domingo, 30 de abril de 2017

Belchior. Muito mais do que apenas um rapaz latino americano.

"Ora, direis, ouvir estrelas, certo perdeste o senso... Eu vos direi no entanto: Enquanto houver espaço, corpo e tempo e algum modo de dizer não... Eu canto." (Divina Comédia Humana - Belchior)






Belchior entrou na minha vida de forma arrebatadora no início dos anos 70 com a música Na Hora do Almoço. Perdi a conta do número de vezes que ouvíamos, sem parar, "No centro da sala, diante da mesa..." Lúcia Couto, uma das minhas grandes amigas dessa época, tocava a música no violão e lembro com transbordantes saudades das tardes na sua casa na Rua Voluntários da Pátria dedilhando "moço, moço, moço.."

A sequência de sua obra é de genialidade raras vezes vista! Paralelas, Como os Nossos Pais, Apenas um Rapaz Latino Americano, Velha Roupa Colorida, Galos, Noites e Quintais, Medo de Avião, Comentários a Respeito de John, A Palo Seco, entre tantas. Músicas de beleza que chega a doer, e de conteúdos da maior complexidade! Uma obra que entranhava nos ecos da voz grave no sotaque inconfundível.

Belchior foi pioneiro na invasão cearense seguida por Ednardo e Fagner e destoava dos outros músicos da sua época no exercício da sua militância. Sua latinidade sul-americana, contida entre cifras e letras, ecoava na minha geração de forma tão transgressora quanto o imenso bigode que ostentava. Ao mesmo tempo,  o seu romantismo quase pueril dosava a nossa necessidade da adolescência intensa em emoções. Belchior nos cantava. E nos cantava tão lindamente!





O LP Alucinação foi uma das jóias da minha vida. Poucos LPs apresentam absolutamente todas as faixas com tanta qualidade!




Belchior saiu de cena de forma misteriosa e  atolado em problemas pessoais.  Foi visto no Uruguai, no Rio Grande de Sul, mas nada plenamente confirmado. Várias hipóteses e brincadeiras foram feitas na tentativa de descobrir o seu paradeiro. Uma pena. Merecia reconhecimento maior.

De tantas músicas inesquecíveis, escolho 2: A Palo Seco,  recentemente tomada pelo grupo de teatro do meu filho e cantada de forma absolutamente emocionada pelo talentoso Bruno Caetano; e Divina Comédia Humana, com os versos de Olavo Bilac e que abrem essa minha homenagem.

Belchior foi, sem dúvida, um dos maiores nomes de toda a história da nossa música. Uma grande perda. E uma grande lição:

"Deixemos de coisas, cuidemos da vida... Senão chega a morte, ou coisa parecida... E nos arrasta moço sem ter visto a vida." 


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