do espetáculo mais lindo dessa Terra - e acredito que de todas as outras Terras! Fui a muitos desfiles na Sapucaí! Coração sempre batendo forte! Com emoção palpitante a cada entrada da minha Mangueira! Meu coração é verde e rosa! Com torcida também sempre fiel pra minha também Vila Isabel.   Com olhos embotados de coloridos deslumbrantes e ouvidos tomados por sambas inesquecíveis.  Quem já atravessou a Sapucaí atravessa um tipo de umbral onde magia e energia se misturam e impregnam para sempre e sempre mais! Não se sai incólume dessa experiência.

O tempo do carnaval é irreverente e caprichoso. E pula e brinca e se inventa. E acha na genética o seu jeito próprio de se fazer presente. E foi nesse tempo emprestado e herdado que o carnaval dos meus filhos se construiu/constrói. No tempo e na sedução de fantasiar-se, de tornar-se outro, fazer-se outro. Daniel é folião.  Mangueirense como eu. E bloquista convicto em ritos sagrados de produção. Marina, mais contida, revela-se no Sargento Pimenta. Foi minha companheira em um dos desfiles da Vila Isabel.  Mas aproveita a folia tanto quanto a calmaria. Tudo vale!

 E, afinal,  já não dizia o poeta que tudo vale a pena se a alma não é pequena? E que tamanho tem a alma inundada de tantos carnavais?






quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Februaris. A César o que é de César.

Um pouco de história para entender por que o mês de fevereiro tem só 28 dias...




O primeiro calendário romano tinha apenas 10 meses, sendo março o primeiro. Os meses de setembro, outubro, novembro e dezembro são, portanto, respectivamente,  referências à sua ordem -   7ª, 8ª, 9ª e 10ª - no calendário. 

Naquela época, os conhecimentos dos solstícios de verão e inverno e equinócios da primavera e do outono já eram muito desenvolvidos e precisos,  calculando cerca de 365 dias entre  dois eventos de cada tipo. 

Os romanos também achavam mais fácil seguir o calendário lunar, mas alteraram os ciclos para 30 e 31 dias,  deixando de fora do calendário cerca de 60 dias.

Numa Pompilius, ao se tornar rei de Roma, promoveu as primeiras mudanças no calendário. Primeiro, mudou todos os meses para números ímpar de dias, pois acreditava que números pares davam azar. Assim, os meses passaram a ter 29 ou 31 dias.  Além disso, criou 12 ciclos lunares ao invés de 10, acrescentando 2 meses a mais ao calendário: janeiro, com 29 dias e fevereiro, com 28 dias. Fevereiro, dedicado a Februa, rito de purificação, estaria isento do azar de ter número de dias pares.

Mas o calendário continuava impreciso e, comparado com o calendário solar, utilizado, por exemplo, pelos egípcios, estava em desacordo com as estações do ano.

Júlio César, ao assumir o poder, adotou o calendário solar de 365 dias e distribuiu os dias que restavam pelos meses, mantendo fevereiro com 29 dias.

Mas tem mais! Dedicaram o mês de julho a Júlio César e o mês de agosto a César Augusto. E assim criou-se um impasse, pois, afinal, os meses deveriam ter o mesmo número de dias para não indicar qualquer favorecimento a um ou outro. A solução foi tirar um dia de fevereiro, pois, afinal, já era mesmo um mês muito particular, e aumentar agosto para 31 dias.

E assim foi feito. E seguimos até hoje. E fevereiro mantém seus 28 dias, com exceção dos anos bissextos, onde ganha um dia a mais. 

Curiosidades... Meras curiosidades... 





terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Sobre misses. E as passarelas na Rua Ramalhete.

"Os estados brasileiros se apresentam... Nesta festa de alegria e esplendor ... Jovens misses seus estados representam... Seus costumes, seus encantos, seu valor... Em desfile, nossa terra, nossa gente... Pela glória do auriverde, em céu de anil... Sempre unidos... Leste, Oeste, Norte e Sul... na beleza das mulheres do Brasil..." 
(Canção das Misses)


Ontem foi o concurso de Miss Universo 2017. Pela primeira vez, a nossa representante foi negra. Belíssima! Mas, infelizmente, nem chegou a figurar entre as 9 finalistas. Venceu a representante da França, de beleza genérica e morna e já caída no esquecimento.O que importa?

