terça-feira, 10 de julho de 2018

As lições da caverna.








"Nos extremos limites do mundo inteligível está a idéia do bem, a qual só com muito esforço se pode conhecer, mas que, conhecida, se impõe à razão como causa universal de tudo o que é belo e bom, criadora da luz e do sol no mundo visível, autora da inteligência e da verdade no mundo invisível, e sobre a qual, por isso mesmo, cumpre ter os olhos fixos para agir com sabedoria nos negócios particulares e públicos."  (Platão -  A República - Livro VII - O Mito da Caverna)



O Mito da Caverna, presente na obra "A República" de Platão, talvez seja um dos textos mais conhecidos e debatidos da humanidade.

Platão imaginava um grupo de pessoas  presas numa caverna, desde o nascimento, com braços, pernas e pescoços acorrentados  e forçadas a olhar unicamente para a parede ao fundo da caverna. Atrás dessas pessoas, e sem que elas pudessem ver, havia uma fogueira que projetava sombras e sons de objetos e seres  fora da caverna. Para os prisioneiros, obviamente, essas projeções constituíam a sua construção de realidade. Em dado momento, uma dessas pessoas conseguiu se libertar das correntes e sair da caverna. No início, ofuscado pela luz do sol e por  cores e formas desconhecidas, teve o ímpeto de voltar para a caverna. No entanto, com o passar do tempo, encantou-se com todas as descobertas e aprendizados. E quis, imediatamente, compartilhá-los com os seus companheiros de confinamento. Esses, no entanto, expostos apenas às sombras projetadas, não acreditaram nos relatos e sentiram-se profundamente  ameaçados pela "insanidade" do indivíduo que tinha conseguido sair e "inventar" outras realidades.

A caverna de Platão talvez nunca tenha sido tão bem representada como pela caverna da Tailândia, onde os 12 meninos e seu instrutor ficaram presos por dezoito longos dias. E as alegorias para sensação x razão, ignorância x conhecimento , pré-conceito x senso crítico ou qualquer outra dicotomia aplicável ao mito  nunca foram tão atuais.

A caverna da Tailândia trouxe lições e legados valiosos e necessários. Cada adversidade enfrentada - e superada - abriu caminhos  pelos nossos coletivos tortuosos e engessados.

Em primeiro lugar, destaco a empatia. Se há um sentimento que pode mudar  - e efetivamente muda! - as endurecidas relações humanas é a empatia. A mudança de solidariedade para empatia é pela dor. E isso faz toda  diferença! A solidariedade aproxima, mas mantém-se fora da linha divisória. É uma relação desigual entre quem tem e quem precisa. A empatia derruba essa linha e estabelece a igualdade que gera a dor, e, pela dor, a capacidade de verdadeiramente colocar-se no lugar do outro. Pensar naquelas crianças presas por tantos dias comoveu até os limites empáticos. Pelos pais - quem é pai/mãe sofreu imensamente; pelos jovens - crianças que se imaginavam na mesma situação; pelos professores/instrutores/educadores/técnicos/etc - quem está/esteve na situação de comando/orientação e se  reconheceu na imensa responsabilidade envolvida;  e pelos socorristas - que sabem as dificuldades e riscos  que toda a equipe de resgaste corria.

Em segundo lugar, destaco a prontidão generosa de todos os que, de alguma forma, podiam contribuir com seu conhecimento e experiência pelo sucesso do resgate. A disponibilidade espontânea que derruba barreiras geográficas, religiosas e políticas a serviço de vidas. Mergulhadores de tantas nacionalidades e técnicos de tantas especialidades unidos pelo mesmo objetivo. A morte de um dos mergulhadores  ganha uma simbologia gigante por abarcar todas as outras que puderam - felizmente - ser evitadas.

Em terceiro lugar, destaco a organização impecável, precisa e responsável. Que orquestração perfeita! Que planejamento minucioso! Cada passo, cada risco, cada detalhe que pudesse comprometer o sucesso! Desde a localização do grupo, passando pelos contatos, pela orientação básica de mergulhos, pela avaliação do clima, do horário, das idas e vindas até o percurso ser melhor conhecido e os obstáculos removidos, a administração emocional fora e dentro, e, principalmente, não exceder o limite físico e emocional que pusesse meninos e socorristas em risco, tudo calculado, revisado, ajustado. E centralizado por quem detinha conhecimentos, e não por captação pessoal, mediática ou política.

Aliás, a discrição e controle da mídia chamou a atenção. Em tempos tão imagéticos e de enorme visibilidade digital, não ceder à tentação da exposição é louvável! E indica o respeito às vidas muito maior do que a  vaidade virtual. Comparado ao resgate dos mineiros chilenos, por exemplo, a diferença é gritante! A exposição demasiada, a exploração da mídia e a interferência de tantos setores alheios à operação em si conturbam e perturbam e, de algum forma, contaminam as reais motivações. Tragédias são notícias, mas vidas não são produtos. Devem ser protegidas, respeitadas e preservadas. No sentido mais amplo e abrangente!

Por fim, destaco o treinador Ake, de quem já nos sentimos íntimos e admiradores. Se houve ou não imprudência de sua parte, esclarecimentos e averiguações oportunas dirão. Mas é fato que, dentro da situação de EXTREMA adversidade e complexidade, ele soube manter o grupo são, unido, sereno, funcional e apto a vencer limitações, medos e ajudar no seu próprio resgate. Esse será um elo eterno, jamais esquecido pelos meninos e inspirador para tudo o que venham a enfrentar no futuro.

Volto à caverna de Platão. E penso no quanto o conhecimento efetivamente ilumina, fortalece, amplia e desloca. E o quanto a ignorância obscurece, enfraquece, encolhe e engessa. E penso no quanto o conhecimento é capaz de dosar a razão sensitiva e a sensação racional. E penso no quanto o senso crítico transforma e provoca mudanças. E penso que o sucesso dessa operação deveu-se, sobretudo,  à troca de conhecimentos e aprendizados entre os que  estavam  dentro e os que estavam fora da caverna.

Penso, sobretudo, no quanto o BEM sobrevive, latente e pungente, em nossas cavernas submersas em lodo e estreitos atingíveis!

Salve, Tham Luang!




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