domingo, 27 de dezembro de 2020

Pernil de Natal.

 A panela era ainda a mesma. Uma assadeira esmaltada bem alta  e com tampa. Comprada em Porto Rico há 28 anos. Um dos seus orgulhos. Riu consigo mesma. Pensou se ter uma panela ideal para assar pernil de Natal é motivo de orgulho. É. Tem orgulho do seu pernil de Natal. E tem orgulho da sua panela ideal para assar o pernil de Natal todos os anos.

Furou o pernil com um garfo. Sal, bastante cheiro verde, alho, 4 folhas de louro, um tiquinho de pimenta dedo-de-moça, suco de vários limões, uma garrafa inteira de vinho branco e cebola. Muita cebola. Cortou a cebola freneticamente. E chorou lágrimas da cebola e lágrimas dela. Nem sabia a diferença entre elas. Eram ambas sentidas, ácidas e frustradas. Estava temperando o seu pernil de Natal para o Natal que não haveria. Sempre há Natal. Mas não haveria o Natal como  ela sempre preparou. 

Pernil temperado. Foi  pra geladeira por 12 horas. Teve que fazer mágica para aquela panela caber na geladeira da casa da mãe. A geladeira da casa da mãe tem outras funções. Não tem a função de receber a panela com tampa com o pernil de Natal dentro. E cada vez que abriu a geladeira naquelas 12 horas, lembrou-se  que não haveria Natal. Sempre há Natal. Mas não haveria o Natal como ela sempre preparou . O coração apertou. Sentiu saudades. Saudades imensas do Natal que não terá havido. 

Nunca viveu um Natal interrompido. Seria o primeiro. Detestava esse Natal. Detestava tudo o que lembrava esse Natal. Mas o pernil estava marinando na geladeira da casa da mãe. Por 12 horas. Na sua panela ideal com tampa.

Acordou no dia seguinte sobressaltada. Tanto por fazer! Era véspera de Natal! Deu-se conta, então, que era a véspera do Natal que não haveria. Sempre há Natal. Mas não haveria o Natal como ela sempre preparou. Não havia quase nada para fazer. Véspera de que não haveria. O coração apertou.

Mas o pernil precisava assar. À perfeição. Tem orgulho do seu pernil de Natal. E esse ano ele precisava ser melhor ainda!  Era uma questão de honra. Era uma questão de resistência. Era uma questão de sobrevivência.

Forno da casa da mãe  ligado. Pernil no forno. De repente, ela queria queimar tudo naquele forno. Tudo mesmo. Nem que o pernil queimasse junto. Queria juntar todos os coronavírus do mundo e queimar ali no forno da casa da mãe. Queria queimar as aglomerações. Queria queimar os testes esquecidos num depósito. Queria queimar as máscaras não usadas. Queria queimar as praias e bares lotados. Queria queimar os aeroportos e rodoviárias super lotados. Queria queimar os homens que matam mulheres na frente das filhas. Queria queimar o negacionismo, o pouco caso, o desrespeito, a ineficiência, o cinismo, as más gestões. Queria queimar tudo que tenha provocado tanta dor. Queria queimar tudo que impediu o seu Natal. 

O pernil estava assando. E o aroma delicioso começava a se espalhar pela casa da mãe. Junto com o aroma, todas as lembranças de Natal. As árvores da sua infância em Belo Horizonte... O pai saia para catar um galho seco, fincava num vaso, pintavam de prateado e colocavam meia dúzia de bolas azuis. Às vezes, quando ele viajava, trazia spray de neve!  Outras vezes, colocavam chumaços de algodão imitando neve. Riu consigo mesma. Era uma árvore horrorosa! 

O pernil continuava assando e o aroma agora invadia toda a casa! Lembrou-se dos Natais na casa da sogra. Sua sogra fazia pasteizinhos  natalinos tipicamente italianos: calzunos. Eram recheados de frutas secas e banhados em mel. Dava um trabalhão! Mas sem calzuno, não tinha Natal. Lembrou-se também da árvore de Natal da sogra. A árvore mais cafona que se possa imaginar! Era de plástico branco, ficava em cima da mesa lateral e era decorada com bolas vermelhas. Cafona mesmo. Mas a sogra tinha uma hábito com presentes que ela aprendeu e adotou. Embrulhar presentes. Era um ritual. Às vezes, ela comprava todos os papéis iguais. Outras vezes, variava, mas sempre cobria as caixas. Nunca sabiam, pela caixa, o que era ou pra quem era. Ela adotou o hábito e embrulhava também todos os presentes que iam embaixo da sua árvore. Tem uma pilha de papéis, saquinhos, fitas, e enfeites para embrulhos.  Os filhos compram os presentes e trazem para que ela embrulhe. E ela também ama DE/PARA natalinos! Sempre tem pilhas guardados.