A verdade é que esses concursos de beleza estão, a cada ano, mais anacrônicos e descabidos. Inúteis. E que em nada contribuem para qualquer impacto no conceito de beleza ou de multiculturalidade. Pelo contrário, chegam a ser patéticos. Jovens de belezas ajustadas e retocadas, sem emoção e de conteúdo medíocre e limitado. Ainda nos moldes do Pequeno Príncipe e da paz mundial.

Para as mulheres da minha geração, um imenso saudosismo  da época de ouro desses concursos! E que época! E  que ouro!Que maravilha era acompanhar e torcer! Maiôs Catalina. Trajes típicos. E os deslumbrantes vestidos de gala! Treinadas a mão-de-ferro pela inesquecível Maria Augusta da Socila. E o Maracanãzinho? Palco dos sonhos!



Esses concursos eram solenes, formais, nobres, cheios de glamour! Apresentadores e jurados vestiam-se com esmero, tinham honradez, altivez, deferência.

 Fomos referência de beleza na América Latina durante décadas. E produzimos misses de quilates inestimáveis! Misses dos pés a cabeça. Majestosas! Como jamais esquecer Martha Rocha? Adalgisa Colombo? Terezinha Morango? Ieda Maria Vargas? Pra mim, a mais bonita de todas! Martha Vasconcelos? As gêmeas Ana Cristina e Maria Elizabeth Ridzi? Vera Fischer?




Minha infância foi marcada por estes concursos. Grudada na TV. E nas capas da Manchete, Fatos e Fotos e O Cruzeiro.

Quantas vezes reproduzimos os concursos  nos paralelepípedos da Rua  Ramalhete em Belo Horizonte! Da TV para a rua da minha infância! Passarela querida do nosso imaginário feminino! Inventávamos trajes típicos e improvisávamos vestidos de gala para desfilar, empoderadas, diante da comissão julgadora formada por irmãos e amigos do sexo masculino! Gloriosas tardes!

De tantos desfiles naqueles anos, lembro de dois em particular e com imenso carinho. Ambos na minha casa. Desfilávamos na sala, ao som da  radiola que tocava músicas clássicas. Num deles, tia Nenem, minha tia-avó por parte do meu pai, fazia parte do juri, e, enquanto eu desfilava, ela, que era pianista clássica, ouvia a música e  não parava de me chamar; "Maria Alice, parece que estamos no céu!!". Fiquei com muita raiva, porque ela realmente atrapalhou o meu desfile.

A outra lembrança que guardo, saudosa, é do meu primo Carlinhos, já falecido, que calhou de estar lá numa dessas temporadas e foi o apresentador oficial do desfile. Ele adorava anunciar as medidas no desfile de maiô, frisando sempre: 'Busto: ausente". Claro, éramos todas meninas de 6 a 10 anos!! Mas ele anunciava sempre com a maior ênfase!

Esses concursos hoje são bregas e sem importância. Em sintonia com a superficialidade  e inutilidade do que define beleza. Num mundo onde estética ainda é determinante, mas que conflita com as belezas que realmente importam, tornaram-se sem sentido. Ainda bem!

Mas eu, ainda assim, por saudosismo teimoso ,  insisto. Ainda que seja para comprovar que duas polegadas, definitivamente, não fazem a menor diferença. Ou fazem TODA a diferença!





segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

La La Land... La La La...

"City of stars... Are you shining just for me?... City of stars... You never shined so brightly..."





La La Land é  como se costumava chamar Los Angeles, em especial o distrito de Hollywood, em referência à toda a mágica que  acontece ali. Título perfeito para esse filme irresistível, encantador e apaixonante! Toda a magia hollywoodiana está retratada nessa pequena obra-prima!

O musical é um  tributo calculado e merecido ao gênero! O enredo simples e ingênuo,  recheado de clichês, reflete esmero e atenção a detalhes  Nada é descuidado ou gratuito! A nostalgia é construída positivamente e não no saudosismo vão e engessado. Referências a clássicos como Casablanca, Juventude Transviada e Dançando na Chuva celebram a história do cinema, mas, ao mesmo tempo, servem como elo com o tempo presente.

