domingo, 21 de maio de 2017

Ubu Nanini Rei.






 

Alfred Jarry, dramaturgo francês e um dos maiores inspiradores do surrealismo e do teatro do absurdo, foi também inventor da Patafísica, a "ciência das soluções imaginárias e das leis que regulam as exceções", revelando o homem e seu absurdo existencial.

Ubu Roi, sua obra principal e ainda referência não superada, estreou em Paris em 1896 causando atonicidade pela encenação inspirada no teatro de marionetes e pela sua fala inicial:MERDRE. Assim mesmo, com o r descolocado. O teatro veio abaixo com vaias e apenas 10 anos depois voltou a ser encenada.

No melhor estilo Shakespeariano, Pai Ubu, instigado por sua mulher "Mãe Ubu", assassina o rei Venceslau e toma o trono da Polônia. Em metáforas que nunca perderam sua modernidade, Rei Ubu exerce o seu poder da forma mais cruel, monstruosa, corrupta e covarde. Ao final, ele e Mãe Ubu, impunes de todas as atrocidades cometidas,  fogem de barco para França.

Tive a sorte  - a imensa sorte - de assistir, em 1985,  à montagem de Ubu/Folias Physicas, Pataphysicas e Musicaes do grupo Ornitorrinco e protagonizado por   Cacá Rosset . Que experiência teatral!! Que linguagem ousada, transgressora, instigante e irreverente! Quem, daquela época, não se lembra do bordão "Eu não tô legal"? Figurinos e cenário assinados por  Lina Bo Bardi! Precisa dizer mais? A peça ficou em cartaz por alguns anos e sucesso absoluto de crítica e premiações!

 Rei Ubu tornou-se um dos personagens mais famosos e conhecidos no cenário paulistano daquela época.   A tal ponto que lançou  a sua  candidatura ao governo de São Paulo em 1986 e, no plebiscito de 1993, protagonizou o episódio inesquecível na defesa da Monarquia. O Príncipe Dom Bertrand de Orleans e Bragança, em visita à rádio CBN, viu-se confrontado, não sem tumulto e constrangimento,  com a corte do Rei Ubu, que insistia no encontro diplomático entre dois chefes de Estado.

Não por acaso, Marco Nanini decidiu celebrar seus 50 anos de carreira na pele de Ubu Rei. E não por acaso, convidou Rosi Campos para contracenar com ele como Mãe Ubu, mesmo papel que ela interpretou na montagem de Cacá Rosset nos anos 80.

O resultado? Ubu da melhor das linhagens! Marco Nanini traz um frescor revigorante e um humor dos mais refinados para o palco. A modernidade do texto impressiona e oferece, sem qualquer esforço, analogias com a nossa atualidade política pérfida com as quais Nanini brinca com maestria. E nos presenteia com um passeio leve, sagaz, ácido, rápido e pertinente pela sordidez e mesquinharia do poder corrompido e corruptor. Que ator! E que atriz! Importante ressaltar também o grupo de atores músicos extremamente talentosos!

Adoro o teatro do exagero, do imaginário, do descompromisso com a realidade! Adoro o teatro do fantasioso, do figurino e cenários alegóricos! Adoro o teatro que brinca  com a heresia e com o profano! E Ubu Rei, com muito humor, constrói e desconstrói  essas linhas imaginárias que só o teatro permite.

O Ubu Rei de Cacá Rosset, até mesmo pelo contexto histórico onde se inseriu, tinha um apelo mais transgressor. Marco Nanini, também pelo contexto histórico onde se insere, tem um apelo mais debochado e cínico. E essa é a genialidade do texto atemporal que abre tantas possibilidades!

Viva Ubu Rei!  E viva Nanini!! Que sorte - que imensa sorte - vê-lo, mais uma vez, no palco!

E viva, sempre, "os chifres que carrego na cabeça"!


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