Virou o pernil no forno da casa da mãe. A cor estava maravilhosa! Regou com mais vinho, caldo de limão e água. Não podia ressecar. As lembranças jorravam... Lembrou-se da primeira árvore que fez depois que os filhos nasceram. Todos os enfeites eram de pano, pra que eles não se machucassem. Tem esses enfeites até hoje... Como tem quase todos os enfeites que fizeram na escola quando eram pequenos. O coração apertou... Pensou na sua árvore. Linda. Seu maior orgulho. Comprada numa feira natalina em Bayamón, Porto Rico. Nunca tinha ido a uma feira natalina antes. Enlouqueceu! Compraram a árvore. Enorme! E todos os enfeites em vermelhos e verde. Miniaturas, sininhos, símbolos natalinos, personagens. Montaram a árvore naquele ano e acharam que era a árvore mais linda que já tinham visto! Há 28 anos. 28 anos. E a árvore tem os mesmos enfeites e é linda igual. Começaram a tradição de colocar um enfeite novo a cada ano. Podia ser alguma coisa trazida de viagem, ou comprada mesmo. É sempre o último enfeite a ser colocado na árvore. No topo,  o anjo de pano feito pela sua sobrinha/afilhada. Anjo de asas e cabelos vermelhos. Riu lembrando da montagem da árvore. Quando as crianças eram pequenas, compraram um CD de músicas natalinas cantadas pela turma da Disney. Essa é a trilha sonora da montagem da árvore. Já imaginaram Twelve  Days of Christmas cantada na voz do Pato Donald? Um horror!! Mas é esse o CD até hoje. Há alguns anos, a filha gravou um novo CD de músicas natalinas mais "normais". Feliz Navidad e So this is Christmas estão nele, claro! Ela conhece o gosto natalino da mãe. 

O pernil estava pronto. Perfeito. Cor perfeita! Gosto perfeito! Desmanchava na boca... Os aromas e gostos da infância se misturavam aos da idade adulta e aos da "maturidade". Estava mais emotiva. Quanto mais velha, mais emotiva. Não luta contra isso. Vive. Permite-se. 

O pernil estava pronto para o Natal que não haveria. Sempre há Natal. Mas não haveria o Natal como ela sempre preparou. O coração apertou. E ela chorou. Chorou pela árvore que nem montou este ano. Chorou pelo filho em Nova York que não recebeu os cupcakes que ela tinha  encomendado na Magnolia para ele sentir um pouquinho do calor familiar. Chorou pela filha que não passaria o Natal com ela. Chorou até pelo ex-marido que, mesmo sendo ex, nunca deixou de passar o Natal junto com eles. Chorou pelos irmãos e pelos sobrinhos que não estariam juntos. Chorou pelo sorvete preferido dos sobrinhos que não fez este ano. Chorou pela mãe que nem sabia que era Natal e, por isso mesmo, nem sabia que não haveria Natal. Sempre há Natal. Mas não haveria o Natal como ela sempre preparou. 

Às 19:00 da véspera do Natal que não haveria, preparou para mãe uma linda sopa vermelha para dar cara de Natal. Às 22:00, a filha passou de carro e levou na marmita natalina o pernil que ela tanto adora, a farofa de bacon que ela também adora, os fios de ovos que ela também adora e a sobremesa de frutas vermelhas que ela nem adora tanto, mas Natal é Natal. Às 22:30, video call com a filha, o filho e o ex. O filho estressado porque estava com fome e a sua ceia com os amigos estava pronta. A filha menos estressada, mas também com fome. O ex comeu um sanduiche como ceia de Natal. E assim foi o Merry Christmas familiar.

Às 23:00, a mãe já dormia profundamente. A cozinha estava toda arrumada. O pernil, pronto, seria servido no almoço do dia seguinte.

E aí, a bandinha da rua passou. E tocava músicas natalinas. Ela correu pra sacada. As luzes que enfeitavam os apartamentos e jardins estavam acesas. Via-se, pelas janelas, algumas famílias reunidas. A bandinha tocou "eu pensei que todo mundo fosse filho de Papai Noel" e ela, depois da Live de Natal do Caetano Veloso, não pode mais ouvir essa música sem sentir uma profunda tristeza... Mas a bandinha continuou, e tocou, e passou.

Ela continuou ali na sacada olhando as luzes. E pensou que sempre há  mesmo Natal. E enquanto houver luzes, músicas  natalinas e amor transbordante no coração, haverá Natal. 

Mas isso, claro, com o seu  pernil assado na sua panela ideal! 






 




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