segunda-feira, 11 de julho de 2016

Carta para Daniel.

São Paulo, 11 de julho de 2016.

Daniel, meu filho:

Hoje você completa 29 anos. Repito esse número várias vezes para que ele se torne real. Porque, na verdade, não sei quando e como esses 29 anos passaram.

E sinto uma urgência que nunca senti antes ao comemorar os seus aniversários anteriores...Acho que é porque 29 é  o último antes dos 30. E por alguma razão que não sei explicar, acredito que tudo muda aos 30!   Bobagem, eu sei. Mas sinto assim. E então reviro nossa história, nossas histórias, aflita, procurando incompletudes. Tento esgotar o que ainda não se esgotou. Será que te ensinei tudo o que importava? Será que te contei tudo que queria? Ou que precisava?

E então me dei conta que talvez não tenha te contado justamente os detalhes do dia em que você nasceu. Não de propósito. Muito menos  por esquecimento. Apenas porque nunca me pareceram mais importantes  do que  todo o resto do que você já viveu. Nós já vivemos. Ou, pensando melhor,  talvez egoisticamente,  por achar que  os detalhes desse dia me pertenciam. A mim apenas. Mas hoje percebo que são tão seus quanto meus. E eles iniciam e determinam a nossa história juntos.

Que você nasceu em 11 de julho, você bem sabe. 1987. Mas algum dia te contei que era um sábado?

Naquele sábado, 11 de julho de 1987, José Sarney era presidente do Brasil, Orestes Quércia era governador de São Paulo e Jânio Quadros era prefeito. Que trio, não? Talvez explique eu ter vomitado religiosamente todos os dias da gravidez.

Mas naquele dia em especial, eles não tinham a menor importância e nem me lembrei deles quando acordei cedinho e percebi que você ia nascer. Muito antes da hora. Fiquei tão nervosa!

Naquele sábado, 11 de julho de 1987, a inflação anual chegava a 186%. Você consegue imaginar isso?

Mas o que me preocupava e me fez chorar todo o caminho até o São Luiz era você não ter enfeite de porta ou lembrancinhas de  maternidade. Ainda não tinha  comprado e você chegou tão antes da hora... O desespero pelo enfeite e pelas lembrancinhas escondiam o meu medo que algo te acontecesse...  Felizmente, a Tina providenciou tudo e você teve um lindo balão colorido pendurado na porta e lindos pirulitos coloridos de lembrancinhas.! Acho que foi nesse momento que a Tina passou a sempre te ajudar em tudo que você deixa pra última hora!

Naquele sábado, 11 de julho de 1987, Nelson Piquet fez o melhor tempo no treino do circuito de Silverstone na  Fórmula 1. Na corrida mesmo, no dia seguinte, ele ficou em 2º lugar e Ayrton Senna já liderava o campeonato.

Mas eu esperava você nascer, contração após contração. E você não nascia... Até que depois de algumas horas, e para evitar mais perda de líquido, foi necessário fazer uma cesárea. Não que eu me importasse. Eu queria o que fosse  melhor pra você. Além, te confesso, de implorar por  uma anestesia fulminante!

Naquele sábado, 11 de julho de 1987, comemorava-se 50 anos da morte de George Gershwin.

Mas a música que eu ouvia  no centro de obstetrícia era o falatório  e os risos da equipe. Ouvia falarem comigo, mas não lembro o que. Tudo parecia muito distante. Lembro que era tudo muito claro e com muitas luzes. Lembro do anestesista atrás de mim, afagando a minha cabeça e me acalmando. Ele tinha uma voz tranquila e me fez sentir bem. E ouvia o Arnaldo, o meu obstetra, narrar a sua chegada. Não sei se respondi alguma coisa ou só ouvi. Só sei que foi rápido. Muito rápido.

E você nasceu! Às 16:00 hs. Em ponto. Assim.  Como consta na sua certidão de nascimento. Sempre achei essa precisão extremamente significativa. Não te parece que  não ter minutos na sua hora de nascimento significa alguma coisa importante?

Ainda ouço o seu choro. Ficou gravado pra sempre nos meus ouvidos. Lembro do Arnaldo confirmando que era um menino (a gente já sabia pelo ultrassom). Lembro do anestesista me tranquilizando que você estava bem. Colocaram você do meu lado e pude ver o seu rostinho.   E eu chorei. De alegria. De imensa alegria. De nervoso.  De medo de você ter algum problema. Você era tão pequenininho... 44 cm. 2,240 kg. Alguém da equipe te levou. O anestesista, ainda me acalmando, explicou que tinham mesmo que te levar pra pesar, medir, e limpar. Não me lembro o nome dele. Queria me lembrar. Mesmo. Em alguns momentos ele segurou a minha mão. Acho horrível não lembrar o nome de quem segurou a minha mão quando o meu filho chegou ao mundo.

E foi então que aconteceu o que você talvez não saiba. Ou talvez saiba. Ou ninguém saiba. Não que seja segredo jurado. Mas é segredo tácito. Assimilado. Herdado. Só as mães sabem. Ou só eu sei. Eu e o Arnaldo. Não sei  sobre as outras mães e seus médicos. Mas sei sobre mim e o Arnaldo.