O encantamento já se impõe na cena de abertura. Que cena lindíssima e envolvente! Quanta música, quanta luz, quanta coreografia, quanta juventude! Tudo pulsa! Tudo move! Tudo sugere sonhos e vontades!

A partir dai, já estamos cativos. E entregues para acompanhar e torcer, ao longo da simbologia das estações do ano, as primaveras, verões, outonos e invernos das trajetórias  profissionais e do desenrolar do amor entre Mia (Emma Stone) e Sebastian (Ryan Gosling). A atuação da dupla impressiona e comove! Sem serem particularmente reconhecidos pelas habilidades necessárias para estrelarem musicais (canto e dança), surpreendem pela qualidade, naturalidade e verdade. Com química já lapidada por trabalhos anteriores, constroem sua história de amor com romantismo contagiante e convincente. Não há como não torcer pelo sucesso de ambos e pelo final feliz!

As histórias individuais são comuns a  tantos outros artistas que chegam a Hollywood cheios de sonhos e enfrentam as dificuldades e desilusões. Como também a história de amor é comum a tantas outras que passam do arrebatamento inicial ao desgaste do dia a dia e da interferência dos problemas de sobrevivência. O mérito do diretor Damien Chazelle, que também assina o roteiro, foi criar, dentro de um modelo simples e trivial, personagens que quebram a previsibilidade e se transformam sem perder o que os reconhece.

A cena final provoca  encantamento  ainda mais intenso do que a cena de abertura! O que poderia ter sido contrastado com o que efetivamente foi provoca emoções conflitantes. Um misto de melancolia com resignação, ao mesmo tempo em que anuncia o fim da magia com os créditos finais. Que pena acabar!

Chazelle imprimiu perfeição técnica ao seu filme. Assim,   arte, iluminação, fotografia, figurino e trilha sonora constituem-se elementos formais irretocáveis e impecáveis!

Para quem é familiarizado com literatura, poderia-se dizer que La la Land é um dos mais característicos representantes do parnasianismo, movimento literário definido pela busca da estética perfeita e cuidadosamente trabalhada!

Já consagrado no Globo de Ouro, La La Land  também se  consagrará na emoção inesquecível que certamente entrará na história dos musicais!




quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Inferno Astral.


De todos os infernos do inferno, o inferno astral é o mais desolador. O mais sombrio dos sombrios, o mais assustador dos assustadores, o mais gélido dos gélidos. Um vasto, muito vasto vale de devastação, confusão e abandono.

No inferno astral, cada astro, exaurido ao cumprir seus longos ciclos, encontra descanso. Cada casa tem um dono, cada dono se alimenta do seu elixir para recuperação. Ou redenção. Ao melhor, apenas um salvo-conduto para percorrer mais um ciclo.

Nesse período de convalescença e, portanto, sem guardião, os signos vagueiam à deriva, desorientados,expostos e à mercê dos infortúnios e provações. É mesmo o inferno dos infernos.

Mas, mesmo diante desses perigos, os signos, em geral, aproveitam as suas férias astrais. Enquanto os seus guardiães padecem em sofrimento indescritível, os signos respiram novos ares e ousam novas experiências, novas características, novas definições. Transgressores, saltitam como crianças de casa zodiacal para casa zodiacal sem culpa ou cuidado!

Mas não Capricórnio. Não, não Capricórnio. Nunca Capricórnio. Arcado pelo peso do mundo, Capricórnio é solidário ao seu guardião e também se  recolhe. Sério, preocupado, atento, responsável e resignado, isola-se. Observa, consternado, o caos. Agarra-se, equilibrista, nos picos mais íngremes e inacessíveis para, solitário, ordenar e organizar.  E é nessa  solidão inóspita que espera o seu guardião recuperar-se para, juntos, em missão heroica não reconhecida, reconduzirem o mundo à ordem e ao sentido.

Quando termina o inferno astral de Capricórnio, até o inferno respira em alívio celebrado! Até os fogos  timidamente ardem mais leves! Os demônios festejam! Os monstros ousam brincadeiras inocentes! As profundezas visitam as tonas como comadres. Turbulências se estabilizam. Há suspensão no ar. Por um breve, muito breve  período, os portais do inferno e do paraíso se confundem.

Enquanto isso, Capricórnio, já curvado pelo cansaço jamais refeito, acolhe o seu guardião e, pelos céus zodiacais, segue cumprindo a sua missão.