Naquele sábado, 11 de julho de 1987, no momento em que você nasceu,  algo muito misterioso aconteceu naquele centro obstétrico. Mágico. Mais mágico do que misterioso.  Eu não lembro claramente, porque estava sob efeito da anestesia e tomada por tanta emoção. Por muito tempo, achei que tinha sido imaginação. Ou cisma. Ou alucinação. Talvez aquele anestesista tenha colocado algum alucinógeno na composição. Será que todos colocam? E é por isso que a gente lembra-mas-não-lembra?

Mas há algo nas salas de parto que escapam da compreensão. Não, nada de sobrenatural. Muito menos de magia negra. Não, nada disso. Mas obstetras, anestesistas e bebezinhos quando nascem têm um combinado. Tenho certeza disso.  Você não precisa confirmar nada. Basta ficar em silêncio e saberei que é verdade. Ou não. Não diga nada. Nem sinalize. Não preciso saber. Eu sei.

Acho  que todo bebê quando nasce traz lá de onde vêm olhos novos de presente pras suas mães. Entrega pro obstetra e o obstetra faz a troca. E acho que é o bebe que traz mesmo. Duvido que o obstetra tenha um banco de novos olhos. Porque só aquele bebê sabe como gostaria que sua mãe passasse a ver o seu mundo. Só pode ser , porque nunca mais vi as coisas da mesma forma. Na verdade, passei a ver tudo como se estivesse vendo pela primeira vez. Tudo que eu via e sabia antes era outra coisa. Outras cores, outro mundo, outras importâncias.  Passei a ver perigos. Muitos. E encantamentos. Muitos. Esses meus novos olhos eram muito mais atentos, mas muito mais chorosos. Queriam ver tudo à frente, mas sempre embaçados. Olhos exageradamente protetores. Até demais. E demasiadamente  derretidos. Até demais. E foram esses novos olhos que aprenderam a ver esse novo mundo junto com você. Não sei o que fizeram com os meus olhos antigos. Não sinto falta deles. O meu novo olhar me fez/faz  muito mais feliz e, ainda que nem sempre veja o mesmo que você, ou como você, por mais que eu tente,  o que vejo é muito mais belo!

Mas o mais impressionante mesmo que transcorre naquela sala é o transplante de coração.  Não vi e nem senti, por isso não posso jurar, mesmo porque nem tenho cicatriz, mas tenho certeza absoluta que transplantaram o meu coração. Não, não ria. E nem me olhe com esse seu ar de deboche. OK, pode não ser exatamente transplante.Mas algum tipo de extensão. E wireless ainda por cima! Com esse fio invisível enorme. Esticado de dar volta ao mundo. Várias vezes. E sem romper. Não tento mais entender. Só sei que é assim. Foi assim. Pois desde aquele momento em que ouvi o seu choro, e te colocaram pertinho de mim, e te levaram para pesar, medir e limpar, meu coração nunca mais bateu no meu peito. Exagero? Sim, eu sei que ainda fiquei com um coração. Ou algum substituto. Bem genérico. Que bate, compassa, me mantém viva. Mas o coração mesmo, aquele que se alegra, se entristece, aperta, vibra, sente raiva, dor,  orgulho, aumenta, alarga, expande, inunda,  e ama, ama, ama, passou a bater fora de mim. Em você. Com você e por você. Nunca mais foi meu.

E tem sido assim desde então. Esse coração fora de mim não tem sossego. Mas, ao mesmo tempo, tem serenidades indizíveis. Um coração heroico. Sobrevivente. Mas acho que tem um dedinho de anjo da guarda também, porque acho que sozinho ele não dava conta. Um coração que vai tão longe quanto mais longe você também vai. E fica esperando, torcendo, tentando sentir igual. Ou pelo menos, entender. Acompanhar sua independência. Deixar ir, afastar. Mas nunca tanto. Só o suficiente. Claro que mais por mim do que por você. Mas não te parece justo?

E olhando essa nossa foto juntos, penso nos seus 29 anos. E  que a partir dos 30 tudo muda. Bobagem, eu sei.  Mas sinto assim. E então desejo que você e eu lembremos, sempre, de todas as nossas conversas mudas. As que nunca precisaram de palavras. As que vêm  desses olhos que você me trouxe quando nasceu. As que fluem pelo fio invisível do meu coração transportado. As que falam amor e cuidado. As que sentem mais do que verbalizam. As que contam, dentro de nós, nossos 29 anos juntos. Os mais felizes da minha vida! Da sua também, claro, pois afinal a sua vida começou ali! Mas eu, que já vivia muita vida antes daquele sábado, dia 11 de julho de 1987, te asseguro: são, sim, os 29 anos mais felizes de todas as existências!

Parabéns, meu filho! Te desejo mais anos de  imensas felicidades ! Te desejo alegrias, realizações, conquistas! Te desejo amigos, quereres, amores! Te desejo  palcos, luzes, aplausos! Te desejo todas as vidas que você conseguir viver e emocionar!

E te desejo, sobretudo,  um pouquinho de toda a  mágica que tomou o nosso mundo naquele sábado, dia 11 de julho de 1987...

Com amor, sempre e para sempre.





Nenhum comentário:

Postar um comentário